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McKinsey Global Institute

Navegando em um mundo de disrupção

Tendências globais estão criando ganhadores e perdedores cada vez maiores.

Vivemos em uma era de disrupção, em que forças globais ponderosas vêm mudando nossa forma de viver e trabalhar. O crescimento da China, da Índia e de outras economias emergentes, a disseminação acelerada de tecnologias digitais, os desafios crescentes em relação à globalização e, em alguns casos, a quebra de antigos contratos sociais estão perturbando os negócios, a economia e a sociedade. Essas tendências criam oportunidades consideravelmente novas a empresas, setores, países e indivíduos que conseguirem capturá-las com sucesso. Elas estão fazendo emergir no cenário mundial novos participantes dinâmicos e inovadores e podem conseguir injetar uma energia mais do que necessária na produtividade e na prosperidade de muitos países. De fato, nossa pesquisa mostra que os benefícios para aqueles que estiverem à frente serão imensos – e muito superiores ao que já se viu até aqui. Ao mesmo tempo, os prejuízos para aqueles que não conseguirem acompanhar o ritmo também aumentaram desproporcionalmente. Para líderes empresariais, formuladores de políticas públicas e indivíduos, descobrir a melhor maneira de navegar estes tempos interessantes pode demandar uma maneira radicalmente nova de pensar.

Este artigo informativo para o Fórum Econômico Mundial em Davos se baseia em uma pesquisa recente do McKinsey Global Institute (MGI). Ele destaca tanto as oportunidades de criação de valor como a concorrência intensa e os desafios da sociedade que enfrentamos nesta era de desenvolvimentos tecnológicos:

  1. A disrupção tem se intensificado
  2. Há um abismo cada vez maior entre aqueles que abraçam a mudança e os que ficam para trás
  3. Avanços para se tornar uma sociedade mais inclusiva
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A disrupção tem se intensificado

Forças poderosas estão mudando o mundo. O impacto dessas e de outras forças disruptivas tem sido sentido globalmente, com efeitos para todos os países, setores da economia, empresas e, cada vez mais, trabalhadores e meio ambiente. Essas forças também estão se fundindo de formas inesperadas e se combinando para criar impactos ainda maiores do que os esperados até então.

O centro de gravidade da economia está mudando do leste para o sul

Emergentes lideradas pela China e pela Índia foram responsáveis por quase 2/3 do crescimento do PIB mundial e por mais da metade do consumo adicional dos últimos 15 anos. Dentre as economias emergentes, nossa pesquisa identificou 18 de alto crescimento e “desempenho excepcional”, que cresceram de maneira forte e sustentada no longo prazo – e que conseguiram retirar mais de um bilhão de pessoas da pobreza extrema desde 1990. Sete desses países de desempenho excepcional – China, Cingapura, Coréia do Sul, Hong Kong, Indonésia, Malásia e Tailândia – apresentaram uma média de crescimento do PIB de 3,5% nos últimos 50 anos.

Onze outros países (Azerbaijão, Bielorrússia, Camboja, Cazaquistão, Etiópia, Índia, Laos, Myanmar, Turcomenistão, Uzbequistão e Vietnã) apresentaram um maior crescimento médio – de no mínimo 5% anuais – nos últimos 20 anos.

Por trás deste desempenho estão agendas de políticas pró-crescimento baseadas em produtividade, renda e demanda, geralmente estimuladas por fortes dinâmicas competitivas. A próxima onda de desempenho excepcional já está se desenhando – países como Bangladesh, Bolívia, Filipinas, Ruanda e Sri Lanka vêm adotando uma agenda similar e obtendo um crescimento acelerado.

O dinamismo dessas economias acompanhou o surgimento de empresas de mercados emergentes altamente competitivas. Na média, economias de desempenho excepcional possuem até duas vezes mais empresas com receita superior a US$500 milhões do que outras economias emergentes. Elas desempenham um papel crescente no cenário global: embora fossem responsáveis por somente 25% da receita total e da renda líquida de todas as grandes empresas listadas em bolsa em 2016, elas contribuíram com cerca de 40% do crescimento da receita e da renda líquida no período entre 2005 e 2016.

