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Embora eventos recentes indiquem possíveis mudanças na dinâmica da região do Golfo Pérsico, a imprevisibilidade da situação continua desorganizando os padrões de viagem, abalando a estrutura econômica do setor aéreo e pondo à prova a resiliência dos mercados de turismo em todo o mundo. As pessoas continuam querendo conhecer o mundo, mas as tensões geopolíticas e a perspectiva de tarifas aéreas ainda mais caras têm levado muitos viajantes a adotar uma postura de esperar para ver antes de agendar novas viagens. Alguns talvez tentem compensar o aumento do custo de transporte gastando menos com hospedagem e experiências; outros poderão enfrentar dificuldades para chegar ao seu destino.
As empresas de viagens devem aproveitar este momento para fazer um balanço de como a disrupção geopolítica recente afetou seu mercado e avaliar quais mudanças deverão persistir no futuro. Diante das incertezas atuais, todo o setor de hospitalidade deverá enfrentar prazos de reserva mais curtos, pois os hóspedes tenderão a tomar decisões de última hora. As companhias aéreas, por sua vez, já enfrentam disrupções nos corredores aéreos, custos crescentes de combustível e dificuldades de conexão em hubs importantes, o que pode elevar as despesas operacionais e resultar em tarifas mais caras nas principais rotas internacionais. Para a economia dos países do Golfo, que ao longo dos anos conseguiram se posicionar como um ponto de convergência da aviação global e importantes destinos turísticos, a disrupção foi particularmente aguda, reduzindo o fluxo de passageiros e a receita dos hotéis.
Embora reconheça a fluidez da dinâmica atual, este artigo apresenta algumas considerações para todos os participantes do setor de viagens e turismo, que precisam enfrentar este momento com estratégias bem formuladas.
As pessoas ainda querem viajar?
Em muitos mercados, a demanda continua intacta. No entanto, a incerteza adiou reservas, alterou padrões de viagem e redefiniu gastos e escolhas de canal. Os viajantes continuam valorizando a flexibilidade, mas aguardam a evolução da dinâmica geopolítica e dos preços das viagens.
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Por exemplo, uma pesquisa da McKinsey com consumidores italianos constatou que, em 20 de maio, 74% dos entrevistados planejavam viajar durante o verão de 2026, embora 63% ainda não houvessem confirmado suas reservas. Isso sugere que a demanda persiste, mas que os viajantes querem preservar sua flexibilidade, sendo que 56% disseram que seus planos de viagem haviam sido afetados de alguma forma pela geopolítica – embora apenas 3% tivessem efetivamente cancelado. Além disso, 24% dos entrevistados afirmaram que o desejo de aguardar mais informações e notícias os impedia de confirmar suas reservas.
Outros dados atestam que o comportamento dos viajantes foi profundamente afetado pelo conflito no Oriente Médio. No final de abril, entre 60% e 70% dos viajantes nos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido afirmaram estar ajustando seus planos de viagem para os seis meses seguintes. A segurança tornou-se o principal fator de decisão nesses três mercados, à frente da conveniência e do preço (Quadro 1). As mudanças de comportamento foram mais intensas nos Estados Unidos e os viajantes americanos se mostraram os mais propensos a substituir viagens internacionais por viagens domésticas e a mudar o meio de transporte. Um número expressivo deles tem recorrido a agentes de viagens para obter informações confiáveis e sentir-se mais seguro durante esse período de incerteza.
Os viajantes ainda conseguem chegar aonde desejam ir?
Encontrar voos tornou-se mais difícil para alguns viajantes. Diante do aumento dos custos e da incerteza da demanda, companhias aéreas de todo o mundo reduziram suas ofertas regulares. Muitas delas – e especialmente as chamadas low-cost – começaram a eliminar suas rotas menos rentáveis em resposta ao aumento do preço do querosene de aviação. Dependendo da volatilidade desses preços, novas reduções de capacidade poderão ocorrer.
