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Às 6h12, a água de um cano com vazamento começa a pingar no teto de um apartamento no 12º andar, sem que ninguém perceba. Às 9h, quando o administrador do imóvel chega para trabalhar, aquele pequeno gotejamento já se transformara em um grande problema.
Moradores desesperados ligam para reclamar da água caindo do teto. O administrador, perplexo, tentar encontrar soluções: “Nossa equipe tem como acessar o registro no apartamento de cima? É possível chamar um encanador e um empreiteiro para virem imediatamente consertar o vazamento e conter os danos?”
Agora, imagine o mesmo cenário se desenrolando de forma bem diferente. Às 6h12, um sensor monitorado por um agente de IA notifica o vazamento. O agente identifica que o problema começou no apartamento do 13º andar, alerta um funcionário da manutenção e autoriza seu acesso ao local acionando uma fechadura inteligente. A água é desligada em poucos minutos, mesmo que os moradores não estejam em casa. O sistema também identifica e contacta profissionais capazes de resolver o problema e notifica os moradores sobre o horário previsto do reparo. Quando o administrador do imóvel chega, as ordens de serviço já foram encaminhadas e os danos são limitados, graças a uma cadeia automatizada de pequenas etapas que antes exigiria no mínimo uma dúzia de telefonemas.
Este é apenas um exemplo de como será a próxima onda de IA no setor imobiliário. A aceleração da IA agêntica é impressionante e já supera, em muito, as aplicações anteriores de IA generativa – seja automatizando múltiplas etapas dos fluxos de trabalho dos principais sistemas de negócio ou permitindo que humanos trabalhem em parceria com agentes. Há uma mudança de “Ajude-me a entender” para “Ajude-me a executar”. Embora a implementação bem-sucedida de um sistema agêntico seja desafiadora, seu potencial de geração de valor é enorme. Uma análise da produtividade da mão de obra em 48 países conduzida pelo McKinsey Global Institute indica que a automação – incluindo IA aplicada ao trabalho intelectual – pode gerar valor global entre $430 a $550 bilhões1 nos setores imobiliário, de construção e de incorporação.
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Pensando em ajudar as empresas a dar os primeiros passos, este artigo examina os elementos centrais de uma implantação eficaz de IA agêntica. Em particular, focamos a importância de redesenhar domínios inteiros e destacamos quatro domínios de alto valor que encontramos repetidamente em nosso trabalho com organizações: manutenção e instalações, locação e renovações, investimentos e gestão de ativos, e construção e despesas de capital. Apresentamos exemplos de possíveis aplicações, muitas das quais já estão sendo estudadas ou implementadas pelas empresas com as quais trabalhamos. Por fim, delineamos três futuros plausíveis nos quais a IA agêntica redesenhará o modelo operacional que o setor imobiliário poderá vir a adotar no futuro.
IA: das margens a valor real
A maioria dos líderes do setor imobiliário já lançou experimentos pontuais de IA: resumir contratos de locação, redigir memorandos, responder a perguntas com mais rapidez e tornar relatórios mais claros. Tudo isso pode contribuir para tornar as pessoas mais eficazes, mas raramente transforma o modo de trabalhar nos sistemas centrais – e raramente melhora os resultados de toda a empresa.
Isso não é peculiar ao setor imobiliário. A IA já vem sendo adotada em diversos setores, mas um impacto financeiro consistente é mais difícil de encontrar, quase sempre porque essas ferramentas permanecem adjacentes aos fluxos de trabalho em vez de serem incorporadas a eles.
É aqui que a IA agêntica pode desempenhar um papel verdadeiramente transformador. Agentes não são meros chatbots inseridos em um processo existente: são um conjunto de sistemas capazes de executar, com aprovações e rastreabilidade, cada vez mais etapas de um fluxo de trabalho. Combinam autonomia, planejamento, memória e integração para irem além da assistência reativa em direção à execução proativa voltada para objetivos específicos. Se os líderes do setor imobiliário almejam impacto mensurável, devem deixar de perguntar: “Para quais casos de uso podemos criar projetos-piloto?” e começar a perguntar: “Quais fluxos de trabalho devemos redesenhar para que, com os controles apropriados, o software possa realizar o trabalho?”
Por que os domínios são a unidade de mudança
Os casos de uso de IA tendem a ser tarefas pontuais e bem delimitadas, quase sempre específicas demais para alterar os resultados do negócio. No outro extremo, as “transformações corporativas” podem ser excessivamente amplas e superficiais. Os domínios se situam num meio-termo. Um domínio é uma fatia coerente do negócio, com responsáveis definidos, resultados mensuráveis e fluxos de trabalho interdependentes que podem ser redesenhados de ponta a ponta. É grande o suficiente para ser relevante, mas pequeno o bastante para ser gerenciável.