Desde 2000, mais de 120 dessas empresas entraram para o índice da Fortune Global 500 e, quando analisadas com base em diferentes métricas, elas já podem ser consideradas mais inovadoras, ágeis e competitivas do que suas concorrentes ocidentais. Elas também conseguem dar retornos melhores a seus investidores. Entre 2014 e 2016, empresas de desempenho excepcional posicionadas no quartil superior geraram uma média de 23% de retorno aos acionistas, em comparação aos 15% gerados por empresas do mesmo quartil em países de alta renda (Quadro 1).

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Os padrões de globalização estão mudando, com crescimento acelerado de fluxos de dados

No que diz respeito à globalização, uma parte considerável do foco recente tem sido nos retrocessos comerciais, no aumento de medidas protecionistas e na hostilidade pública. Como fenômeno, entretanto, a globalização não está trilhando o sentido inverso; ao contrário, ela está mudando de marcha para alavancar mais o uso de dados e se concentrar nos fluxos do eixo sul-sul. Embora os fluxos financeiros e de produtos entre fronteiras tenham perdido o momentum, os fluxos de dados estão ajudando a alavancar o PIB mundial. A banda de transmissão de dados entre fronteiras cresceu 148 vezes entre 2005 e 2017, chegando a mais de 700 terabytes por segundo – uma quantidade de dados maior do que toda a Biblioteca do Congresso americano. Estima-se que ela deva aumentar ainda em mais de 9 vezes nos próximos 5 anos, em função do aumento continuado dos fluxos comerciais, de comunicação, vídeos, buscas e informações, bem como do tráfego interno nas empresas.

Em linha com o crescimento do seu papel econômico, o mundo em desenvolvimento serve hoje de motor para a conectividade global. Pela primeira vez na história, economias emergentes fazem parte de mais da metade dos fluxos comerciais globais, e o comércio no eixo sul-sul é o tipo de conexão que mais tem crescido. O comércio no eixo sul-sul e no eixo China-sul cresceu também – saindo de 8% do total global em 1995 para 20% em 2016.

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Neste contexto de mudanças, nossa pesquisa mais recente sugere que a relação da China com o mundo pode estar chegando a um ponto de inflexão. Até 2017, a China era responsável por 15% do PIB mundial. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, em 2014 o país ultrapassou os Estados Unidos e se tornou a maior economia do mundo em termos de paridade de poder de compra. (Em termos nominais, o PIB da China representava 64% do PIB dos EUA em 2017, posicionando o país como a segunda maior economia do mundo.) Na última década, mesmo com o crescimento de sua economia, a exposição da China ao mundo, medida pela magnitude dos fluxos comerciais, de tecnologia e de capital com o resto do globo, relativa à sua economia, diminuiu. Ao mesmo tempo, a exposição do mundo à China (a magnitude dos fluxos com a China relativa à economia global) vem aumentando desde 2000. As métricas usadas para medir a exposição incluem a importância da China como mercado e fornecedora de bens e serviços; a importância das exportações de tecnologia chinesa para o gasto mundial em P&D; e a importância da China como fonte de financiamentos (Quadro 2).

As cadeias globais de valor também têm evoluído. Elas estão sendo redefinidas, em parte pela tecnologia, incluindo a automação, o que poderia ampliar a mudança para uma produção de bens mais localizada e próxima aos mercados consumidores. As cadeias globais estão mudando junto com a demanda mundial, à medida que a China e outros países consomem mais do que produzem e reservam uma parcela menor para exportação. Com as economias emergentes desenvolvendo cadeias de fornecimento internas mais abrangentes, esses países estão reduzindo a necessidade de insumos intermediários importados. O resultado disso são cadeias de valor produtoras de bens que passam a ser menos intensivas em comercialização – mesmo com o crescimento ativo de serviços entre fronteiras – e que geram um valor econômico superior ao que as estatísticas de comércio são capazes de capturar.