Ao mesmo tempo, a conectividade nos hubs aéreos do Oriente Médio foi bastante prejudicada pelo conflito no Golfo. Com os viajantes sendo direcionados para hubs alternativos, o número total de passageiros internacionais fazendo conexão nos hubs do Oriente Médio caiu 53% (5,1 milhões) em março/abril de 2026 em relação ao mesmo período de 2025 (Quadro 2). Vale destacar, porém, que a posição estratégica da região e a conectividade global que ela construiu poderão contribuir para sua recuperação como hub de aviação e de viagens. Alguns operadores turísticos do Golfo estão aproveitando esse período para renovar e aprimorar suas ofertas, demonstrando confiança em uma futura recuperação.
Na maioria dos mercados, as conexões nos hubs do Oriente Médio estão sendo substituídas, ao menos em parte, por conexões em hubs alternativos fora da região do Golfo. Istambul, por exemplo, consolidou-se como um importante ponto alternativo de conexão e registrou perceptível aumento do tráfego aéreo. Além disso, vários voos com conexão estão sendo substituídos por voos diretos, eliminando completamente a necessidade de um hub – é o caso de algumas companhias aéreas chinesas, que adicionaram voos diretos para a Europa. As transportadoras chinesas e turcas incluíram mais de 4 mil novos voos em suas programações de junho a novembro de 2026, representando cerca de 56% de toda a capacidade adicionada pelas dez maiores companhias aéreas do mundo.
A análise da McKinsey, que examinou mais de 90 variáveis de demanda do setor turístico, indica que o número total de assentos disponíveis e a existência de voos diretos são os dois fatores mais relevantes para a capacidade de um destino atrair visitantes internacionais de lazer. O aumento da oferta de voos diretos em determinadas rotas pode, portanto, levar a uma reconfiguração dos fluxos de viagens.
Quanto podem subir as tarifas aéreas?
As restrições no espaço aéreo e o aumento do preço do combustível de aviação elevaram os custos das companhias aéreas, exercendo pressão sobre as tarifas aéreas. Como exemplo ilustrativo, o custo de um voo de Londres a Mumbai – que hoje precisa percorrer uma distância maior devido às áreas de exclusão no espaço aéreo da região do Golfo – chega a ser 63% maior do que antes do conflito (Quadro 3). Caso esse aumento seja repassado aos passageiros, o preço de um assento nesse voo pode subir entre 13% e 44%.
Diante das dificuldades de viajar na região do Golfo, para onde a demanda pode migrar?
Muitos viajantes estão revendo seus planos de visitar a região do Golfo devido às tensões geopolíticas no Oriente Médio. A maioria dos mercados da região registra queda significativa nas receitas de hospedagem (Quadro 4). Dubai sofreu o maior impacto, com uma queda de 75% em relação ao ano anterior, o equivalente a uma redução de $1,8 bilhão. Os hotéis de luxo enfrentam desafios específicos, pois a demanda de alto padrão tende a ser mais sensível a crises do que a demanda doméstica ou a do mercado de massa.
Para onde a demanda está migrando e ganhando força? Os primeiros sinais sugerem que muitos viajantes estão optando por destinos mais próximos de casa (Quadro 5). Os europeus – que, no passado, talvez preferissem visitar a Ásia – se mostram mais propensos a reservar viagens para destinos no Mediterrâneo, como Tânger ou Túnis.
Os destinos no Golfo não são os únicos a registrar redução no fluxo de viajantes: destinos pequenos ou remotos, sem voos diretos e dependentes de conexões no Oriente Médio, também deverão enfrentar desafios específicos. As Seychelles e as Maldivas, por exemplo, altamente dependentes dessas conexões, registraram uma redução significativa no número de visitantes desde o início do conflito.
Quanto tempo deverão durar os efeitos no turismo?
A queda nas receitas do setor de hospedagem em alguns mercados do Golfo é semelhante à observada no início da pandemia de COVID-19 (Quadro 6). Se o mesmo padrão se repetir, o período de recuperação poderá ser de seis a nove meses. No entanto, a trajetória de recuperação dependerá, neste caso, em grande parte de uma resolução geopolítica – e preocupações com a segurança podem produzir efeitos mais duradouros sobre o turismo do que uma pandemia. O risco de um cenário negativo talvez esteja mais relacionado à duração da queda do que à sua intensidade e, mesmo após a recuperação do volume de viagens, o valor em jogo poderá continuar defasado, dada a dificuldade de retornar aos patamares de preços anteriores.
