A vantagem humana: fortalecendo cérebros na era da IA

| Relatório

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Resumo executivo

Cérebros mais vigorosos fortalecem a resiliência, a produtividade e a prosperidade de todos. É hora de investir neles.

O cérebro é o órgão mais complexo e essencial do corpo: regula tudo, desde funções vitais básicas até a tomada de decisões complexas. Também determina como as pessoas vivem, trabalham e se relacionam, o que o torna insubstituível, seja para o bem-estar individual, o desempenho organizacional ou a resiliência das economias. E, a despeito da velocidade dos últimos avanços tecnológicos, nada ainda se equipara à capacidade do cérebro humano de contribuir para a sociedade.

A inteligência artificial irá reconfigurar o trabalho, fazendo com que a competitividade dependa cada vez mais do entrosamento entre forças humanas e das máquinas. Países e empresas precisam aprimorar suas estratégias para viabilizar essa colaboração e se beneficiarem das qualidades complementares da inteligência humana e da tecnologia. Caso contrário, correm o risco de crescerem mais lentamente e de ficarem para trás na nova era da economia global. E, por mais graves que possam ser as consequências de não investir na saúde do nosso cérebro e nas habilidades que nos tornam inexoravelmente humanos, os possíveis ganhos – individuais, sociais e econômicos – são ainda maiores se optarmos por seguir nessa direção.

Neste relatório, saúde cerebral é definida como um estado ideal do funcionamento do cérebro, favorecido por um desenvolvimento cerebral saudável e pela prevenção ou tratamento de transtornos mentais, neurológicos e de dependência química em pessoas de todas as idades. No entanto, saúde, por si só, não basta. As habilidades cerebrais – capacidades cognitivas, interpessoais, de autoliderança e de proficiência tecnológica – são igualmente fundamentais, pois permitem que as pessoas se adaptem, se relacionem e contribuam de forma significativa para o progresso da sociedade. Juntas, elas constituem o que chamamos de capital cerebral.

O custo de não investir o suficiente no cérebro é enorme. O ônus global dos transtornos cerebrais está aumentando, agravado pelo envelhecimento da população, pela proliferação de fatores estressores e pelo alto grau de incerteza em relação ao futuro. Se a sociedade negligencia o papel central do cérebro na saúde e na produtividade, os impactos se traduzem em vidas transtornadas, potenciais desperdiçados e um pesado fardo sobre famílias e cuidadores. A ampliação de intervenções voltadas à prevenção, tratamento e recuperação de problemas de saúde cerebral poderia evitar 267 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs)1 em todo o mundo até 2050, além de gerar um ganho cumulativo de até $6,2 trilhões no PIB global. Quanto antes se investir na saúde cerebral, maiores serão os retornos: em países de baixa e média renda, por exemplo, programas para melhorar a qualidade de vida na primeira infância têm apresentado retornos anuais entre 7% e 13% e uma relação custo-benefício de até 1:9.

Neste relatório do McKinsey Health Institute, em colaboração com o Fórum Econômico Mundial, as autoras defendem a ampliação dos investimentos no cérebro, apresentam cinco alavancas de ação e propõem um roteiro para os próximos passos. Embora as iniciativas específicas possam variar conforme o stakeholder, a região ou o setor, a transformação em escala exige uma aspiração em comum e uma estrutura compartilhada. Este relatório visa preencher essa lacuna.

Introdução

Desenvolver o capital cerebral significa valorizar e investir na saúde e nas habilidades cerebrais de pessoas de todas as idades.

O cérebro é o órgão mais complexo e essencial do corpo: regula tudo, desde funções vitais básicas até a tomada de decisões complexas. O fortalecimento da saúde cerebral traz benefícios que vão além do próprio cérebro, estando associado a resultados positivos em múltiplas dimensões da saúde – metabólica, cardiovascular, social, emocional ou espiritual. Por exemplo, um aumento de cinco pontos no Índice de Saúde Cerebral (parâmetro que mede fatores modificáveis da saúde cerebral) está associado a uma redução de 43% no risco de doenças cardiovasculares e a uma incidência 31% menor de câncer colorretal, de pulmão e de mama. Buscar proativamente uma saúde cerebral positiva e fortalecer as habilidades cerebrais pode melhorar a coesão social, promover a saúde holística, reforçar a estabilidade social e impulsionar o crescimento econômico inclusivo. Qualquer pessoa que já tenha sofrido de depressão, acompanhado um filho com dificuldades na escola, cuidado de um ente querido com doença de Alzheimer ou observado colegas de trabalho lidando com sobrecarga cognitiva é capaz de compreender os benefícios de investir em cérebros mais saudáveis e vigorosos.

Apesar de sua importância central, o cérebro tem sido historicamente subpriorizado nas políticas públicas e investimentos globais. Mas não por falta de empenho: pesquisadores, defensores de causas e inúmeros profissionais vêm alertando para isso há décadas. Até recentemente, porém, definições fragmentárias, ferramentas de medição limitadas, preconceitos e estigmas associados aos transtornos mentais, neurológicos e de dependência química (MND) dificultaram a articulação de ações e a consolidação da saúde e das habilidades cerebrais como prioridades econômicas. Hoje, os avanços científicos, uma compreensão mais clara do papel do cérebro na produtividade e na resiliência, e a crescente atenção global às disrupções provocadas pela inteligência artificial estão criando um contexto no qual o investimento coordenado no cérebro se tornou um imperativo econômico.

Assim como a Revolução Industrial transformou a sociedade agrária em uma focada em máquinas, reconfigurando investimentos, impulsionando a inovação e catalisando o progresso global, mudanças semelhantes são necessárias para maximizar o potencial humano. É aqui que o capital cerebral entra na conversa.

O capital cerebral combina dois elementos: saúde cerebral (um estado de funcionamento cerebral ideal, favorecido por um desenvolvimento cerebral saudável e pela prevenção ou tratamento dos transtornos MND) e habilidades cerebrais (que são as capacidades cognitivas, interpessoais, de autoliderança e de proficiência tecnológica fundamentais que permitem que as pessoas se adaptem, se relacionem e contribuam de forma significativa). Esses dois elementos se entrosam naturalmente: novas pesquisas científicas destacam a inter-relação entre as condições de saúde cerebral e as habilidades cerebrais. Por exemplo, vários fatores modificáveis de risco e de proteção – como estresse, sono e envolvimento comunitário – têm benefícios comprovados tanto para a saúde cerebral como para as habilidades cerebrais, sugerindo que intervenções que visem a saúde cerebral também podem beneficiar as habilidades cerebrais e vice-versa.

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O cérebro e as habilidades

Embora quase todas as competências humanas sejam mediadas pelo cérebro, neste relatório as habilidades cerebrais não se referem a tudo o que o cérebro faz, mas apenas às capacidades que envolvem fortemente as funções cognitivas, emocionais e adaptativas superiores – como metacognição e tomada de decisões complexas. Há uma diferença entre utilizar o cérebro para seguir uma “receita conhecida” e utilizá-lo para inventar uma nova receita sob pressão. Por exemplo, conhecer um fluxo de trabalho específico está se tornando menos valioso no ambiente de trabalho do que a capacidade de repensar a abordagem quando as circunstâncias mudam. No contexto deste relatório, o termo habilidades cerebrais refere-se a esta última capacidade, e é uma abreviação de todas as competências não técnicas que costumam ser negligenciadas na educação e no treinamento formais, mas que têm impacto desproporcional no desempenho humano: pensamento criativo e analítico, resiliência e flexibilidade. São essas habilidades que conferem ao ser humano a capacidade de responder a mudanças com agilidade e resiliência, e estão alinhadas com pesquisas recentes sobre o futuro das habilidades no ambiente de trabalho conduzidas pelo Fórum Econômico Mundial e outras instituições.

