Conquistando mais um século de progresso humano

Observação: Nós nos empenhamos ao máximo para manter o espírito e as nuances originais de nossos artigos. Porém, pedimos desculpas desde já por quaisquer erros de tradução que você venha a notar. Seu feedback é bem-vindo através do e-mail reader_input@mckinsey.com

Nós, humanos, fizemos avanços sem precedentes nos últimos cem anos. A questão agora é saber se conseguiremos repetir o feito, ou talvez até ir um passo além. Um novo livro do McKinsey Global Institute, A century of plenty: A story of progress for generations to come [Um século de abundância: uma história do progresso para gerações vindouras], concebe um mundo em que todos possam desfrutar, no mínimo, o mesmo padrão de vida da Suíça hoje.

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Pode parecer loucura, mas pusemos essa visão à prova sob condições extremas e constatamos que ela é, de fato, fisicamente possível. Disporemos de energia, alimentos, metais e minerais suficientes. Somos capazes de inovar com a suficiente rapidez. E podemos alcançar tudo isso protegendo nosso planeta.

Os otimistas do passado estiveram do lado certo da história e acreditamos que o mesmo vale para os do presente. Contudo, é preciso acreditar no crescimento – a chave para vidas melhores e mais longas, dignidade humana e oportunidades. A possibilidade de abundância permanecerá uma abstração se nós não agirmos. O futuro das gerações vindouras é algo que precisa ser construído.

O que segue é a transcrição editada de uma conversa sobre o livro com cinco de seus autores. Participam Sven Smit (ex-presidente do Conselho do MGI e sócio sênior da McKinsey), Chris Bradley e Nick Leung (diretores do MGI e sócios seniores da McKinsey), Marc Canal (fellow sênior do MGI) e Janet Bush (ex-editora executiva do MGI).

Sven Smit: Oi, meu nome é Sven Smit. É uma enorme alegria estar aqui para conversar sobre nosso livro, A century of plenty: A story of progress for generations to come. Ao meu lado estão alguns de meus coautores, mas há ainda um grupo bem maior de pessoas que também trabalhou na obra. Esperamos ter alguns momentos agradáveis nesse bate-papo sobre o livro e como foi escrevê-lo. E pensamos em criar uma espécie de jogo: cada um de nós escolherá um cartão contendo uma pergunta que engatilhará a conversa e veremos aonde isso nos leva.

Por que você escreveu este livro?

Sven Smit: Aí está minha primeira: Por que eu escrevi este livro?

Bem, a história é a seguinte. Ian Davis, ex-managing partner da McKinsey, certo dia nos perguntou: “O que vocês aprenderam no McKinsey Global Institute sobre os últimos 100 anos?” E a nossa resposta – creio que coletiva – foi: “Aprendemos muito”. Mas acrescentamos que faltava saber, com base no que havíamos aprendido, para onde o progresso poderia nos levar. Concluímos que o progresso pode muito bem resultar em abundância e que essa ideia talvez valesse um livro.

Nick Leung: Foi durante nossa reunião anual no escritório de Londres, onde Ian Davis era o diretor. Ele nos fez a pergunta: “E então, em 100 anos, o que vocês aprenderam?” Todos nós nos pusemos a pensar: “Bem, existe todo esse balanço patrimonial do mundo, existe o trabalho de capacitação, existem todas essas coisas diferentes que foram pesquisadas nos últimos anos”. Foi a partir daí, se não me engano, que dissemos: “Ótimo, mas não podemos apenas olhar para o passado. Vamos lançar os olhos para os próximos 100 anos.” Na verdade, é provável que tenhamos passado mais tempo olhando para frente do que para trás.

Chris Bradley: No meu caso, eu simplesmente senti – todos sentem isso – que estamos nesse momento de mudanças épicas: mudanças geopolíticas, agora temos a IA, temos mudanças demográficas, todas essas coisas vindo em nossa direção. É um tipo confuso de mudança, sem uma narrativa.

Um dos itens que analisamos no livro foram as chamadas “pesquisas de confiança” da Edelman. Em alguns países, como na Alemanha, menos de 10% dos jovens acreditam que a próxima geração estará em melhor situação que a anterior. Acho que todos nós, coletivamente, sentimos que o mundo está sem leme, sem uma quilha, e nem tem uma narrativa a respeito de para onde tudo caminha – exceto talvez quando se fala em crise permanente ou volatilidade. De modo que queríamos apenas captar a narrativa: o que realmente está acontecendo?