O comércio com base na arbitragem entre custo e mão de obra vem caindo e hoje representa somente 20% do comércio de produtos. Cadeias de valor globais vêm se tornando mais intensivas em conhecimento e dependentes de mão de obra especializada. Finalmente, cadeias de valor produtoras de bens (especialmente automotivas e de computadores e eletrônicos) passaram a ser mais regionalmente concentradas, com as empresas instalando cada vez mais sua produção em locais próximos à demanda.

O ritmo dos avanços tecnológicos vem se acelerando

As empresas têm se aproveitado de métodos avançados de análises e da Internet das Coisas para transformar suas operações – e aquelas que estiverem à frente vão capturar os maiores benefícios: empresas líderes digitais em seus respectivos setores apresentam maior crescimento de receita e produtividade do que seus concorrentes menos digitais. Elas melhoram suas margens de lucro três vezes mais rápido do que a média e, com frequência, são as maiores inovadoras e as mais disruptivas em suas áreas de atuação. No entanto, as forças do meio digital ainda não se tornaram comuns. Na média, as indústrias apresentam um nível de digitalização inferior a 40%, apesar da grande penetração relativa dessas tecnologias na mídia, no varejo e no setor de alta tecnologia.

A nova onda de inovação está chegando na forma de automação avançada e inteligência artificial (IA). Uma explosão nas habilidades algorítmicas, na capacidade computacional e de dados têm permitido que as máquinas adquiram habilidades e competências muito além das humanas, bem como toda uma nova geração de inovações em nível de sistema. As máquinas já ultrapassam o desempenho humano em áreas como reconhecimento de imagens e detecção de objetos, e estas habilidades podem ser utilizadas para diagnosticar câncer de pele ou leitura labial de forma mais precisa do que com especialistas humanos.

Embora tais tecnologias ainda tenham limitações, em alguns setores já são visíveis os ganhos substanciais de produtividade proporcionados pelos casos de uso da inteligência artificial em funções como vendas e marketing (por exemplo, personalização do “próximo produto a ser comprado”), supply chain e logística e manutenção preditiva. Ao analisarmos mais de 400 casos de uso em 19 setores e nove funções de negócios, descobrimos que a inteligência artificial pode melhorar os resultados de técnicas analíticas tradicionais em 69% dos casos de uso em potencial. A aprendizagem profunda (ou deep learning, no original inglês) poderia ser responsável por até US$5,8 trilhões de valor anual, ou 40% do valor criado por todas as técnicas analíticas (Quadro 3). Na economia global a adoção da IA poderia levar a um aumento de até US$13 trilhões no PIB mundial até 2030, ou cerca de 1,2% de crescimento adicional do PIB por ano.

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A inteligência artificial também poderia contribuir para lidar com desafios urgentes da sociedade – de questões de saúde a mudanças climáticas e crises humanitárias; coletamos um conjunto de casos de usos envolvendo o bem social, mapeando todos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ainda assim, a inteligência artificial não é solução para tudo. Há entraves consideráveis que precisarão ser solucionados, especialmente em relação à acessibilidade de dados e talentos. Além disso, a IA apresenta riscos que precisarão ser mitigados.

À medida que as populações envelhecem, as regiões desenvolvidas precisam passar a confiar mais na produtividade decrescente e na migração em ascensão

O crescimento da produtividade do trabalho vem diminuindo e está próximo aos níveis mais baixos da história nos Estados Unidos e na maior parte da Europa ocidental, apesar da recuperação dos níveis de emprego após a crise financeira mundial. O crescimento da produtividade atingiu a média de apenas 0,5% no período de 2010–14, em comparação à média de 2,4% obtida na década anterior. Esse baixo crescimento da produtividade ocorre justamente quando as taxas de natalidade em países como Alemanha, China, Coréia do Sul, Japão e Rússia, dentre outros, estão bem abaixo dos níveis de reposição, e o crescimento da população em idade produtiva diminuiu ou já está no negativo. Essas tendências demográficas colocam um ônus maior no crescimento da produtividade para alavancar o crescimento do PIB; nos últimos 50 anos, um pouco mais da metade do crescimento do PIB em países do G-20 foi derivado do aumento da força de trabalho, com a maior produtividade sendo responsável pelo restante do crescimento.