Este relatório visa orientar stakeholders que buscam desenvolver o capital cerebral e se baseia em um ano de encontros e diálogos globais facilitados pelo Fórum de Ação da Economia do Cérebro, do Fórum Econômico Mundial, que identificou cinco alavancas para desenvolver o capital cerebral:

  1. Proteger a saúde cerebral, garantindo acesso a cuidados eficazes para condições que afetam o cérebro e preservando sua saúde ao longo da vida.
  2. Desenvolver habilidades cerebrais na próxima geração, nos trabalhadores atuais e entre os idosos.
  3. Estudar o capital cerebral, consolidando-o como um campo interdisciplinar, estabelecendo parâmetros robustos e expandindo a pesquisa e o desenvolvimento para acelerar o progresso.
  4. Investir em capital cerebral, financiando produtos, serviços e sistemas que o fortaleçam, por meio de instrumentos financeiros tradicionais e inovadores.
  5. Mobilizar em torno do capital cerebral, forjando um movimento global coordenado que alinhe os diferentes stakeholders a uma visão comum e um roteiro compartilhados para sua expansão.

As seções a seguir detalham cada alavanca, bem como as ações que os stakeholders podem empreender.

Capítulo 1. Proteger a saúde cerebral

Um cérebro saudável é o elemento essencial da resiliência de indivíduos, organizações e comunidades

Investimentos insuficientes no cérebro acarretam um elevado custo de oportunidade. Com base em projeções do ônus das doenças para 2025, perturbações da saúde cerebral (incluindo tanto o ônus primário como o associado a transtornos MND, acidentes vasculares cerebrais e automutilação) representam 24% do total. Proteger a saúde cerebral exige ações ao longo de toda a vida, pois riscos e oportunidades distintos surgem desde a primeira infância até a velhice. Cerca de metade de todas as perturbações da saúde mental se manifesta até os 14 anos, e três quartos até os 24 anos de idade. Perturbações do neurodesenvolvimento (como os transtornos do espectro autista e de déficit de atenção e hiperatividade) surgem em crianças pequenas, enquanto outras condições neurológicas (como epilepsia ou enxaqueca) podem ocorrer em qualquer fase da vida. Já as doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demências similares, são predominantemente associadas à terceira idade. Nas últimas três décadas, o número de adultos com mais de 65 anos que sofrem de demência aumentou 160% em todo o mundo – de 18,7 milhões em 1991 para 49 milhões em 2021.

Por trás desses números estão mais de um bilhão de vidas afetadas – desde crianças que não puderam atingir seu pleno potencial até idosos que perderam sua independência (Quadro 1).

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Por trás dos dados: a saúde cerebral das mulheres

Certas doenças que envolvem o cérebro – incluindo depressão, ansiedade, demências e enxaquecas – atingem desproporcionalmente as mulheres. Em termos globais, por exemplo, dois terços das pessoas que vivem com a doença de Alzheimer são mulheres. Muitas das condições que reduzem os anos de vida saudável das mulheres (como a endometriose) ou a sua expectativa de vida (como o câncer de mama) também estão intimamente associadas a problemas de saúde mental, agravando o ônus total das doenças. Até mesmo transições biológicas naturais podem representar desafios para a saúde cerebral feminina. Durante a menopausa, a queda abrupta dos níveis de estrogênio pode aumentar o risco de declínio cognitivo, um sintoma associado ao comprometimento intelectual leve e à demência. A pesquisa em muitas áreas da saúde cerebral feminina ainda é incipiente: o primeiro mapeamento abrangente do cérebro materno, da pré-concepção ao pós-parto, só foi publicado em 2024. Transtornos mentais e neurológicos representam quase 25% dos $1 trilhão em ganhos anuais do PIB global que poderiam ser alcançados até 2040 se as disparidades na saúde das mulheres fossem reduzidas. A incorporação de abordagens de cuidado e intervenção consentâneas com o sexo biológico tem o potencial de aumentar sua eficácia, adoção e adesão beneficiando tanto homens como mulheres.

Proteger a saúde cerebral significa: 1) promover o funcionamento saudável do cérebro e prevenir doenças cerebrais ao longo da vida; 2) ampliar o acesso a tratamentos e serviços baseados em evidências; e 3) inovar para promover a saúde cerebral e o tratamento de doenças cerebrais.

1. Promover o funcionamento saudável do cérebro e prevenir doenças cerebrais ao longo da vida

A saúde do cérebro vai sendo moldada ao longo da vida e, desde a concepção, múltiplas janelas de vulnerabilidade e oportunidade influenciam seu desenvolvimento, funcionamento e resiliência. No entanto, muitos sistemas de saúde foram estruturados para tratar sintomas agudos na idade adulta e perdem a chance de fortalecer a saúde cerebral mais cedo na vida e de modo mais eficaz.

Intervenções proativas, coerentes com a idade e o sexo biológico do indivíduo, podem proteger a saúde cerebral antes que surjam problemas. Por exemplo, o acesso a cuidados pré-natais e perinatais de qualidade favorece o desenvolvimento saudável do cérebro antes do nascimento. Na primeira infância, nutrição adequada, redução do estresse tóxico e exames oportunos podem melhorar o neurodesenvolvimento da criança. Intervenções proativas permanecem essenciais ao longo da vida. Em termos globais, estima-se que 85% da carga de doenças associadas ao AVC tenham uma relação de causalidade com um ou mais de 23 fatores de risco modificáveis – como hipertensão arterial, poluição do ar, dietas pouco saudáveis, sedentarismo e consumo excessivo de álcool. Quanto à saúde cerebral dos idosos, o estudo americano POINTER destaca os benefícios de intervenções combinadas no estilo de vida, incluindo dietas neuroprotetoras, exercícios regulares e treinamento cognitivo. Essa estratégia também contribui para uma longevidade saudável, reforçando o elo entre saúde cerebral, saúde metabólica e resiliência cardiovascular.

A detecção precoce também tem papel fundamental. Ferramentas de avaliação cognitiva e comportamental, aliadas a novas evidências de biomarcadores digitais e biológicos, permitem estabelecer linhas de base individuais e identificar problemas antecipadamente, viabilizando mudanças comportamentais ou intervenções precoces quando necessário.

Promover a saúde cerebral ao longo da vida, dentro e fora dos sistemas de saúde, é essencial para construir o capital cerebral da população e mitigar os efeitos cumulativos de distúrbios não tratados.

2. Ampliar o acesso a tratamentos e serviços baseados em evidências para distúrbios cerebrais

Embora muitos problemas de saúde cerebral não tenham cura conhecida, eles são tratáveis. Ampliar o acesso a intervenções comprovadas de saúde cerebral poderia reduzir o ônus global dessas doenças em mais de 260 milhões de DALYs – métrica que contabiliza tanto os anos perdidos por morte prematura como os anos vividos com alguma doença ou incapacitação. Isso se traduziria em ganhos cumulativos de até $6,2 trilhões no PIB global ao permitir que mais pessoas vivessem plenamente, contribuíssem produtivamente e continuassem exercendo suas funções como pais, parceiros e membros da comunidade.