Quando se olha para trás, o que se vê é esse século de progresso impressionante, mas com um sem-número de coisas ainda por fazer. Na verdade, estudos do MGI mostram que estamos quase exatamente na metade do caminho para empoderar o mundo, certo? De quase 0% para a metade. Surge assim uma pergunta inevitável (sobre sua ideia de adicionar a segunda metade ao livro): “Como será a segunda metade? E será que é ela é sequer possível quando a geração dos nossos filhos não sente que crescimento seja algo bom?” Embarcamos então em uma missão maluca, nos perguntando (talvez com um pouco de exagero) se poderíamos mudar toda a narrativa do mundo. Ou pelo menos morrer tentando.

O que significa “abundância” para você pessoalmente?

Sven Smit: Janet, aqui está o próximo cartão.

Janet Bush: O que significa “abundância” para mim pessoalmente? Bem, se você for relativamente rico e de classe média, é fácil pensar que dinheiro não importa. Mas ele importa muito se você for pobre. O ponto principal – e abordamos isso a fundo no livro – é que precisamos fazer com as pessoas que foram deixadas para trás possam ascender. E acreditamos ter demonstrado que isso é possível.

Outra coisa é que dinheiro não é apenas dinheiro. Não é apenas “torpe ganância”, como se diz. É também o que nos faz feliz, porque nos proporciona educação, saúde, todas as coisas boas da vida que fazem a vida valer a pena.

A natureza é importante para mim. De modo que se tivéssemos um mundo no qual todos fossem ricos, mas vivessem em cidades nas quais não há mais nem pássaros bonitos nem florestas, isso me deixaria muito triste e minha alma seria despedaçada. Creio que mostramos no livro que ainda é possível preservar a natureza, viver em harmonia com todas as outras espécies do mundo e ainda assim proporcionar aos que ficaram para trás uma boa vida e algo pelo qual viver.

Nick Leung: Também gosto da palavra “pessoalmente”. Uma das coisas que fizemos no livro foi contar as histórias pessoais não só dos autores, mas também de toda a equipe. São basicamente histórias de como os últimos 100 anos afetaram cada uma das pessoas envolvidas e suas famílias. Onde nossos avós cresceram? De onde vieram?

É isso que definirá o que vai acontecer a seguir e o que pensamos. É por isso que o subtítulo do livro faz menção às gerações vindouras. Para onde tudo isso está indo? Existe algum fundamento, como você disse, Chris, para otimismo? Devemos olhar para trás, ver o tremendo progresso que alcançamos e dizer: “Espere aí, se avançamos tanto no passado, por que não temos mais confiança de que nossos filhos, nossos netos, terão vidas melhores?” É por isso que eu de fato gosto da ideia do “pessoalmente”.

Marc Canal: Para mim, abundância significa “mais”. Significa fartura. Nós não apenas descrevemos a abundância, como também falamos sobre ela fazendo referências a resultados, a desfechos, a como viver melhor e ao caminho para chegar lá. Uma abundância de construção de moradias, de construção de energia, de construção de mais coisas, certo?

Em última instância, é uma questão de “mais”, e esse conceito às vezes pode ser complicado para as pessoas. Será que realmente precisamos de “mais”? Ter moradia acessível, usar energia acessível, significa, na verdade, construir mais, não? Portanto, para mim, abundância não é apenas o objetivo, mas também o caminho para chegar lá.

Sven Smit: Temos também de reconhecer que a maioria das pessoas em muitas regiões do mundo, na maior parte do mundo, está bem longe da abundância. No livro, nós usamos (brincando) a Suíça para definir abundância, como o horizonte de riqueza para onde todos deveríamos ir.

Sempre tenho essa imagem de um agricultor no Quênia que precisa apenas de uma bomba d’água de 50 dólares para transformar uma colheita perdida em uma colheita fértil. E nós aqui tentando resolver o problema dos veículos elétricos, dos veículos a combustão interna, sabe-se lá mais o quê, que custam milhares ou dezenas de milhares de dólares para a grande maioria das pessoas buscando abundância. É uma questão de todos alcançarem a vida que nós aqui conhecemos. Sabemos que é tecnicamente possível. Basta fazer acontecer.

Acho que subestimamos quantas pessoas não conseguem sequer imaginar as coisas que nós, nos países ocidentais mais ricos, consideramos problemas. Elas ainda estão preocupadas em saber se terão ou não uma colheita.

Chris Bradley: Estamos sempre falando dos 1% mais ricos e, em nosso livro, escolhemos a Suíça como referência: será que o mundo inteiro poderia ser uma Suíça? Mas acontece que $82 mil (a renda per capita da Suíça) significa, literalmente, fazer parte dos 1% mais ricos. Ou seja, o suíço típico faz parte dos 1% mais ricos do mundo.