A digitalização promete trazer oportunidades substanciais de aumento da produtividade no futuro, mas os benefícios ainda não se materializaram em larga escala nos dados referentes à produtividade devido a barreiras de adoção, defasagens e custos de transição. Nossa pesquisa sugere que a produtividade poderia crescer em pelo menos 2% ao ano nos próximos 10 anos, com 60% provenientes de oportunidades digitais.

Em termos de consumo, em muitos países desenvolvidos a população de idosos (isto é, aposentados e pessoas com idade acima de 60 anos) tem se tornado cada vez mais uma alavanca importante do consumo global. O número de pessoas nesse grupo etário aumentará em mais de 1/3 – passando dos 164 milhões atuais para 222 milhões em 2030. Estimamos que elas deverão gerar 51% do crescimento do consumo urbano em países desenvolvidos, ou US$4,4 trilhões no período até 2030. O consumo urbano do grupo de pessoas com idade igual ou acima dos 75 anos está sendo projetado para crescer a uma taxa anual composta de 4,5% ao ano entre 2015 e 2030. Além de aumentarem em número, na média, os indivíduos deste grupo estão consumindo mais do que os consumidores jovens, principalmente devido ao aumento nos gastos com saúde pública e privada.

Com a baixa fertilidade no mundo desenvolvido, a migração se tornou a principal alavanca de crescimento populacional e de força de trabalho em regiões importantes do mundo. Desde 2000, o crescimento no número total de migrantes em países desenvolvidos chegou à média de 3,0% ao ano, ultrapassando em muito seu crescimento populacional anual de 0,6%. Além de contribuir para a produção atual, os imigrantes ajudam a alavancar a situação demográfica da força de trabalho do presente e do futuro dos países a que se destinam. Melhorar a proporção de dependência dos idosos é fundamental para países como Alemanha, Canadá, Espanha e Reino Unido, onde a maior parte das aposentadorias possui uma estrutura de repartição simples, e a piora na proporção de dependência ameaça.

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Essas forças estão criando um abismo cada vez maior entre aqueles que abraçam a mudança e os que ficam para trás

A disparidade vem crescendo entre países, setores, empresas e indivíduos, contribuindo para o aumento do descontentamento político e social, com resultados imprevisíveis que se somam à disrupção.

Efeitos “superstar”: ganhos desproporcionalmente grandes para os que tiverem melhor desempenho e perdas igualmente grandes para aqueles que ficarem para trás

Analisamos cerca de 6 mil das maiores empresas privadas e públicas do mundo com receita anual mínima de US 1 bilhão – juntas, elas perfazem 65% dos rendimentos corporativos globais antes de impostos. As superstars constituem o grupo das 10% principais empresas e capturam 80% do lucro econômico. Elas atuam em todos os setores da economia global e estão presentes no mundo todo; de fato, sua diversidade aumentou nos últimos 20 anos. Dentre elas estão as empresas de sempre – organizações de tecnologia americanas e chinesas que não existiam há duas décadas, incluindo Alibaba, Alphabet, Facebook e Tencent – bem como marcas globais que estão no mercado há muito tempo, como Coca-Cola e Nestlé, e também bancos chineses e empresas de produtos de luxo francesas a montadoras alemãs. As empresas americanas ainda compõem a maior parcela do grupo – representando 38% das empresas líderes, em comparação aos 45% que detinham na década de 1990. Empresas da China, Coréia do Sul, Índia e Japão obtiveram os maiores ganhos e hoje contabilizam 22% do total – um aumento considerável em relação aos 7% anteriores.

Essas empresas do grupo dos 10% principais capturam hoje um lucro econômico 1,6 vez maior do que há duas décadas, com uma receita mais elevada e margens de lucro mais altas do que no passado. Em comparação, as empresas que compõem o grupo dos 10% inferiores destroem mais valor do que o criado pelo grupo dos 10% superiores (Quadro 4). As perdas econômicas das empresas que compõem o grupo de 10% inferiores são, na média, uma vez e meia maiores do que as de seus pares há 20 anos.