Como o setor de viagens pode se ajustar e reagir?
As empresas do setor de viagens devem adotar algumas medidas estratégicas a fim de se preparar para os impactos sobre seus negócios, mitigá-los e acelerar a recuperação em um momento de elevada volatilidade.
As companhias aéreas poderão enfrentar desafios relacionados ao ritmo da recuperação, à resiliência da fidelidade de seus clientes e aos custos do combustível de aviação:
- Se a instabilidade diminuir, essas companhias precisam monitorar a trajetória de recuperação e adotar uma abordagem segmentada tanto para o ajuste da malha aérea como para a precificação. Alguns mercados ou segmentos talvez apresentem maior tolerância ao risco e menor sensibilidade aos preços. As empresas poderão trabalhar em conjunto com diferentes stakeholders para reposicionar suas marcas e recuperar participação de mercado por meio de incentivos e ações de marketing direcionadas.
- Clientes de alto valor poderão abandonar a marca. As companhias aéreas devem realizar testes de estresse na arquitetura dos seus programas de fidelidade e reforçar a retenção dos clientes com maior risco de evasão por meio de medidas como a extensão do status e a qualificação acelerada.
- A erosão das margens causada pelo aumento do custo do combustível poderá persistir mesmo após a estabilização da demanda, mas poderá ser mitigada por meio de diversas iniciativas.
Empresas do setor de hospitalidade talvez precisar lidar com desafios relacionadas a previsões, precificação e deslocamento da demanda:
- Os modelos tradicionais de previsão podem se tornar pouco confiáveis quando as janelas de reserva e cancelamento encolhem, fazendo com que as decisões comerciais fiquem defasadas em relação ao mercado. As empresas de hospitalidade podem aprimorar suas previsões monitorando os sinais de demanda com maior frequência.
- Uma política de descontos indiscriminados pode dificultar a recuperação das margens quando a situação voltar à normalidade. As empresas de hospitalidade devem considerar a definição de preços mínimos e desenvolver uma lógica de precificação adequada a cenários de crise.
- Se a demanda cair excessivamente em determinados mercados, estes poderão entrar em um processo de deterioração que dificulte sua recuperação. Nesses casos, a adoção de certas táticas – como programas de aquisição de clientes altamente direcionados para atrair viajantes – permitirá resgatar bolsões de demanda em risco. Além disso, ofertas personalizadas podem incentivar o retorno de segmentos de maior valor, que tendem a ser mais resilientes.
Os operadores de turismo talvez precisem reformular sua abordagem em relação às reservas, à estrutura de custos e às centrais de atendimento:
- Falhas na prestação de serviços e custos imprevistos podem aumentar acentuadamente em momentos de disrupção, quando janelas de reserva extremamente curtas agravam as dificuldades operacionais. Se redesenharem seus processos de remarcação e reacomodação, as empresas poderão implementar uma gestão mais eficaz das exceções, protocolos de atuação simplificados e fluxos de trabalho predefinidos, evitando assim ter de resolver problemas pontuais em plena crise.
- Tanto os custos das centrais de atendimento como o tempo de resposta podem aumentar quando um cenário de instabilidade leva os viajantes a buscar mais segurança e assistência. Nesses casos, copilotos de IA agêntica podem ajudar a tornar mais fluida a experiência de atendimento, reduzindo os pontos de atrito.
- Custos inflexíveis podem criar uma situação insustentável em um cenário de demanda fraca. Um programa de redução estrutural dos custos pode complementar as iniciativas de curto prazo voltadas ao aumento da produtividade.
A geopolítica exerce influência cada vez maior sobre os aspectos econômicos e psicológicos do setor de viagens. Embora o desejo dos consumidores de explorar novos lugares permaneça forte, os viajantes estão mais cautelosos – adiando decisões e repensando destinos. As empresas que responderem com operações ágeis, estratégias de relacionamento com clientes relevantes e uma precificação criteriosa estarão mais bem posicionadas não apenas para enfrentar a turbulência, mas também para capturar a demanda oscilante em um cenário no qual os fluxos globais de viagens estão sendo reconfigurados em tempo real.