As pessoas em geral falam desses 1% mais ricos como algo divisivo. Mas em nosso livro, dizemos que não. Em 2100, todos estarão entre os 1% mais ricos. E como será isso? É algo que me motiva em termos muito pessoais.

O que você diria a alguém que acredita que os melhores dias da humanidade já se foram?

Sven Smit: Vou passar o cartão para o Marc.

Marc Canal: Certo, o que eu diria a alguém que acredita que os melhores dias da humanidade já se foram? É uma pergunta bastante interessante.

Olhando para a história, se alguém dissesse a mesma coisa em qualquer momento dos últimos 100 anos estaria incrivelmente enganado – com base em evidências empíricas. Seria loucura pensar assim, não é? Segundo, eu diria que, se olharmos para tudo o que temos hoje – a quantidade de tecnologia, mais pessoas instruídas do que nunca, mais cérebros do que nunca – também seria difícil de acreditar. Mas eu jamais apostaria contra a engenhosidade humana. Acho que essa é a pior aposta. Sou fã da humanidade e acredito que somos solucionadores de problemas e que vamos melhorar cada vez mais.

Eu jamais apostaria contra a engenhosidade humana.

Sven Smit: Ouço essa pergunta com frequência. Faço apresentações para grupos de estudantes em diversos fóruns. Costumo terminar dizendo que acredito que minha filha de 16 anos poderá viver até os 120 anos. E que, com um pouco de ajuda dos avanços a IA e de outras pessoas, é provável que cheguemos aos 150. De modo que a pergunta é: “Por que você haveria de querer viver até os 150 anos se o futuro não for promissor?” Respondo que quero viver até os 150 porque gostaria ver meus tataranetos, não importa o que eles tenham de enfrentar, porque quero estar lá para ajudá-los. Eu realmente acredito que o futuro será brilhante e gostaria de presenciá-lo. Mas ninguém se convence. Assim, acho que a melhor maneira de iniciar essa conversa é perguntar aos jovens: “De onde vocês tiraram essa visão tão amargurada?” Eles ficam em silêncio por uns minutos e começam a falar sobre clima, guerras, pandemias, a IA que vai acabar com seus empregos.

Chris Bradley: Moradia.

Janet Bush: Custo de vida.

Sven Smit: E vão simplesmente listando um monte de problemas que são reais para eles. Não estou menosprezando isso. Mas aí penso em meus pais, que me contaram que o preço da casa deles despencou 40% logo depois de a terem comprado, durante a crise do petróleo. E não vejo nada semelhante acontecendo ultimamente.

Por isso eu lhes digo: “Se vocês lerem nosso livro e a pesquisa do MGI, verão que, para todos esses problemas, existem soluções disponíveis, até mesmo para o clima, a pobreza e a carestia – desde que nos dediquemos a isso”.

E prossigo perguntando: “De onde vocês tiraram essa visão de mundo?” Quando enfim chegamos à fonte última, verificamos que geralmente são notícias bem genéricas. E todos nós sabemos que o noticiário tem um certo viés negativo, porque é isso que gera audiência, cliques e coisas do tipo.

Acho que podemos ter uma conversa fundamental com os jovens para compartilhar nossa história com eles, e acho que podemos avançar muito para que as pessoas deixem essa mentalidade negativa de lado. Mas é uma coisa que está muito enraizada nelas.

Janet Bush: Se você analisar cada década dos últimos 100 anos, verá que sete ou oito das dez foram caracterizadas pelo pessimismo, não otimismo.

Em 1925, as pessoas estavam extremamente pessimistas. E, no curto prazo, elas tinham razão, porque logo vieram uma grande depressão e uma segunda guerra catastrófica. O fato é que, em todas as gerações, tendemos a ser programados para o pessimismo. O problema é que isso nos impede de realizar coisas. Portanto, acho que o espírito por trás do livro é que queríamos adotar uma perspectiva mais otimista e, assim, conseguir realizar coisas.

Nick Leung: Não foi apenas otimismo. Um dos recursos mais poderosos ao nosso dispor é a capacidade de mudar o referencial, ou melhor, de ressignificar a realidade, não? É o que o livro se propõe a fazer. Não me lembro qual de vocês teve a ideia do microscópio e do telescópio, mas é bem elucidativa. Ressignificar é dizer: “Não importa o quão problemáticas as coisas possam parecer hoje – e não há dúvida de que os desafios são reais; não fazemos pouco deles –, é preciso redefini-las à luz de um horizonte temporal mais amplo. Se deslocarmos nosso referencial para daqui a 100 anos, tudo parecerá diferente, certo?