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O desequilíbrio é ainda maior quando analisamos o grupo formado pelo 1% das melhores empresas. As 58 maiores empresas do mundo em termos de criação de valor econômico são responsáveis por 6% de todo o lucro econômico. Elas vendem 20 vezes mais, têm quatro vezes mais lucro (com base na margem da receita líquida) e investem cinco vezes mais em P&D do que firmas médias com vendas anuais superiores a US$1 bilhão.

As superstars não são empresas já estabelecidas entrincheiradas na sabedoria convencional. Desde os anos de 1990, quase metade de todo o coorte das firmas superstar em um ciclo de negócios caíram do grupo das 10% principais no ciclo de negócios seguinte. E a queda pode ser violenta: cerca de duas das cinco antigas superstars saíram do topo para o fundo do poço. Isso geralmente ocorre porque o tamanho da base de seu capital investido amplifica qualquer queda no retorno sobre o capital em relação ao custo do capital. No outro extremo, 20% das empresas no grupo da metade inferior conseguiu subir para a metade superior em cada um dos dois últimos ciclos de negócio.

A adoção de tecnologia é desigual entre setores, empresas e países

A digitalização ampliou o fosso entre as empresas e setores que adotam a tecnologia mais cedo e os demais. O varejo é um bom exemplo disso, com algumas empresas muito digitalizadas inseridas em um setor fragmentado e relativamente não digital. Na maior parte dos países, alguns setores são relativamente mais digitais – por exemplo, serviços financeiros, mídia e o próprio setor de tecnologia.

Com o advento da inteligência artificial, observamos que setores que ocupam posições no topo dos Índice de Digitalização Industrial do MGI (MGI’s Industry Digitization Index) também estão liderando o processo de adoção de IA e possuem os planos mais ambiciosos de investimento neste sentido. À medida que essas empresas expandem a adoção de IA e passam a adquirir mais dados e habilidades nessa área, aquelas que ficaram para trás podem ter ainda mais dificuldade para acompanhar o seu ritmo de desenvolvimento. Em nossas pesquisas com empresas, cerca de metade delas afirma ter inserido ao menos uma habilidade de IA em suas práticas usuais de negócios, enquanto outros 30% estão rodando pilotos para o uso de IA. No entanto, até o momento, somente 20% das empresas afirmaram já ter inserido IA em diversas partes do seu negócio.

No momento, a China e os Estados Unidos são responsáveis pela maior parte do investimento e das atividades de pesquisa relacionadas à inteligência artificial. Um segundo grupo de países, que inclui Alemanha, Canadá, Japão e Reino Unido, possui um histórico de estímulo à inovação em larga escala e pode vir a acelerar a comercialização de soluções de IA. Economias menores e conectadas globalmente – caso da Bélgica, de Cingapura, da Coréia do Sul e da Suécia, por exemplo – também apresentam grande capacidade de incentivar a criação de ambientes produtivos em que novos modelos de negócios são capazes de crescer e se desenvolver muito bem. Há um terceiro grupo de países, formado por Brasil, Índia, Itália e Malásia, dentre outros, que ocupa uma posição menos favorável; no entanto, essas nações exibem pontos fortes comparativos em áreas específicas que podem ser úteis para seu desenvolvimento. A Índia, por exemplo, produz cerca de 1,7 milhão de alunos formados em ciências, tecnologia, engenharia e matemática todos os anos – mais do que o total de formados nestas disciplinas produzidos por todos os países do G-7 juntos. Outros países relativamente subdesenvolvidos em termos de infraestrutura digital, capacidade de investimento e inovação e habilidades digitais correm o risco de ficarem para trás quando comparados a seus pares.

A adoção de IA e a automação deverão causar períodos de transição que demandarão novas habilidades e mudanças nas ocupações existentes

Desenvolvemos cenários para o impacto da automação na força de trabalho com base no ritmo e na extensão de sua adoção. Em um cenário de “meio de caminho”, cerca de 15% da força de trabalho mundial – ou o equivalente a aproximadamente 400 milhões de trabalhadores – podem ser deslocados pela automação no período entre 2016 e 2030. Ao mesmo tempo, de 550 milhões a 890 milhões de novos empregos poderão ser criados em função de ganhos de produtividade, inovação e catalisadores de novas demandas de mão de obra, como o aumento da renda em economias emergentes e o maior investimento em infraestrutura, imóveis, energia e tecnologia.