O acesso oportuno a cuidados eficazes é importante em todas as fases da vida. Por exemplo, uma criança neurodivergente precisa de apoio nos momentos certos para aprender e prosperar; uma mãe com depressão necessita de cuidados adequados para recuperar a estabilidade para si e para seu filho; um idoso com demência merece diagnóstico precoce e cuidados dignos. Mas ainda persistem falhas generalizadas no tratamento em todos os contextos, especialmente em países de baixa e média renda, onde mais de 75% das pessoas com transtornos MND não têm acesso a serviços e apoios adequados. Mesmo quando o atendimento existe, costuma ser fragmentado, ultrapassado ou mal adaptado às realidades culturais e práticas das comunidades locais. Sem qualidade consistente, os pacientes têm menor probabilidade de melhorar, e os governos e sistemas de saúde perdem a oportunidade de obter um retorno substancial de seus investimentos.

Essa lacuna acarreta um elevado custo humano e econômico, incluindo perda de produtividade e mortes prematuras. Também impõe um pesado fardo sobre os cuidadores, que muitas vezes enfrentam perda de renda, menor participação na força de trabalho e maiores riscos à própria saúde. No entanto, muitos países não possuem o capital, a força de trabalho e/ou a infraestrutura básica para oferecerem o atendimento necessário. Em todo o mundo, o investimento permanece insuficiente: apenas 2% das verbas públicas para saúde são destinados à saúde mental. Muitas comunidades não dispõem de profissionais qualificados em saúde cerebral. Por exemplo, na África subsaariana, há, em média, apenas um psiquiatra para cada milhão de pessoas. Globalmente, estima-se que exista 0,93 neurocirurgião por 100.000 habitantes, sendo que apenas metade dos países de alta renda atinge a meta de 1 por 100.000 e nenhum país de baixa renda alcança esse patamar. No entanto, distúrbios neurocirúrgicos – como hidrocefalia, AVCs, epilepsia e lesões traumáticas do cérebro ou da medula espinhal – afetam milhões de pessoas em todo o mundo e, sem intervenção cirúrgica, podem resultar em declínio cognitivo evitável e à incapacitação permanente.

Mesmo onde intervenções comprovadas e profissionais treinados estão disponíveis, o acesso pode ser limitado por outras barreiras, como cadeias de suprimentos incertas que restringem a disponibilidade de medicamentos. Especialmente em regiões da África, Sudeste Asiático e outros países de baixa ou média renda, há escassez de drogas essenciais para tratar epilepsia, doença de Parkinson, esquizofrenia e outros transtornos MND. Um exemplo de governo que está buscando ativamente resolver esse problema é o Ministério da Saúde da Tanzânia, que trabalhou com a OMS para realizar aquisições especiais de medicamentos e ampliar o Fundo Nacional de Seguro-Saúde para incluir a cobertura de medicamentos essenciais. Embora iniciativas como essa constituam um avanço na ampliação do acesso à saúde, os desafios persistem em todo o mundo.

Para reduzir a escassez de tratamento, soluções comprovadas precisam ser ampliadas por meio de inovações que viabilizem a prestação de serviços de saúde em larga escala em todo o mundo. Uma abordagem escalável para mitigar a falta de profissionais seria expandir o papel da tecnologia e de provedores não especializados, incluindo a implementação em larga escala de estratégias validadas – como o treinamento e a capacitação de agentes comunitários de saúde e conselheiros pares para oferecer cuidados básicos a pessoas com transtornos MND. O atendimento em nível comunitário, com participação de trabalhadores não especializados, poderia alcançar uma parcela dos mais de 90% de pacientes que hoje não recebem qualquer tipo de cuidado em países de baixa e média renda. Além disso, há um potencial crescente em aproveitar a tecnologia e a inteligência artificial para ampliar onde e como o atendimento é prestado, com ênfase em soluções de IA projetadas para apoiar os profissionais de saúde, e não interagir diretamente com os pacientes.

Evidências da OMS e de modelos de vida integrais mostram que hoje existe material suficiente para inovar e implementar intervenções que promovam a saúde cerebral ao longo de toda a vida. Quando pacientes, médicos e o público estão envolvidos, as intervenções se tornam culturalmente mais apropriadas, sustentáveis e eficazes.

3. Inovar para promover a saúde cerebral e o tratamento de doenças cerebrais

Para efetivamente proteger a saúde do cérebro, talvez seja preciso ir além da mera ampliação das estratégias e intervenções existentes, e buscar inovações capazes de promover a saúde cerebral, prevenir doenças e tratar transtornos cerebrais ao longo da vida. A conclusão geral de análises anteriores é que se investe muito pouco em pesquisas sobre saúde mental em vista da morbidade, mortalidade e ônus econômico atribuíveis a distúrbios mentais em todo o mundo. Além disso, a maior parte do financiamento para pesquisas em saúde mental provém de países de alta renda, limitando a generalização e aplicabilidade das conclusões a uma parcela maior da população mundial. O panorama é diferente no campo das pesquisas neurológicas, cujos níveis de financiamento são relativamente elevados, especialmente em países de alta renda. Mesmo assim, quando comparados com o ônus global dos distúrbios neurológicos, os investimentos permanecem insuficientes – sobretudo no que diz respeito a pesquisas translacionais que visem adaptar e escalar intervenções em contextos de recursos limitados.

No campo da proteção da saúde cerebral, os avanços em tecnologias inovadoras estão abrindo novas fronteiras para a compreensão e o monitoramento das funções do cérebro, com implicações profundas para o diagnóstico e a inovação, podendo impactar positivamente uma enorme parcela da população mundial. Por exemplo, mais de 55 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem hoje de demência, em particular a doença de Alzheimer, e estima-se que esse número dobre a cada 20 anos. Pesquisas sugerem que, somente nos Estados Unidos, o número de pessoas de mais de 70 anos com Alzheimer poderá alcançar 9,1 milhões em 2050. Nesse contexto, avanços médicos que retardem o início da doença por cinco anos poderiam resultar, até 2050, em uma redução de 41% na prevalência da enfermidade e de 40% nos custos associados.

O potencial de inovação no caso da doença de Alzheimer é apenas um entre muitos exemplos. Em termos mais gerais, estima-se que inovações que permitam reduzir em apenas 10% o ônus global de problemas de saúde cerebral não tratados poderiam gerar um ganho adicional de 54 milhões de DALYs até 2050.

Capítulo 2: Desenvolver habilidades cerebrais

As habilidades cerebrais promovem a adaptabilidade, a criatividade e a capacidade de atuação em um contexto de mudanças aceleradas

É possível promover o desenvolvimento de habilidades cerebrais ao longo de toda a vida das pessoas, da infância à idade adulta avançada. Elas podem ser fortalecidas de diferentes maneiras, incluindo: 1) garantir a crianças e jovens acesso a ambientes seguros e enriquecedores que favoreçam as habilidades cerebrais relevantes para o futuro e 2) promover essas habilidades por meio de intervenções estruturadas no local de trabalho.2

A saúde cerebral constitui a base sobre a qual adquirir, desenvolver e aplicar as chamadas habilidades cerebrais – um conjunto de competências cognitivas, interpessoais, de autoliderança e de proficiência tecnológica de ordem superior que permitem às pessoas se adaptar, se relacionar e contribuir de maneira significativa. Os retornos dos investimentos em habilidades cerebrais são substanciais, especialmente quando começam desde cedo: programas voltados a melhorar a qualidade de vida na primeira infância, por exemplo, geram retornos anuais entre 7% e 13%, com uma relação custo-benefício de até 1:9 nos países de baixa e média renda. Esses ganhos se traduzem em trabalhadores e sociedades mais resilientes.