Sobre o que Sven disse a respeito de seus pais e da crise do petróleo, essas eram preocupações muito reais na época. Não as menosprezamos, nem aos problemas que temos agora. Mas quando voltamos 100 anos, vemos um padrão de superação desses desafios por meio da engenhosidade, da engenharia, de tudo que a humanidade inventou. E, repetidamente, em cada um dos últimos três séculos, nós aceleramos o progresso humano.

Chris Bradley: Nunca houve um caminho sem percalços. Toda década teve sua crise e vivemos quase sempre em apuros. A verdadeira história da humanidade é de luta e esforço – mas, em última instância, também de vitória. Quando nos propusemos a escrever este livro, todos nós buscamos o passado, ligamos para nossos pais e tentamos nos lembrar da história de nossos avós. Meu avô perdeu um irmão, que contraiu pneumonia, porque a família não tinha como pagar pelos remédios. Ele teve de lutar em uma guerra no Norte da África, da qual nunca falou. Morou em Suez como diretor de escola em meio à crise do canal e teve que escapar às pressas para a Austrália.

A verdadeira história da humanidade é de luta e esforço – mas, em última instância, também de vitória.

O mais estranho para nós é que estamos assistindo a este filme com a perspectiva de 2020. A realidade é que, de 1925 a 2025, a renda global per capita sextuplicou. Só que nossos avós não sabiam disso quando perdiam irmãos e irmãs e lutavam em guerras e precisavam escapar devido a grandes eventos geopolíticos. E isso é que é incrível: eles não tinham como saber e simplesmente foram seguindo em frente.

Sven Smit: Só para constar, acho que temos um certo viés ocidental aqui no grupo. Sei que você mora na China, Nick, metade europeu e metade chinês. Ainda assim, permanecemos um pouco enviesados. Há muitas pessoas na África e na Índia, mas elas não estão nesta sala. Quando viajo e falo sobre a superação de desafios no contexto do futuro, a história é bem diferente quando estamos na Índia. Tenho a impressão de que o mundo ocidental, ou o mundo rico, acabou por se convencer de que a conversa precisa girar em torno de limites, que é algo muito doloroso. Na África, a mensagem que ouço é outra: “Por favor, diga às pessoas na Europa que precisamos, antes de tudo, de comida; quando tivermos comida, iremos à escola; quando formos à escola, teremos acesso à saúde; quando tivermos saúde, poderemos então começar a pensar nas questões do mundo ocidental, todas essas questões sociais às quais vocês dedicam tanto tempo pensando”.

Acho apenas que precisamos ter muito cuidado e reconhecer que esse salto para a abundância é algo extremamente desejado e está presente na mente das pessoas na África, Indonésia, América Latina, onde quer que se vá. E que também está muito presente na mente das pessoas pobres no Ocidente (embora elas talvez tenham uma vaga crença de que não é possível). Os filhos de pais que vivenciaram o progresso temem que eles não terão a mesma vivência. Os filhos que não viram seus pais alcançar esse progresso ainda veem um longo caminho pela frente. Creio que a China está em uma posição intermediária.

Acho apenas que precisamos ter muito cuidado e reconhecer que esse salto para a abundância é algo extremamente desejado e está presente na mente das pessoas na África, Indonésia, América Latina, onde quer que se vá.

Chris Bradley: No estudo da Edelman, a maioria das pessoas na China não acredita que a situação da próxima geração será melhor?

Nick Leung: São 60%. E na Índia também. Ou seja, regiões onde houve progresso recente, progresso muito recente, são otimistas quanto ao longo prazo – e também pessimistas no curto prazo, como todos no momento. Mas lá o otimismo de longo prazo é maior.

Chris Bradley: São lugares onde as pessoas constroem coisas.

Nick Leung: Essa é a chave.

Marc Canal: Exato. Mas, no Ocidente, não há uma única economia avançada em que mais de 30% das pessoas acreditam que a próxima geração estará em melhor situação. Isso inclui os EUA, a Alemanha e a França, onde são apenas 9%.

Chris Bradley: Austrália, 17%.

Se colocássemos o livro em uma cápsula do tempo para o próximo século, o que eu espero que os leitores de 2100 achem dele?

Sven Smit: Vamos lançar os cartões novamente. E o cartão agora vai para Nick.