Isso sugere que o crescimento na demanda por trabalho – descontados eventuais cenários extremos que possam ocorrer – poderia mais do que compensar o número de postos perdidos em função da automação. Não menos significativos são os trabalhos que deverão mudar em decorrência de se ter máquinas complementando cada vez mais as tarefas desempenhadas por humanos no trabalho. Nossa pesquisa mostra que cerca de 30% das atividades em 60% de todas as ocupações poderiam ser automatizadas por meio da adaptação de tecnologias hoje já existentes e em uso – mas somente em cerca de 5% das ocupações praticamente todas as atividades são automatizáveis. Em outras palavras, é provável que o número de ocupações parcialmente automatizadas seja maior do que aquelas totalmente substituídas por máquinas.

Observamos quatro transições principais da adoção de IA e automação. Em primeiro lugar, é provável que milhões de trabalhadores tenham de mudar de ocupação. Algumas dessas mudanças ocorrerão dentro do mesmo setor ou da mesma empresa, mas muitas ocorrerão de um setor para outro e de uma região para outra. Embora ocupações que demandem atividades físicas em ambientes muito estruturados e processamento de dados venham a diminuir em número, outras mais difíceis de automatizar devem crescer.

Em segundo lugar, os trabalhadores precisarão de habilidades diferentes para ter um bom desempenho e crescer no trabalho no futuro. A demanda por habilidades emocionais e sociais, tais como comunicação e empatia, aumentará quase tão rapidamente como a demanda por muitas habilidades tecnológicas avançadas. A demanda por habilidades digitais básicas tem crescido em todos os tipos de emprego. A automação também deverá gerar uma maior necessidade de habilidades cognitivas de alto nível, particularmente pensamento crítico, criatividade e processamento de informações complexas. A demanda por habilidades manuais e físicas será reduzida, mas elas permanecerão a única grande categoria de habilidades da força de trabalho em 2030 em muitos países (Quadro 5).

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Em terceiro lugar, lugares e fluxos de trabalho mudarão à medida que mais pessoas passem a trabalhar junto com máquinas. Isso será desafiador tanto para trabalhadores individuais, que precisarão ser retreinados, como para as empresas, que deverão se tornar mais adaptáveis.

Finalmente, a automação possivelmente pressionará a média de salários nas economias avançadas. Muitos empregos de salários médios são dominados por atividades altamente automatizáveis em áreas como manufatura e contabilidade, que deverão diminuir em número. Empregos de altos salários, especialmente para profissionais de tecnologia e da área médica muito especializados, deverão crescer substancialmente. No entanto, muitos dos empregos que podem vir a aumentar em número – caso de professores e auxiliares de enfermagem – geralmente possuem estruturas de baixos salários.

A pressão sobre salários deve ser menor nas economias emergentes, onde os salários relativamente baixos de muitos trabalhadores poderá retardar a adoção da automação, dado que o caso de negócio é menos atraente.

Sociedades cada vez mais desiguais estão se polarizando e há a percepção de quebra do contrato social

Apesar do crescimento da renda e da riqueza em muitas economias, também houve crescimento na variabilidade e na desigualdade dos resultados. Além disso, em algumas economias avançadas, uma parcela da população percebe uma quebra no contrato social. Isso ajudou a incendiar as crescentes tensões sociais e políticas que se manifestaram de diferentes formas, incluindo o aumento de partidos contra o establishment que prometem mudar a forma de operar em alguns países, o voto de 2016 no Reino Unido a favor da saída da Europa e os recentes protestos dos chamados “coletes amarelos” na França. Nossa pesquisa mostra que, no período de 2005–14, a renda real dos mercados ficou estagnada ou caiu para aproximadamente 65% a 70% dos domicílios em economias avançadas. Embora isso tenha ocorrido parcialmente como consequência da crise financeira de 2008, finalmente eliminada pelo crescimento econômico recente, há outros fatores estruturais que não desaparecerão.