Na prática, um domínio é uma jornada completa da notificação ao resultado: desde um pedido de manutenção até a resolução do problema; desde um lead até a assinatura de um contrato de locação; desde uma solicitação de informações até a entrega aprovada e o fechamento. Cada domínio pode ser desmembrado em um pequeno número de fluxos de trabalho, que por sua vez se desdobram em etapas e decisões recorrentes no dia a dia. Muitas dessas etapas são candidatas naturais à automação ou podem ser aumentadas pela colaboração entre pessoas, agentes e robôs (Quadro 1). Os benefícios vão desde uma resolução mais rápida dos chamados de manutenção até o aumento da taxa de conversão de leads em contratos de locação, passando pela melhoria da experiência dos inquilinos e, consequentemente, pela redução da rotatividade.
Focar o redesenho no nível dos domínios é importante porque obriga as organizações a desenvolverem as permissões, integrações e governança de que agentes de IA precisam para executar tarefas essenciais. As equipes devem então revisar os dados do rastreamento das atividades dos agentes e utilizar esses insights para padronizar e aprimorar os fluxos de trabalho. Em tal ambiente, as organizações podem melhorar semana após semana, não piloto após piloto (veja Box, “Automatizar as etapas e proteger as reflexões”).
Adotar uma abordagem baseada em domínios também obriga a organização a ser mais explícita sobre quem captura valor – tão importante quanto a viabilidade técnica no setor imobiliário. Utilizar a IA para aprimorar os fluxos de trabalho no nível dos domínios pode ajudar os proprietários-operadores a aumentar a receita e melhorar o serviço diretamente. Para operadores e provedores de serviços terceirizados, a IA pode abrir as portas para novos modelos comerciais e esclarecer como o trabalho deles cria valor para si e para os proprietários. Os investidores podem se beneficiar de maneiras diferentes, financiando mudanças no modelo operacional que se traduzem em bom desempenho mais duradouro. Ao longo da cadeia de valor, os líderes precisam explicitar quem paga as transformações do domínio, quem aufere os benefícios e quem detém os dados de rastreamento que permitem que os sistemas continuem aprendendo.
As cinco camadas técnicas
O sucesso ou fracasso da IA agêntica depende da arquitetura tecnológica da organização. Sem a arquitetura certa, os agentes não conseguem colaborar entre si, nem com humanos, comprometendo a reconfiguração dos fluxos de trabalho.
Na prática, a maioria das implementações de IA agêntica requer cinco camadas técnicas, cada uma com um papel bem definido. Se houver fragilidade em qualquer uma delas, a organização tende a produzir demonstrações impressionantes, mas impossíveis de escalar. Aqui estão as principais funções que cada camada pode executar:
- Camada factual. Esta camada torna os dados e documentos imobiliários utilizáveis. Isso inclui: coletar e padronizar metadados sobre propriedades, unidades, contratos de locação, fornecedores e projetos; identificar de modo consistente inquilinos, unidades, fornecedores e projetos em todos os sistemas; extrair informações de documentos de forma confiável; e servir como fonte única de verdade quando houver divergência entre sistemas.
- Camada de orquestração. Esta camada planeja e distribui o trabalho. Identifica gatilhos de eventos, falhas no fluxo de trabalho, lógica de roteamento, regras de encaminhamento de tarefas e “pontos de parada” quando a confiança for baixa ou o risco for elevado (por exemplo, aprovação de faturas de alto valor, autorização para a renovação contratual de um inquilino-âncora ou aumento da verba destinada a benfeitorias solicitadas por inquilinos).
- Camada de ação. Esta camada executa tarefas integrando, de forma segura, ferramentas de IA a sistemas de gestão de propriedades, a sistemas de CRM, a plataformas de serviços, a sistemas de procurement e a controles de projetos – seja criando tickets, agendando tarefas, solicitando aprovações, atualizando status e/ou registrando resultados.
- Camada de controle. Esta camada assegura a governança ao gerenciar permissões, aprovações de transações financeiras e cláusulas de exceção, trilhas de auditoria e monitoramento (incluindo testes e avaliações) para que os líderes possam entender o que aconteceu, por que aconteceu e se o desempenho está deteriorando.
- Camada de componentes. Esta camada fornece uma biblioteca de pequenos blocos agênticos reutilizáveis (conhecidos como “agentes atômicos”) e rotinas (por exemplo, “redigir uma atualização aos stakeholders”, “extrair uma cláusula ou termo de um documento”, “encaminhar para aprovação”, “registrar num sistema” e “encerrar o ciclo”). Esses blocos podem ser adaptados para diferentes públicos e contextos (por exemplo, moradores, fornecedores, proprietários ou administradores de imóveis) sem a necessidade de reconstruir a funcionalidade.
Esta última camada é a chave para uma verdadeira escalabilidade. Os modelos operacionais vencedores não serão construídos em torno de um único agente heroico que tenta fazer tudo, mas sim a partir de agentes atômicos que realizam bem uma pequena tarefa, com limites claros. Essas peças atomizadas podem então ser integradas em ferramentas que serão implantadas no nível dos domínios e aprimoradas ao longo do tempo.