Nick Leung: Se colocássemos o livro em uma cápsula do tempo para o próximo século, o que eu espero que os leitores de 2100 achem dele? Uau! Bem, tivemos essa conversa enquanto escrevíamos o livro, porque sabíamos que previsões precisas tendem a ser 100% equivocadas. Estamos apontando coisas que julgamos possíveis, mas não estamos afirmando exatamente que elas acontecerão. Acho que isso pode funcionar no que se refere a alcançar a abundância, mas obviamente haverá altos e baixos. Alguns lugares crescerão mais, outros menos. O que afirmamos é que é possível que todos nós possamos alcançar um certo nível de progresso. Mas, e então, o que eles dirão sobre isso no futuro?

Marc Canal: Acho que dirão que a direção estava certa, mas que o grau de precisão estava errado. Claro, a precisão estará errada, porque sequer se trata de uma previsão. Os números não serão os mesmos que veremos daqui a 75 anos, de jeito nenhum, certo? Mas, considerando o pessimismo atual, acho que as pessoas [em 2100] ficarão surpresas com o quanto a direção estava certa.

Nick Leung: Espero que elas leiam e digam: “Sim, claro, parece óbvio”. Assim como – se alguém houvesse escrito um livro em 1920 falando sobre alcançar o nível de progresso que temos hoje – nós diríamos: “Sim, claro, nós vivemos isso, foi isso que aconteceu”.

Chris Bradley: Adoro o modo como nós hoje concebemos o futuro. Veja Guerra nas Estrelas e outros filmes que definiram nossa cultura. Eles imaginaram coisas como buracos de minhoca de luz, robôs, IA e robôs sencientes, mas não conseguiram imaginar uma tela sensível ao toque. Nesses filmes, as telas ainda têm todos aqueles botões ridículos.

Sven Smit: Que eles estão sempre apertando do jeito errado.

Chris Bradley: De modo que, na verdade, o que aconteceu foi que não tivemos viagens espaciais infinitas e ainda não temos robôs sencientes, mas pelo menos nos livramos dos botões.

Seria um exercício interessante daqui a 100 anos ver o que aconteceu e o que não aconteceu. No livro, descrevemos um cenário para a energia. E perguntamos se seria possível energizar o mundo de forma limpa e abundante.

Calculamos que precisaremos de até três vezes mais energia e 12 vezes mais eletricidade. Assim, montamos esse cenário em que a energia será 40% nuclear, 40% de fontes renováveis e 20% de outras origens. E tivemos que tornar esse cenário plausível, com base na física que existe hoje e no que está acontecendo.

As pessoas do futuro talvez olhem para trás, para o que escrevemos, e comecem a rir. Porque, digamos, a fusão nuclear talvez tenha sido dominada ou as baterias se tornaram tão baratas que ninguém mais precisou de usinas nucleares. Nós não sabemos; o que mostramos foi que, aconteça o que acontecer, pelo menos é possível.

Sven Smit: Não sei o que eles dirão. Não sei nem em qual idioma estarão falando. Mas se eu tiver alguma esperança, é que o livro fez uma diferença. Essa é a minha esperança fervorosa. Na verdade, não me importo que as previsões estejam totalmente certas ou erradas, ou precisamente certas ou erradas, mas sim que o que escrevemos fez uma diferença; que havia algo, um senso de possibilidade no ar, e que este livro ajudou a materializá-lo um pouquinho.

Marc Canal: Depois que o progresso já aconteceu, ele se torna parte da paisagem e nós não o questionamos mais. Portanto, existe uma chance de que em 2100 as pessoas estarão tendo uma discussão semelhante sobre a crise de esperança em que se encontram porque, novamente, terão olhado ao microscópio e só visto as coisas ruins.

Depois que o progresso já aconteceu, ele se torna parte da paisagem e nós não o questionamos mais.

Minha perspectiva mudou durante o processo de pesquisa?

Sven Smit: Vamos lançar os cartões mais uma vez. Desta vez, vai para Chris.

Chris Bradley: Minha perspectiva mudou durante o processo de pesquisa? Na verdade, isso faz parte do processo. Aliás, o que há de especial no MGI – e me faz acreditar que éramos bem qualificados como grupo para escrever o livro – é justamente o fato de sermos um caldeirão de muitas perspectivas que convergem com muito rigor; de todos os pontos do espectro político, de diferentes sistemas de valores, de muitas culturas diferentes. Nossa equipe incluía pessoas de todos os continentes do mundo. De modo que o livro, como um todo, é um verdadeiro caldeirão cultural.

Sobre o que eu mais mudei de ideia? Talvez tenha sido minha premissa inicial, pois comecei o livro pensando: “Será que as pessoas não conseguem ver que é óbvio que haverá progresso?” Na verdade, há inclusive uma parte do nosso livro em que questionamos se o crescimento foi de fato bom. Perguntamos se deveríamos repetir o feito e introduzimos a noção de máquina do progresso: será que entrou areia demais nas engrenagens e o progresso travou?