Se olharmos o período até 2017, no mercado de trabalho observamos um aumento na renda real per capita, mas pouca mudança na desigualdade média da renda. No mercado de capital, vemos o aumento da riqueza real por adulto e menos pobreza de idosos, mas maior desigualdade da riqueza, um aumento no número de domicílios muito endividados e menores taxas líquidas de reposição previdenciária para aposentadoria.

O estresse ambiental está aumentando, com implicações para os países, as indústrias e as pessoas mais vulneráveis

Níveis mais altos de atividade econômica em escala global têm causado impacto no meio ambiente – tanto positivo como negativo. Níveis mais altos de emissões de dióxido de carbono decorrentes da produção e do uso de energia estão ligados ao aumento dos riscos de comprometimento do meio ambiente e a um maior estresse ambiental. Ao mesmo tempo, descobertas e avanços importantes em inteligência artificial, baterias e fontes renováveis de energia têm permitido trilhar um caminho de crescimento mais eficiente em termos de emissões de carbono.

Os fluxos migratórios ligados ao meio ambiente estão aumentando. O número de refugiados e de solicitantes de asilo cresceu 2,5 milhões entre 2005 e 2010, para então saltar cerca de 8,1 milhões entre 2010 e 2015. No futuro, a mudança climática e outros estresses ambientais podem forçar as pessoas a deixarem suas casas.

Exigências maiores em relação à sustentabilidade na indústria têm feito as empresas repensarem como elas desenham e entregam produtos, serviços e projetos, aumentando o foco na redução de resíduos e emissões de carbono. As estimativas indicavam que a construção de prédios “verdes” e sustentáveis deveria crescer, em média, 22,8% ao ano entre 2012 e 2017. Até 2030, o percentual de veículos elétricos poderia chegar a 50% das vendas de novos veículos em alguns lugares, com índices de adoção mais elevados em cidades desenvolvidas densas que tenham incentivos ao consumidor e uma regulamentação de emissão de gases mais restritiva.

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Avançando para se tornar uma sociedade mais inclusiva

Retomar o crescimento inclusivo, de forma a permitir que parcelas muito maiores da população possam se beneficiar dos fluxos globais e do crescimento econômico futuros, será mandatório. Elencamos algumas ideias de como uma sociedade mais inclusiva poderia ser – elas podem servir de base para uma discussão mais aprofundada sobre o assunto.

Adotar uma mentalidade favorável ao crescimento e uma agenda de negócios públicos que leve ao crescimento rápido e sustentável do PIB per capita

Todas as economias – tanto avançadas como em desenvolvimento – podem aprender com a agenda favorável ao crescimento implementada por economias emergentes de desempenho excepcional, tanto do setor público como do privado. Isso inclui passos para estimular o acúmulo de capital por meio de políticas industriais e economias, conexões mais profundas com a economia global, criação de ímpeto competitivo e desenvolvimento de mais competência, agilidade e abertura à experimentação regulatória na própria esfera governamental.

Capturar o impacto econômico líquido positivo decorrente de inteligência artificial e automação

Os maiores impactos econômicos de IA possivelmente ocorrerão via efeitos no mercado de trabalho, incluindo substituição, aumento e contribuições da mão de obra para a produtividade no trabalho. A IA também criará externalidades positivas, facilitando um comércio mais eficiente entre fronteiras e permitindo a expansão no uso de fluxos de dados valiosos entre fronteiras. A aplicação inclusiva de tecnologia pode aumentar o PIB e trazer benefícios reais a áreas tradicionais, como agricultura, saúde e transportes.

Lidar com as implicações da adoção da tecnologia para o mercado de trabalho, incluindo o retreinamento e a transição de trabalhadores em larga escala

Os trabalhadores deverão adquirir novas habilidades e se tornarem mais adaptáveis à medida que passarem a trabalhar cada vez mais próximos de máquinas em constante evolução. Algumas empresas globais, incluindo Walmart, SAP, AT&T, bem como organizações de mercados emergentes, como Tata, Infosys e Tech Mahindra, estão adotando amplas iniciativas de “requalificação”, mas é necessário um empurrão muito mais forte de parte da sociedade para reconfigurar a educação de forma a torná-la relevante para o mercado de trabalho no futuro, assim como para retreinar trabalhadores em metade de carreira para dar a eles novas habilidades. É necessário dar uma nova ênfase na criatividade, no pensamento sistematizado e crítico e no ensino adaptativo.