Na era da inteligência artificial, as habilidades cerebrais são mais cruciais do que nunca. Todos os anos, o Fórum Econômico Mundial consulta mais de mil empresas, em 55 economias e 22 setores, para entender a evolução das demandas dos empregadores. Em 2025, verificou-se que, em média, 59% dos trabalhadores precisarão de treinamento adicional para adquirir as novas competências que serão necessárias até 2030. Quando se pergunta aos empregadores quais habilidades são mais críticas no cenário atual e quais serão mais críticas no futuro, há uma sobrerrepresentação clara das “habilidades cerebrais” em ambas as categorias (Quadro 2).

Embora não seja o foco desta seção, a importância das habilidades cerebrais não diminui com a idade. Adquirir habilidades cerebrais e mantê-las vigorosas na terceira idade permite que as pessoas trabalhem por mais tempo, se assim desejarem, ajuda a protegê-las contra as fraudes direcionadas a idosos, e assegura sua autonomia, independência e engajamento social.

Estudos de inúmeras disciplinas – educação, economia, psicologia, educação de adultos, neurociência, sociologia e comportamento organizacional, entre outras – esclarecem como as habilidades cerebrais são adquiridas e aprimoradas ao longo da vida. Apesar da evidência inequívoca desse corpo de conhecimentos, o desenvolvimento de habilidades cerebrais permanece subvalorizado e pouco explorado. Para reverter essa situação e fortalecer essas habilidades, seria preciso: 1) garantir que crianças e jovens tenham acesso a ambientes seguros e enriquecedores que favoreçam a aquisição de habilidades cerebrais relevantes para o futuro, e 2) promovê-las por meio de intervenções no local de trabalho.

1. Garantir que crianças e jovens tenham acesso a ambientes seguros e enriquecedores que favoreçam a aquisição de habilidades cerebrais relevantes para o futuro

Em todo o mundo, crianças e jovens enfrentam complexidade e incerteza crescentes. Além disso, é provável que o ambiente em que vivem tenha pouco a ver com o que a ciência nos diz sobre o desenvolvimento do cérebro jovem. Há amplo consenso científico de que a formação do cérebro e das competências cognitivas é profundamente moldada por experiências – incluindo a aquisição de resiliência e de esperança. Organizações que dependem de profissionais capazes de resolver problemas complexos, com inteligência emocional e flexibilidade cognitiva, têm, portanto, um interesse direto em assegurar que essas habilidades cerebrais sejam cultivadas antes mesmo de os jovens entrarem no mercado de trabalho. Pois, visto que a tecnologia continua reconfigurando o trabalho, o descompasso entre o que os sistemas educacionais ensinam e o que os locais de trabalho demandam tende apenas a aumentar, tornando cada vez mais urgente o alinhamento estratégico entre o desenvolvimento de habilidades cerebrais e as novas exigências do mercado de trabalho.

Programas de aprendizagem na primeira infância são particularmente decisivos, sobretudo quando combinam educação, saúde, apoio nutricional e envolvimento familiar. A chamada Curva de Heckman indica que, quanto mais cedo se investe nas crianças, maiores são os retornos econômicos: o programa HighScope Perry Preschool gerou retornos anuais de 7% e 10%, enquanto o projeto Carolina Abecedarian e o programa Carolina Approach to Responsive Education (CARE) alcançaram, em média, 13,7%. Em países de baixa e média renda, a oferta de cuidados e educação de qualidade na primeira infância para todas as crianças poderia proporcionar uma relação custo-benefício de 1:9. E um estudo de 20 anos realizado na Jamaica mostrou que crianças que receberam estímulos de alta qualidade obtiveram salários 25% mais altos na vida adulta.

Além de investirem no desenvolvimento da primeira infância, os sistemas educacionais dispõem de outras oportunidades para influir, de forma mais imediata, no fortalecimento das habilidades cerebrais. Experiências cotidianas em programas esportivos e atividades ao ar livre podem incentivar o trabalho em equipe e as funções executivas por meio do movimento; ambientes digitais podem priorizar conteúdos apropriados a cada faixa etária que fortaleçam a autorregulação e a atenção; e programas de preparação para o mercado de trabalho podem oferecer mentoria e aprendizagem baseadas em projetos, encorajando a persistência e a autodireção. Isso é particularmente crítico diante da rapidez com que crianças e jovens vêm sendo expostos à inteligência artificial. Assim como trabalhadores adultos estão sendo requalificados para adquirir novas habilidades cerebrais, crianças e jovens precisarão de apoio estruturado para adquirir as competências necessárias para prosperar em um mundo no qual a IA terá papel central. Priorizar as habilidades cerebrais hoje é moldar a força de trabalho de amanhã.

As habilidades cerebrais são construídas ao longo da vida. Isso significa reconhecer que o desenvolvimento na primeira infância e na adolescência constitui parte integrante do processo de formação de talentos.

2. Promover habilidades cerebrais por meio de intervenções no local de trabalho

Um terço da vida de um adulto é dedicado ao trabalho, o que torna o ambiente de trabalho um poderoso catalisador para fortalecer ou destruir o capital cerebral. Em todo o mundo, mais de um em cada cinco funcionários apresenta sintomas de burnout. Investimentos proativos na saúde dos funcionários, incluindo a saúde cerebral, poderiam aumentar o PIB global em até 12% e gerar até $11,7 trilhões em valor econômico. Agora que as pessoas estão vivendo e trabalhando cada vez por mais tempo, iniciativas para fortalecer a saúde cerebral e as habilidades cerebrais da força de trabalho – tanto dos que estão ingressando nela como daqueles que se encontram na fase final de sua carreira – se tornarão cada vez mais importantes para assegurar uma trajetória profissional produtiva.

A inteligência artificial está amplificando a urgência e as oportunidades. Em apenas dois anos, a capacidade de utilizar e gerenciar ferramentas de IA de forma estratégica e eficaz cresceu sete vezes. Assim, todo empregador precisará considerar não apenas como a IA altera as demandas cognitivas sobre os funcionários, mas também como o discernimento, a criatividade e a comunicação do ser humano continuarão a orientar a evolução dessa tecnologia. As mudanças causadas pela IA devem ser acompanhadas de investimentos deliberados no fortalecimento das habilidades cerebrais e integradas aos novos fluxos de trabalho. Sem isso, as organizações correm o risco de perder sua vantagem competitiva e ver o declínio do bem-estar dos funcionários se traduzir em um aumento dos custos evitáveis.

A adoção da IA será mais eficaz quando combinada ao aprimoramento das habilidades cerebrais e à integração dos fluxos de trabalho, permitindo que os funcionários se adaptem, resolvam problemas complexos e colaborem em ambientes de inteligência híbrida. Por exemplo, uma organização poderá incentivar o uso de IA para a definição de cronogramas, traduções ou tarefas administrativas, assegurando ao mesmo tempo o fortalecimento e a preservação de capacidades humanas como comunicação, mentoria e pensamento crítico, que favorecem a confiança e o bom desempenho. Habilidades cerebrais como resiliência, autoeficácia e adaptabilidade têm se revelado os fatores mais determinantes do desempenho autoavaliado e do comportamento inovador. Um estudo de trabalhadores de 30 países verificou que, mais do que qualquer outro fator, a adaptabilidade e a autoeficácia são decisivas para que os funcionários sintam que estão de fato progredindo e não apenas executando tarefas.

Priorizar a saúde dos funcionários pode levar a um retorno substancial dos investimentos. Uma empresa de roupas esportivas, por exemplo, implementou um programa que incluía acesso a uma biblioteca de autocuidados, sessões de coaching, workshops internos de bem-estar (incluindo habilidades cerebrais) e treinamento em habilidades interpessoais para gerentes. O retorno dessas iniciativas foi 11,6 vezes maior que o investimento.