Para mim, o que mudou foi que passei a ter um pouco mais de empatia com as dúvidas que as pessoas têm acerca do crescimento, e percebi a responsabilidade que temos não só de compartilhar uma visão positiva do crescimento, mas também de abordar os motivos pelos quais as pessoas podem achar que o crescimento é uma coisa ruim. Talvez elas achem que crescer tem um excesso de externalidades e causa muitos danos. Por que elas pensariam isso? Talvez achem que não há “materiais” suficientes, pois não conseguem ver como poderíamos construir mais minas. Não percebem o quanto o mundo é imenso. Talvez pensem que o crescimento “não é para mim”, porque sentem a exclusão geracional (uma preocupação particular minha) e, embora a riqueza tenha crescido enormemente, percebem que na sua sociedade ainda é basicamente bom ser velho.

Assim, o que mais transformou minha perspectiva durante o processo não foi tanto a veemência da minha convicção de que o progresso é real – estou no MGI há tempo suficiente para perceber a direção que o trem está tomando – mas que aprendi a parar e perguntar: “OK. Qual seria uma abordagem mais humana para a ideia de progresso, uma que tenha empatia por todos aqueles que não concordam instintivamente com ela? E que tipo de novo contrato social isso talvez exija de nós?”

Janet Bush: Eu era meio que o oposto, pois comecei bem mais pessimista. Estava preocupada com as mudanças climáticas. Estava preocupada com a desigualdade. Estava preocupada com a preservação da natureza e da biodiversidade, e não estava convencida de que poderíamos simplesmente crescer, crescer, crescer e enriquecer as pessoas e nunca mais ter areia nas engrenagens. Comecei muito pessimista, mas quando a equipe provou a possibilidade de progresso e apresentou os números, pensei: “OK, entendi. Agora estou convencida.”

Acho que será difícil. O que eu quero dizer é que, sim, o progresso é possível, mas acho que exige que tomemos muitas decisões acertadas. Precisamos fazer as coisas certas. Por exemplo, precisamos usar o crescimento para a transição energética rumo à energia limpa. Temos tido muito sucesso, mas precisamos repetir a proeza. Portanto, nossa responsabilidade é enorme.

Sven Smit: Vou pegar o outro lado da moeda. Assumimos um grupo bastante grande para realizar o trabalho e fiquei loucamente preocupado com a possibilidade de cairmos num atoleiro e não conseguirmos chegar a um entendimento comum para articular isso, que houvesse questões a respeito das quais nós simplesmente não conseguiríamos convencer as pessoas. Em alguns tópicos, havia pessoas na equipe que eram bastante céticas, e com razão; elas questionavam alguns aspectos, mesmo se mostrando otimistas em relação a outros. Mas, no fundo, o processo mudou a minha perspectiva de que um grupo grande é realmente capaz de se unir. Ganhei confiança de que este livro fará uma grande diferença, pois conseguimos construir uma ponte entre pessoas que tinham opiniões iniciais muito divergentes, levando-as a um ponto em comum. Isso mudou a maneira como eu achava que o mundo deveria ter essa conversa sobre progresso e como trazer para ela pessoas de todas as idades, da Índia à China, da Suíça à Alemanha, dos EUA à Austrália. Houve uma reunião em que fui acusado de ser como aqueles velhos rabugentos dos Muppets, resmungando de tudo e de todos. Meu temor é que eu me tornasse esse velho Muppet.

Chris Bradley: Não se preocupe, Sven, você já superou isso.

Sven Smit: Superei, sim. E a verdade é que esses velhos Muppets não iam aonde tinham de ir; mas nós fomos, e isso exige coragem. Sei que as pessoas vivem em bolhas diferentes. E, nessas bolhas, algumas dessas coisas são mais controversas. Eu pensava: “O que minha filha vai dizer? O que minhas duas filhas vão dizer?” A mais velha já me disse várias vezes que não consegue conversar com as amigas sobre essas visões de progresso. Só espero que, quando ela ler o livro, talvez descubra uma maneira de conseguir. Esta seria uma forma de fazermos a diferença.

Nick Leung: Acho que o que você descreveu são exatamente as duas partes disso. De um lado, há uma profunda empatia pelos pontos de vista de todas as pessoas em torno da mesa; na terceira parte do livro, articulamos, e acreditamos que muito bem, alguns dos argumentos que questionam o progresso. Mas há também os fatos, certo? É uma combinação de empatia e fatos. E, Sven, acho que essa é a sua receita, que todos deveriam sair por aí e escrever um livro como este.