Abordar as preocupações da sociedade em relação à inteligência artificial e à automação

Junto com o fosso econômico cada vez maior que pode emergir como uma consequência não intencional do uso de IA, os líderes empresariais e os governos deverão lidar com outras áreas preocupantes, incluindo o mau uso da inteligência artificial e a privacidade de dados.

Preparar o caminho para o aumento de trabalho independente

De 20% a 30% da população em idade produtiva nos Estados Unidos e na União Europeia está envolvida em trabalho independente. Embora hoje somente cerca de 15% do trabalho independente seja conduzido em plataformas digitais, esta proporção está crescendo rapidamente. As pessoas estão utilizando cada vez mais as plataformas digitais para aprender, encontrar trabalho, mostrar seus talentos e estabelecer redes pessoais. Formuladores de políticas públicas e líderes empresariais podem fazer mais para facilitar novas oportunidades de trabalho e aceitar e acelerar a transformação de ortodoxias de trabalho.

Atingir igualdade de gênero significa um incentivo ao crescimento por toda a próxima década para a maior parte das economias

Nossa pesquisa sobre igualdade de gênero mostrou que um cenário de “potencial total”, em que as mulheres participam da economia de forma idêntica aos homens, adicionaria até US$ 28 trilhões – ou 26% - ao PIB anual global em 2025, quando comparado a um cenário em que tudo permanece como está hoje. Esse impacto é praticamente equivalente ao tamanho das economias atuais da China e dos Estados Unidos combinadas. Um cenário alternativo de “melhor da região”, no qual todos os países atingem o índice de desenvolvimento do país com melhor desempenho em sua região, agregaria até US$12 trilhões ao PIB anual em 2025, o equivalente ao tamanho atual do PIB da Alemanha, do Japão e do Reino Unido combinados (Quando 6).

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Ainda persistem alguns desafios, como a participação especialmente pequena da mão de obra em empregos de alta qualidade, a baixa representação sênior no pipeline, a forte exclusão financeira e digital, as atitudes sociais entranhadas em relação aos papeis a serem desempenhados por mulheres e o problema disseminado e persistente da violência contra mulheres e jovens do sexo feminino.

Integrar efetivamente migrantes para ter um impacto positivo na produtividade global e reduzir lacunas sociais e econômicas

Trabalhadores que passam a operar em ambientes de maior produtividade contribuíram com aproximadamente US$6,7 trilhões, ou 9,4%, para o PIB global em 2015—cerca de US$3 trilhões a mais do que teriam produzido em seus países de origem. A América do Norte capturou até US$2,5 trilhões desse resultado, enquanto cerca de US$2,3 trilhões foram para a Europa ocidental. Reduzir a diferença de salários entre imigrantes e trabalhadores nativos – passando de 20-30% para 5-10% - por meio de maior integração cívica, social e econômica poderia se traduzir em algo em torno de US$800 bilhões a US$1 trilhão adicional na produção global por ano.


Cada uma das forças disruptivas que destacamos neste artigo seria por si só desafiadora – juntas, elas podem parecer assustadoras. Ainda assim, as oportunidades que essas forças globais geram para a economia, as empresas e a sociedade são igualmente impressionantes e já estão criando novas áreas de prosperidade para aqueles que saíram na frente e as adotarem. Abraçar essas tendências, ao mesmo tempo que se tenta mitigar seu impacto negativo para o meio ambiente e para aqueles que não conseguem acompanhar o mesmo ritmo, é hoje uma questão primordial dos nossos tempos.

Sobre o(s) autor(es)

Jacques Bughin e Jonathan Woetzel são diretores do McKinsey Global Institute e ficam baseados em Bruxelas e Xangai, respectivamente.

Os autores agradecem Michael Chui, Susan Lund, Anu Madgavkar, Sree Ramaswamy and Jaana Remes por suas contribuições para este artigo.

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