Paradoxalmente, as mesmas condições de incerteza que tornam a adaptação tão importante – especificamente, a ascensão das ferramentas de IA – podem levar alguns líderes a resistir à mudança e a adotar um comportamento defensivo ou reativo. Diante das incessantes demandas cognitivas e emocionais, os executivos precisarão demonstrar habilidades cerebrais críticas, como autorregulação, clareza e vigor mental. Certas mudanças devem ser feitas para integrar as habilidades cerebrais à cultura, fluxos de trabalho, taxonomias de competências, programas de aprendizagem, gestão de desempenho e desenvolvimento de talentos da organização. Por exemplo, há evidência empírica de que treinamentos focados na flexibilidade psicológica no contexto do trabalho fortalecem a resiliência diante do estresse, reduzem a exaustão e ampliam o senso de realização pessoal. Além disso, o uso ferramentas como wearables ou rastreadores digitais, que monitoram o sono ou o condicionamento físico, pode ser útil: os líderes só têm a ganhar se gerenciarem sua energia mental e emocional com o mesmo rigor com que os atletas gerenciam sua preparação física e mental.

Outras pesquisas têm mostrado onde se deve concentrar esforços para maximizar o impacto. Instrumentos como o modelo unificado de saúde cerebral [veja Box] vêm orientando investimentos mais inteligentes e estratégicos. As organizações que investirem no desenvolvimento de habilidades cerebrais de dentro para fora serão as mais aptas a inovar, reter os melhores talentos e prosperar em um cenário de mudanças constantes.

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Análise profunda de dados: fatores entrecruzados que favorecem o bem-estar e o desempenho no local de trabalho

Desenvolvido pela UsAgainstAlzheimer’s em colaboração com o Davos Alzheimer’s Collaborative e o McKinsey Health Institute, o modelo unificado de saúde cerebral é uma estrutura clara e acessível para entender como o cérebro influencia o bem-estar mental, as funções cognitivas e o desempenho no trabalho (Quadro). Os empregadores podem utilizá-lo para avaliar em que medida suas diretrizes e práticas favorecem ou prejudicam a saúde cerebral, identificar oportunidades de intervenções de alto impacto e alinhar estratégias com os objetivos do negócio. O modelo é uma maneira clara, baseada em evidências, de ilustrar como fatores de risco e proteção relativamente comuns e plenamente modificáveis – como estresse, sono e engajamento comunitário – podem produzir benefícios em cascata para a saúde cerebral e para o desempenho profissional.

Capítulo 3: Estudar o capital cerebral

O estudo do capital cerebral revela lacunas críticas e direciona a inovação para o que as pessoas mais precisam

O conceito de capital cerebral ainda é incipiente. Embora estudos relevantes estejam sendo conduzidos em inúmeras disciplinas, não existe uma agenda interdisciplinar unificada capaz de orientar investimentos estratégicos, definir padrões ou inspirar ações coletivas. Para efetivamente estudar o capital cerebral, três linhas de investigação são importantes: primeiro, um conhecimento mais profundo da saúde cerebral em si, incluindo prevenção e tratamento de transtornos associados ao cérebro, e os caminhos para alcançar e sustentar a saúde cerebral ideal ao longo da vida; segundo, a ampliação da base de evidências sobre habilidades cerebrais, particularmente seu impacto na produtividade individual e no desempenho organizacional; e, terceiro, pesquisas que ajudem comunidades, organizações e sistemas a se estruturar para promoverem, em escala, a saúde cerebral e o desenvolvimento de habilidades cerebrais positivas.

Juntas, essas linhas de investigação formam a espinha dorsal de uma agenda de pesquisa voltada à promoção do capital cerebral. Atualmente, os investimentos não estão alinhados nem à magnitude nem à complexidade dos desafios envolvidos e, sem uma estrutura comum de pesquisa e mensuração, será difícil definir métricas, comparar resultados ou dimensionar o progresso alcançado. Contudo, se aprofundarem seus conhecimentos e monitorarem o que realmente importa, os diversos atores envolvidos nesse processo estarão munidos dos insights necessários para embasar decisões mais bem informadas sobre políticas, financiamento e programas relacionados ao capital cerebral.

Portanto, avanços no campo do capital cerebral implicam: 1) defini-lo como uma área de pesquisas interdisciplinares; 2) mensurá-lo; e 3) acelerar a pesquisa e o desenvolvimento envolvidos na sua formação.

1. Definir o capital cerebral como uma área de pesquisas interdisciplinares

A definição de uma estrutura para estudos interdisciplinares poderá avançar o progresso em áreas que se entrecruzam, de modo a abranger múltiplos campos, setores e regiões, e tornar possível o desenho de intervenções escaláveis. Em outras áreas, como a gerociência, a perspectiva interdisciplinar já permitiu estabelecer as prioridades e os sistemas de mensuração em comum necessários para mobilizar investimentos, atrair os melhores talentos e acelerar a inovação (Quadro 3).

Para tornar isso realidade, instituições de pesquisa devem criar centros ou programas dedicados ao capital cerebral que abranjam explicitamente essas áreas e as integrem por meio do compartilhamento de dados e métricas. Os formuladores de políticas públicas, por sua vez, precisam reconhecer as pesquisas sobre capital cerebral como uma prioridade estratégica nacional, incentivando subvenções interdisciplinares e parcerias translacionais. Inovadores e líderes do setor privado devem coinvestir em iniciativas público-privadas para acelerar o desenvolvimento de ferramentas e intervenções. E financiadores devem adotar essa estrutura como uma referência para organizar e orientar seus portfólios. Ao se incorporar uma estrutura de trabalhos interdisciplinares em capital cerebral à agenda de pesquisas, torna-se possível monitorar investimentos e retornos em escala global, criando condições para que sociedades e empresas prosperem em uma economia cada vez mais orientada pelo cérebro.

2. Medir o capital cerebral

Agora que o capital cerebral vai ganhando tração global, a mensuração precisa estar à frente de tudo. Não existe uma estrutura de ampla adoção que defina sucesso, meça o progresso ou compare resultados. A criação de métricas, princípios e estruturas torna possível alinhar recursos, justificar o investimento sustentado e liberar financiamento catalisador. Por exemplo, em 2007, o Banco Europeu de Investimento emitiu os primeiros títulos verdes do mundo, o Climate Awareness Bond [título de consciência climática, para uso verde de recursos]. O volume total emitido chega hoje a mais de $1 trilhão e os títulos serviram de base para a criação de sistemas de certificação independentes. Em outras áreas, a criação do Índice de Capital Humano e das estruturas contábeis que o acompanham permitiu quantificar a contribuição da saúde e da educação para a produtividade da força de trabalho, deixando claro para todos os países os custos da inação.

Ferramentas existentes, como o Painel de Capital Cerebral da Associação Euro-Mediterrânea de Economistas, estabeleceram as bases para o que é possível.

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Ferramenta em destaque: Painel Global de Capital Cerebral

O Brain Capital Dashboard mostra o “índice de capital cerebral” de mais de 100 países. A pontuação de cada país é desmembrada em suas métricas componentes, o que permite aos usuários avaliar os pontos fortes e as vulnerabilidades de cada domínio.

Desenvolvido pela Brain Capital Alliance, esse painel interativo integra fontes de dados abertos de agências internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, o Banco Mundial e a OCDE. A ferramenta reúne métricas de quatro áreas – saúde cerebral, habilidades cerebrais, ambientes favoráveis ao cérebro e facilitadores de políticas e inovação – e possibilita analisar variações entre os países em termos de indicadores, qualidades e lacunas das políticas relevantes para a formação de capital cerebral, e avanços ao longo do tempo. Exemplos de indicadores incluem taxas de suicídio, níveis de participação em aprendizagem organizada, acesso a serviços sociais, investimento em pesquisa e prontidão do sistema de saúde.