Chris Bradley: Ou pelo menos eles então entenderiam…

Sven Smit: …e conversariam a respeito.

Chris Bradley: Pelo menos. Mas, se você disser que é simplesmente uma conversa e um diálogo que precisamos ter com o mundo, compartilho da sua esperança de que talvez este livro possa gerar mais desses diálogos e mais desses atritos.

Sven Smit: Janet, você está de volta com as perguntas…

Como este livro se conecta com o que está acontecendo no mundo agora?

Janet Bush: Como este livro se conecta com o que está acontecendo no mundo agora? Bem, de muitas e importantes maneiras. Acho que já falamos sobre essa sensação de que tudo está dando errado. Temos guerra na Europa. O Oriente Médio é sempre um enorme desafio. A economia está péssima em muitas áreas no Ocidente, talvez não tanto no Oriente. As pessoas estão preocupadas com as mudanças climáticas. Será que vou ter trabalho ou a IA vai tomar o meu emprego? Há enormes mudanças acontecendo. Acho que abordamos tudo isso de frente, mas então invertemos a narrativa e dissemos: “Sempre houve grandes crises. Estamos em uma agora, um período de incrível incerteza, mas já superamos isso antes.” É bem esse tipo de coisa que norteou nossa narrativa.

Chris Bradley: Uma das narrativas centrais do MGI é que estamos em uma nova era e que, de certa forma, não há como não evoluirmos. Estamos confusos neste momento porque estamos todos sintonizados no canal ao qual já nos ajustamos: a era dos mercados. Mas então o Muro de Berlim caiu, a internet surgiu, a Lei de Moore entrou em pleno vigor, tivemos a globalização, uma ordem mundial unipolar, abundância de energia, uma demografia favorável – todas essas coisas. Simplesmente nos acostumamos a um mundo que vive mudanças radicais, mas mudanças que seguiam um conjunto de regras bastante fixas. Como a Lei de Moore, uma mudança radical. Como um dispositivo eletrônico de 1990 versus um de 2020, radicalmente diferentes, mas baseados nos mesmos princípios fundamentais.

Só que agora a narrativa central é outra: “Adivinhem só, as regras do mundo mudaram”. Se apontarmos nossa antena para a mesma rede de antes, o sinal chegará distorcido e desfocado. Precisamos agora sintonizar uma nova rede porque esta é uma nova era. Uma nova era em que não somos mais unipolares, mas multipolares – isso é realmente desorientador. Ah, e toda essa história de tarifas? O que está acontecendo? E que papo é esse de geoestratégia aqui e segurança ali? Bem, isso é multipolaridade. Um mundo onde a Lei de Moore não vale mais, em que tudo dobrava a cada 18 meses. Hoje a capacidade computacional aumenta de 3,3 a 4 vezes por ano. Trata-se de um tipo de boom radical em que não estamos mais falando de digitalização, mas de humanização.

O cenário demográfico é totalmente outro – acabamos de entrar num mundo em que a demografia deixou de trabalhar a nosso favor e passou a agir contra nós; em que disputas por energia atingiram o auge e vivemos uma espécie de corrida pela eletrificação, com a China adicionando dez vezes mais eletricidade nova por ano do que os Estados Unidos. E era também um mundo em que havíamos nos acostumado ao dinheiro barato e ao crescimento fácil. Sofremos o maior choque simultâneo de oferta e demanda na história da humanidade quando a China ingressou no mercado mundial. Hoje menos de 10% dos países crescem mais de 5% ao ano. O hipercrescimento acabou. Quanto ao impacto desse contexto sobre o nosso livro, eu diria que ele se situa nessa encruzilhada histórica em que nos encontramos agora, e fomos obrigados a tentar entendê-la, perguntando: “É possível reimaginar a abundância, não no mundo como ele foi, não no mundo de que gostávamos e que era muito estável, mas sim no novo mundo que está surgindo?”

É possível reimaginar a abundância, não no mundo como ele foi, não no mundo de que gostávamos e que era muito estável, mas sim no novo mundo que está surgindo?

Se os leitores pudessem tomar uma só ideia deste livro, qual seria?

Chris Bradley: Vamos à pergunta.

Nick Leung: Se os leitores pudessem tomar uma só ideia deste livro, qual seria? Uma ideia.

Chris Bradley: O crescimento é bom.

Janet Bush: Tudo é possível, mas precisamos fazer acontecer.

Sven Smit: Eu liderarei para construir um futuro de abundância.