O painel baseia-se em dados do pilar de saúde cerebral do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME), que fornece detalhes adicionais sobre saúde em cada país, incluindo dados do período da COVID-19 e um conjunto mais amplo de doenças e métricas (por exemplo, anos de vida ajustados por incapacidade).

Partindo desses esforços, é essencial ampliar a adoção, a coordenação e o aprimoramento. Um caminho promissor seria definir o domínio e as métricas para uma “conta-satélite” de capital cerebral, capaz de capturar dimensões do capital cerebral que o PIB não reflete adequadamente. Assim como os satélites que orbitam a Terra, as contas-satélite orbitam as principais estatísticas econômicas de um país (como o PIB e dados setoriais), mas permanecem separadas das contas centrais, embora aptas a alimentar os sistemas estatísticos nacionais. Com isso, ajudam a estimar tanto os custos da inação como o impacto positivo dos investimentos em capital cerebral.

Mensurar o capital cerebral é fundamental para que os líderes possam avaliar o que está funcionando, realocar recursos para iniciativas de maior impacto e tornar mais claro para investidores, financiadores e o público em geral qual o valor a ser gerado.

3. Acelerar a pesquisa e o desenvolvimento envolvidos na formação do capital cerebral

Pesquisa e desenvolvimento (P&D) são uma ferramenta poderosa para a formação do capital cerebral. Atualmente, a maior parte dos recursos destinados a P&D envolvendo o cérebro está concentrada no tratamento de doenças em estágio avançado, deixando pouco espaço para a prevenção, a detecção precoce de transtornos e a ciência de aprimorar habilidades cerebrais positivas. Uma abordagem mais estratégica poderia direcionar os investimentos em capital cerebral para as áreas de maior impacto em cada etapa do pipeline de P&D.

Posicionar o capital cerebral como um campo de estudo interdisciplinar é um primeiro passo necessário para integrar estrategicamente todos os processos de P&D relevantes, que podem ser organizados em quatro estágios de progresso: pesquisa fundamental, tradução e adaptação, adoção e implementação e redimensionamento. O Quadro 4 destaca as principais perguntas que devem ser respondidas em cada uma dessas etapas e identifica ações específicas capazes de acelerar o progresso do campo.

Alcançar o pleno potencial exige investimento contínuo ao longo de todo o pipeline. Avanços em tecnologias inovadoras – como interfaces cérebro-computador, medicina de alta precisão e mapeamento cerebral de última geração – estão abrindo novas fronteiras no entendimento e monitoramento das funções cerebrais. Paralelamente, a atenção crescente dedicada à ciência do envelhecimento está transformando nossa compreensão de como o desenho de ambientes de trabalho e de comunidades pode elevar as funções cognitivas dos idosos. Estudos longitudinais em larga escala, acompanhando indivíduos ao longo de toda a vida, estratificados por sexo biológico e incorporando diferentes estados e modificadores hormonais, podem revelar insights específicos a cada sexo e fase da vida. Esses exemplos evidenciam a necessidade de estabelecer uma agenda de P&D para o capital cerebral que atenda às necessidades emergentes e crie novos mercados.

Capítulo 4: Investir em capital cerebral

Investimentos estratégicos no cérebro proporcionam altos retornos em saúde, produtividade e crescimento duradouro

A alocação de capital para sustentar e expandir o capital cerebral ainda é limitada em amplitude e instrumentos. Um ecossistema de investimentos em capital cerebral mais maduro deve mobilizar recursos públicos, comerciais e filantrópicos e direcioná-los para onde possam ter o máximo impacto. Isso exige uma articulação entre mecanismos de financiamento tradicionais (p.ex., subvenções, verbas públicas) e inovadores (p.ex., financiamento misto, parcerias público-privadas), capazes de reduzir os riscos inerentes à inovação, apoiar a capacitação e financiar a infraestrutura necessária para proteger, promover e estudar o capital cerebral em escala.

O investimento em capital cerebral pode se valer de uma variedade de mecanismos financeiros voltados especificamente para objetivos definidos.

Contudo, promover um volume substancial de investimentos em capital cerebral exige inovações financeiras alinhadas às características singulares desse domínio. Existe, ao longo de toda a cadeia de valor, uma insuficiência de investimentos, em grande parte porque os custos tendem a ser imediatos e os benefícios potenciais para indivíduos, organizações e sociedades só se materializam no longo prazo. O portfólio de investimentos é excessivamente concentrado em instrumentos que não visam retorno financeiro. Entre os investidores, predomina a percepção de horizontes longínquos, mercados fragmentados ou retornos incertos – fatores que os impedem de investir em oportunidades de alto potencial. E, de fato, o período de retorno das intervenções em saúde cerebral costuma ser bastante longo, pois benefícios como melhor desempenho cognitivo, redução dos custos da saúde e aumento da produtividade se acumulam ao longo de décadas. Para eliminar esses impedimentos, o risco percebido pelos investidores potenciais precisaria ser reduzido por meio de mecanismos inovadores de financiamento.

Esta não é a primeira vez que uma nova fronteira econômica enfrenta tais obstáculos. A Coalizão para Investimento em Saúde Mental (CMHI) é um dos grupos que oferecem orientação financeira aplicável a todo o campo da saúde cerebral. O Quadro 5 descreve algumas das barreiras ao investimento, com base em um estudo mais detalhado conduzido pela CMHI.

Investidores em saúde cerebral podem aprender com a história, que mostra que os primeiros mercados de energia limpa enfrentaram barreiras semelhantes. Foi somente quando atores públicos e privados passaram a coordenar o uso de instrumentos como financiamento misto, filantropia catalítica, garantias de crédito e parcerias público-privadas que os mercados de energia solar e eólica amadureceram e atraíram capital comercial em escala. Uma abordagem equivalente se faz necessária para desenvolver e ampliar soluções capazes de proteger a saúde cerebral, promover habilidades cerebrais e aprofundar o estudo do capital cerebral. Modelos de financiamento mais flexíveis talvez ajudem a superar essa lacuna; o financiamento público e filantrópico é capaz de apoiar pesquisas em estágio inicial; o financiamento misto pode reduzir os riscos e atrair capital privado; e mecanismos baseados em resultados, como os títulos de impacto social, permitem vincular o financiamento a resultados de longo prazo.

Ao mesmo tempo, em países de baixa e média renda, mecanismos inovadores de financiamento podem ser adotados dentro e em paralelo com as estruturas de empréstimo existentes. Os acordos de empréstimo com instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, às vezes incluem cláusulas fiscais difíceis de serem cumpridas nesses contextos (p.ex., um limiar mínimo de capacitação para profissionais de saúde). A incorporação de uma perspectiva mais ampla de capital cerebral a esses acordos (p.ex., por meio de estruturas de gastos flexíveis ou da reestruturação direcionada de dívidas) pode permitir que os países direcionem recursos para as áreas de maior necessidade e valor.

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Ferramenta em destaque: guia de financiamento da saúde mental

O guia de financiamento da saúde mental Keeping investment in mind: Strategies for financing mental health [Mantendo o investimento em mente: Estratégias para financiar a saúde mental], elaborado pela Coalizão para Investimento em Saúde Mental, é um manual eminentemente prático concebido para destravar um volume maior de investimentos em saúde mental. O documento mapeia a cadeia de valor desde a inovação até a adoção em larga escala, e auxilia investidores a identificar mecanismos de financiamento baseados em evidências alinhados a seus casos de uso estratégicos. Também enfatiza possíveis “jornadas de redimensionamento” das intervenções, destaca os principais facilitadores de tal redimensionamento e apresenta estudos de caso de mecanismos de financiamento inovadores na prática.

Paralelamente, um grupo de organizações na vanguarda do movimento da economia do cérebro [voltado a desenvolver e monetizar inovações relacionadas ao cérebro] está à frente de iniciativas no campo dos investimentos em capital cerebral, com planos de lançar no próximo ano um projeto afiliado ao Fórum de Ação da Economia do Cérebro, com foco em oportunidades específicas de investimento derivadas dos avanços e resultados das diversas ciências que estudam o cérebro.

Capítulo 5: Mobilizar em torno do capital cerebral

Mobilizar os stakeholders é essencial para que o capital cerebral se torne uma prioridade organizacional e social

Para várias organizações e instituições globais – entre elas, as Nações Unidas, a OMS, o G7, o G20 e a OCDE – o capital cerebral já figura como uma prioridade nas agendas políticas. Em todo o mundo, há exemplos de governos, empresas e setores específicos investindo em larga escala no cérebro. No entanto, apesar dessa crescente conscientização e priorização, as iniciativas permanecem fragmentadas, subfinanciadas e, com frequência, desconectadas dos centros de decisões políticas e econômicas. Em outras palavras, a escala dos esforços atuais ainda não é compatível com a magnitude dos riscos e das oportunidades. Ações urgentes e coordenadas se fazem necessárias.

Embora os desafios possam variar, todos os setores enfrentarão custos crescentes, maior risco de deterioração do desempenho e graves pontos cegos estratégicos se a saúde cerebral continuar negligenciada e as habilidades cerebrais permanecerem subdesenvolvidas. Esse cenário pode desencadear uma série de consequências específicas a cada setor:

  • Setor de saúde. Problemas sistêmicos e de integração, incluindo custos crescentes, infraestrutura insuficiente para prevenção e intervenção precoce, e escassez de mão de obra, agravada pela sobrecarga dos serviços de alta complexidade.
  • Serviços sociais. Contexto social cada vez mais desafiador para indivíduos, resultante de necessidades não atendidas de saúde cerebral, como indigência, desemprego, envolvimento com o sistema de justiça criminal e trauma intergeracional.
  • Setor público. Pressão crescente sobre os orçamentos públicos, à medida que os governos tentam responder aos desafios e custos de saúde associados ao envelhecimento da população.
  • Setor privado. Aumento dos sintomas de burnout, absenteísmo, alta rotatividade, presenteísmo e inadequação de habilidades, com potencial para comprometer a segurança, a produtividade e o desempenho no trabalho.
  • Sociedade civil. Crescente desconexão, polarização e estresse mental, pondo em risco a coesão da comunidade.

Ainda assim, em meio a esses desafios, residem oportunidades para que cada grupo assuma a liderança em sua esfera de influência e promova soluções capazes de melhorar a saúde e aprimorar as habilidades cerebrais, fortalecendo as organizações, economias e sociedades no longo prazo.

Mobilizar para promover o capital cerebral significa: 1) engajar os stakeholders na construção de uma visão em comum e de um caminho coordenado para o futuro; e 2) integrar o capital cerebral à estratégia, às operações e à cultura.

1. Envolver os stakeholders na construção de uma visão em comum e de um caminho coordenado para o futuro

Potencializar plenamente o capital cerebral significa evoluir das iniciativas fragmentadas para um movimento mais articulado e coordenado. Partindo do momentum que já existe, a fase seguinte desse esforço é unificar as iniciativas em torno de uma visão compartilhada, alinhando prioridades, acelerando a implementação e avançando em direção a objetivos comuns.

Outras coalizões globais oferecem lições valiosas. A Coalizão Global sobre Envelhecimento (GCOA) reúne empresas, governos e a sociedade civil para posicionar a longevidade como uma oportunidade econômica. Por meio de parcerias estratégicas e iniciativas direcionadas, a GCOA busca combater o etarismo na força de trabalho e promover políticas voltadas ao cuidado com idosos e ao envelhecimento saudável, demonstrando que a colaboração entre setores pode contribuir para impulsionar mudanças sistêmicas. O Barômetro da Cooperação Global 2025 destaca que a cooperação é fundamental para avançar o capital cerebral, particularmente nos domínios da inovação, do clima e da saúde.

Nesse contexto, o Fórum de Ação da Economia do Cérebro foi lançado em janeiro de 2025, organizado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com o McKinsey Health Institute. Reúne um grupo dinâmico de stakeholders de todo o mundo e posiciona o capital cerebral no centro das agendas internacionais, promovendo ações concretas voltadas ao crescimento econômico sustentável e ao bem-estar social.

Com base nesse trabalho, o High Lantern Group, o Milken Institute, o Fórum Econômico Mundial e o McKinsey Health Institute elaboraram um plano de coordenação global, fundamentado em um mapeamento que identificou cerca de 50 organizações em todo o mundo que já estão explicitamente engajadas em iniciativas de capital cerebral. O mapeamento abrangeu não apenas o trabalho central realizado por essas iniciativas, mas também a terminologia associada à economia do cérebro, e foi embasado em uma série de entrevistas com especialistas de movimentos econômicos anteriores, representantes da indústria e da academia, e formuladores de políticas públicas.

O exercício revelou que, embora a base de stakeholders atuando com capital cerebral seja ampla, ela é hoje composta majoritariamente por atores comerciais privados – uma distribuição que evidencia o interesse crescente do setor privado pelo tema.

Essas organizações não se concentram em uma única região geográfica. Pelo contrário, a atividade dos stakeholders se estende por todas as principais regiões do mundo, refletindo tanto a universalidade dos desafios associados ao capital cerebral como o potencial de colaboração global (Quadro 6a).

No contexto atual, a mobilização desponta como a principal área de atuação das organizações engajadas. Foram identificadas 38 delas trabalhando em iniciativas de mobilização relacionadas ao capital cerebral (Quadro 6b), o que demonstra amplo reconhecimento da necessidade de coordenar e alinhar esforços para acelerar o impacto.

Quadro 6

Coordenação em escala global é indispensável para viabilizar as mobilizações descritas neste relatório. Sem uma abordagem coordenada, as iniciativas de capital cerebral correm o risco de fragmentação, duplicação e perda de oportunidades em um momento em que a demanda por soluções nunca foi tão alta.

Diante desse cenário, é preciso que exista uma entidade coordenadora capaz de desempenhar quatro funções principais:

  • Desenvolvimento do conhecimento. Investir na geração de novos conhecimentos que impulsionem a expansão do capital cerebral.
  • Liderança intelectual e comunicação. Liderar a disseminação de conhecimentos e insights.
  • Mobilização. Engajar líderes de todos os setores e regiões em torno de um conjunto unificador de metas e métricas.
  • Coordenação intersetorial. Apoiar o alinhamento entre iniciativas globais para maximizar o retorno dos investimentos na economia do cérebro.

Tal entidade coordenadora, organizada em estreita parceria com os stakeholders que já lideram esse movimento, teria o papel de traduzir a visão em ações contínuas, além de orientar investimentos futuros, estimular a inovação e fomentar a colaboração em torno do capital cerebral.

2. Integrar o capital cerebral à estratégia, às operações e à cultura

Em todos os setores, os investimentos em capital cerebral estão emergindo como um poderoso motor de inovação e resiliência, assegurando sua relevância e impacto de longo prazo, e complementando a adoção da IA. Quando uma organização avança em seu processo de transformação digital, investimentos paralelos em capital cerebral garantirão que a tecnologia irá aprimorar, não deteriorar, o desempenho humano. Do mesmo modo, quando a sociedade e as organizações fortalecem o capital cerebral, elas se tornam mais aptas a capturar plenamente o potencial da IA para impulsionar o progresso econômico e social.