Marc Canal: Tudo começa com uma nova narrativa.

Nick Leung: Eu diria algo semelhante ao que vocês disseram: está em nossas mãos. Tendemos a achar que mudança, progresso, abundância são coisas que acontecem a nós, enquanto o livro prova que elas dependem de que nós e as próximas gerações as façamos acontecer.

Sven Smit: Sempre que você cria uma história mais otimista do que a média das pessoas ao seu redor, corre o risco de ser o Muppet rabugento sentado na sacada que diz: “Vocês simplesmente não entendem”. Os pessimistas talvez digam que somos apenas um bando de otimistas com alguns cálculos técnicos – é ótimo que a questão técnica exista, mas nunca a resolveremos porque a humanidade não é assim (ou quaisquer outras barreiras que eles vejam).

Gostaria de retomar uma reflexão a respeito disso, que considero extremamente rica, de David S. Landis, que diz que os otimistas estão com a razão. Não porque acertem sempre, mas porque continuam tentando. E, tentando, chega-se mais perto da abundância do que não tentando. Se alguém desiste da ideia de que o futuro será melhor, o que lhe resta fazer? Não há praticamente opções. O pessimista só acerta quando se comprova que ele estava certo ao dizer que a vida não é boa. Já o otimista comprova que está certo mesmo ao afirmar que algo não deu certo, pois a segunda jornada é muito melhor do que a primeira.

Estou profundamente convencido de que a análise técnica, a análise econômica e a análise das possibilidades da realidade física que fizemos estão corretas. Portanto, não acredito que nossas conclusões se mostrem erradas. Talvez venhamos a usar materiais diferentes e, quanto aos materiais específicos, podemos ter nos enganado. Mas o fato de o mundo tentar ou não depende de o mundo fazer uma tentativa otimista. O pessimismo se torna uma estratégia de dividir para conquistar. Quero ressaltar isso porque talvez queiram nos descartar como um bando de otimistas escrevendo uma mera historinha. Mas os pessimistas de 100 anos atrás estavam errados e espero que os pessimistas de hoje também estejam. Não devemos negar que a postura do otimismo é a postura correta.

Chris Bradley: Concordo que este é um momento de perigo para o mundo e que este momento importa, porque o pessimismo pode provocar a realização das suas piores profecias. Se ninguém acredita nas gerações futuras e ninguém quer ter filhos, acabaremos com um futuro sem filhos. Se ninguém acredita positivamente, não investiremos. Se as pessoas pensam que o mundo é fundamentalmente desigual e que tudo é manipulado, elas votarão a favor de certas políticas que podem ou não conduzir ao crescimento. Vemos tudo isso acontecendo diante de nós. E, talvez, para você, Nick, que veio da China, houve um período na história em que uma grande civilização, um grande império, decidiu parar de crescer e não cresceu por um longo, longuíssimo tempo. Por isso eu acho que o otimismo precisa vencer. Mas é uma batalha. É uma batalha, e minha maior preocupação é que esse vibe pessimista acabe se tornando aquele tipo de profecia autorrealizável. Por isso essa nova narrativa é tão importante.

O pessimismo pode provocar a realização das suas piores profecias.

Janet Bush: Acho que o mais importante sobre como o livro acabou sendo escrito é que não há apenas otimismo. Há otimismo, sim, mas leva em consideração muito do que os pessimistas dizem, e encara isso de frente. Se não tivéssemos incluído os problemas no livro, acho que teríamos bem menos credibilidade. Todas as preocupações das pessoas são discutidas no livro.

Sven Smit: Esse futuro não é virtual, não é um jogo. Não está em um videogame. Esse futuro é real. São pontes, estradas, usinas de energia, data centers, robôs, seres humanos com ferramentas melhores, carros melhores, carros mais limpos, energia diferente. Mas acho que perdemos nossa capacidade de construir no ritmo que a China manteve nos últimos 30 anos, um ritmo que tivemos na Europa, como foi a expansão nuclear na França. E se você acredita em abundância, este é o grande momento dos construtores. Acredito firmemente que nossos líderes precisam ser construtores, precisam se dedicar à construção. Precisam detestar licenças que demoram a ser concedidas. Precisam gostar de licenças boas e rápidas que garantam qualidade, e precisam detestar processos longos. Eles têm de querer construir e é construindo que esse futuro virá.

Conclusão

Sven Smit: Bem, acho que é hora de encerrar nossa conversa sobre o livro A century of plenty: A story of progress for generations to come [Um século de abundância: uma história do progresso para gerações vindouras]. Esperamos que tenham apreciado e que possamos estar com vocês para contar essa história.

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