Os benefícios dos investimentos em capital cerebral não se restringem ao indivíduo. Eles se propagam, fortalecendo equipes, transformando organizações e contribuindo para formar comunidades mais saudáveis e resilientes.

Mas tudo começa com o indivíduo. Investimentos em capital cerebral aumentam o bem-estar e melhoram o desempenho ao longo da vida. Em uma equipe ou organização, esses ganhos individuais se traduzem em melhorias mensuráveis na produtividade, inovação e tomada de decisões. As estratégias de capital cerebral ajudam a atrair e reter talentos, especialmente em setores de alta pressão e alta demanda. Também reduzem o absenteísmo e contribuem para tornar a força de trabalho mais saudável e engajada. Ao investir na saúde e habilidades cerebrais de seus funcionários, a organização cria uma força de trabalho mais forte e mais ágil, preparada para atender às demandas de uma economia em acelerada transformação.

À medida que essas estratégias se consolidam, seus impactos se estendem para além das organizações, contribuindo para tornar as pessoas mais saudáveis, melhorando os canais de educação profissionalizante e reduzindo a sobrecarga sobre cuidadores e serviços públicos. Quando o capital cerebral é uma prioridade compartilhada, pode desencadear uma transformação profunda no local onde é investido, ampliando as oportunidades econômicas e elevando o bem-estar social.

Traduzir visão em ação não é tarefa fácil. Embora a importância de investir em capital cerebral seja evidente, muitas organizações enfrentam obstáculos que podem retardar ou paralisar seu avanço. Para mobilizar recursos em torno do capital cerebral é preciso antes superar barreiras e limitações, como as seguintes:

  • Conscientização interna limitada e decisões fragmentadas entre as funções estratégicas e de recursos humanos. A formação do capital cerebral precisa deixar de ser uma iniciativa do RH e se tornar uma prioridade do CEO e do Conselho.
  • Subestimação do valor no curto prazo. Os recursos destinados ao fortalecimento do capital cerebral tendem a ser vistos como custos, não investimentos na criação de valor.

Para superar essas barreiras, as organizações precisam adotar uma abordagem disciplinada e contínua para elaborar estratégias, alocar recursos e implementar mudanças. O modelo dos 5 As – aspirar, avaliar, arquitetar, agir, avançar – é um roteiro útil que qualquer organização pode adaptar à sua escala, setor e objetivos (Quadro 7).

Seja um CEO competindo em mercados globais, um prefeito definindo programas para a primeira infância ou um dirigente educacional preparando a próxima geração de pensadores, as organizações sob sua liderança têm um papel decisivo a desempenhar. Para CEOs, integrar o capital cerebral às estratégias de talentos e de inovação garante resiliência na era da inteligência artificial; para líderes nas áreas da saúde e das ciências da vida, significa investir em pesquisa e em inovações nos modelos de cuidado; para governos, implica construir sistemas que promovam a saúde e as habilidades cerebrais desde a infância até a velhice. Em conjunto, essas ações capacitam as organizações não apenas a formar capital cerebral internamente, mas também a exercer liderança externa, ditando o ritmo em um cenário competitivo e em rápida transformação.

Conclusão

O capital cerebral é um pilar fundamental da prosperidade, e seu valor está sendo redefinido. À medida que a IA e a automação reconfiguram a economia global, muitas fontes tradicionais de vantagem competitiva, como mão de obra barata, estão deixando de existir. Os mercados não estão mais ancorados em ativos físicos e agora são impulsionados por ideias, algoritmos e a capacidade de aprender em ritmo verdadeiramente astronômico. Por outro lado, embora a IA tenha se mostrado extremamente promissora em termos de aumentar a produtividade e até mesmo de contribuir para a saúde cerebral, sua presença crescente na vida cotidiana também suscita novas preocupações acerca do bem-estar mental e do convívio social. O modo como países e organizações desenvolvem estratégias de capital cerebral – valendo-se das qualidades complementares da inteligência humana e das capacidades tecnológicas – se tornará uma fonte determinante de resiliência e valor.

Este relatório argumenta que o capital cerebral ocupa um papel central como ativo econômico estratégico. As oportunidades nunca foram tão grandes. Avanços recentes na neurociência criaram as condições para transformações profundas. E, embora o relatório tenha focado mais a justificativa econômica para investir em capital cerebral, o impacto potencial sobre a vida dos indivíduos e de suas famílias deve permanecer no centro e à frente de uma análise mais abrangentes. Em âmbito mundial, a ampliação de intervenções já comprovadas em saúde cerebral poderia resgatar mais de 260 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs).

Para as empresas, a questão é urgente. Burnout, absenteísmo e escassez de talentos já estão restringindo o crescimento. Em um mundo no qual se estima que 59% da força de trabalho precisará de requalificação até 2030, o fortalecimento do capital cerebral é imprescindível como estratégia fundamental de talentos e inovação. Organizações que incorporarem a saúde cerebral e as habilidades cerebrais aos seus modelos de negócio estarão em melhor posição para se adaptar, competir e crescer.

Este relatório descreve cinco alavancas para ativar o capital cerebral: proteger a saúde cerebral, desenvolver habilidades cerebrais, e estudar, investir e mobilizar em torno do capital cerebral. Essas ações se reforçam mutuamente e podem ser implementadas em qualquer nível. Em conjunto, representam um caminho não apenas para enfrentar os desafios atuais, mas também para construir um futuro mais forte e resiliente.

Primeiro, é preciso tratar a saúde cerebral como o fundamento de tudo. Nenhuma agenda de capital cerebral terá sucesso se não ampliar o acesso às estratégias, serviços e mecanismos de apoio que protegem a saúde cerebral.

Segundo, as habilidades cerebrais precisam ser desenvolvidas ao longo de toda a vida. Isso exige apoio coordenado nos mais diversos sistemas e contextos – incluindo a primeira infância, os sistemas de educação formal, os ambientes de trabalho e os programas voltados ao envelhecimento saudável.

Terceiro, é indispensável estudar o capital cerebral e consolidá-lo como um campo de pesquisas interdisciplinares capaz de conectar esforços isolados, atrair mais investimentos estratégicos e contribuir para a tarefa crítica de mensuração.

Quarto, deve haver investimentos em larga escala em capital cerebral. Isso significa destravar fontes de financiamento, reduzir os riscos associados à inovação e direcionar recursos para as oportunidades de máximo impacto. Os governos podem criar ambientes mais propícios, nos quais investidores e organizações filantrópicas possam expandir o capital catalítico, enquanto as empresas devem liderar pelo exemplo, testando novas abordagens e incorporando habilidades cerebrais aos seus programas de desenvolvimento de talentos.

Por fim, é essencial mobilizar os diferentes stakeholders para converter o momentum em ação sustentada. Isso requer o engajamento de um conjunto mais amplo de atores, não apenas nas áreas da saúde e da educação, mas também em finanças, trabalho, tecnologia e outros setores, a fim de elevar o capital cerebral ao patamar de uma prioridade econômica e social.

O cérebro é o motor da inteligência humana e a fonte de infinitas possibilidades. A ascensão da inteligência artificial reforça a necessidade crítica de desenvolver, em igual medida, as capacidades humanas. Investir em capital cerebral é, portanto, um caminho para vidas mais plenas, economias mais resilientes e sociedades mais fortes.


Leia o relatório completo em inglês aqui.

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