Como proteger o discernimento humano e a confiança
No setor imobiliário, a IA agêntica pode criar valor assegurando um senso de confiança dentro da organização por meio da governança, devolvendo tempo aos profissionais, eliminando a necessidade de repassar tarefas e abrindo espaço para as pessoas fazerem o que somente elas podem fazer – e, assim, melhorar a satisfação e a confiança do cliente.
Os moradores só vão se lembrar de como você resolveu uma situação desagradável, não de nove intervenções rotineiras. Inquilinos de escritórios terão em mente que você resolveu um problema rapidamente, não a sofisticação do seu portal. Proprietários e financiadores guardarão na memória que você continuou prestando contas sob pressão. Quando os agentes lidam de forma consistente com eventos rotineiros, as pessoas ficam livres para se concentrar nas tarefas que exigem discernimento, bom senso, criatividade e presença: negociações, encaminhamentos, exceções e os momentos em que relacionamentos estão em jogo. A implantação bem-sucedida da IA agêntica no setor imobiliário automatizará agressivamente as etapas, dando às pessoas o tempo e o espaço de que necessitam para oferecer serviços sólidos e confiáveis.
É preciso que as organizações entendam a fundo os possíveis riscos associados à IA agêntica, incluindo vulnerabilidades capazes de interromper as operações, comprometer dados ou corroer a confiança. Os sistemas agênticos precisam ser desenhados com controles que correspondam aos riscos: permissões concedidas conforme a função, aprovação humana quando necessário, trilhas de auditoria e distinção clara entre orientação e execução. O trabalho da McKinsey com organizações agênticas pioneiras indica que, no novo modelo operacional, humanos e agentes trabalharão lado a lado em escala, tendo a governança como um pilar central do desenho, não um suplemento.
O maior obstáculo às ferramentas de IA gerarem valor é conseguir que as pessoas as adotem e confiem nelas. Em fluxos de trabalho altamente especializados, as pessoas não terceirizam seu discernimento simplesmente porque há um software disponível. Elas confiam na automação quando conseguem entendê-la, supervisioná-la e intervir sem interromper o fluxo. Isso significa estruturar o fluxo de trabalho: pontos de revisão claros para as ações de maior risco, indicadores simples de incerteza e resumos concisos do que o sistema fez e o que ele afetou. Quando algo dá errado, as equipes precisam de maneiras claras de intervir, retificar e aprender, não de uma caixa preta que as obrigue a voltar ao trabalho manual. Também significa que as versões iniciais dos projetos-piloto de IA devem ter etapas manuais de “aprovação” que as equipes optem por automatizar somente depois de ganharem confiança no que está em fase de produção (por exemplo, automatizar quando o botão de aprovação é clicado na grande maioria das vezes).
Há, porém, outro risco, mais insidioso. Se todo proprietário e operador implantar o mesmo agente – treinado nos mesmos padrões e falando no mesmo tom seguro e genérico – as marcas acabarão diluídas. O mercado imobiliário envolve fluxos não só de trabalho, mas também de sentimentos. O objetivo não deve ser eliminar a emoção das interações, mas sim automatizar os processos interativos nos quais há atrito, para que os profissionais humanos possam se dedicar a garantir que a marca apareça com mais consistência nos momentos que importam.
Os quatro domínios principais
Quando os líderes do setor imobiliário buscam incorporar a inteligência artificial aos fluxos de trabalho, quatro domínios de alto valor se destacam – aqueles que combinam volume elevado, encaminhamento confuso de tarefas e consequências reais para o desempenho. As organizações que quiserem implantar IA nesses domínios devem se concentrar em resultados mensuráveis, não em métricas de adoção. É irrelevante quantas pessoas utilizam uma ferramenta se não houver melhoria nas métricas que realmente importam – mais contratos de locação assinados ou agilização da manutenção, por exemplo.
Manutenção e instalações: da expedição à execução automática
É na manutenção que se ganha ou se perde confiança, um inquilino por vez. Na maioria das organizações, porém, a manutenção ainda envolve o repasse de tarefas e responsabilidades entre funcionários humanos: receber solicitações, abrir um chamado, expedir funcionários ou fornecedores, obter aprovações, atualizar moradores e processar faturas.
Em vez de criar um agente que “faz manutenção”, a organização deve redesenhar de ponta a ponta o fluxo de incidentes: notificação, triagem, acesso, expedição, comunicação, aprovações, execução, conclusão e aprendizado. É nesse percurso que se concentram as principais falhas de coordenação e as perdas evitáveis. Organizações com as quais trabalhamos na automatização dos fluxos de manutenção alcançaram reduções de tempo superiores a 30% em diversas etapas do processo.
Considere o exemplo do cano com vazamento que descrevemos no início deste artigo. Os sistemas agênticos podem assegurar, desde o primeiro sinal, que todas as etapas rotineiras serão executadas de forma rápida e consistente, acionando a revisão e a aprovação humanas somente se necessário. Com isso, equipes de manutenção e fornecedores poderão se concentrar na resolução do problema, não na obtenção de informações. Esta é apenas uma das áreas em que a força de trabalho do futuro será, para todos os efeitos, uma colaboração entre pessoas, agentes e, em ambientes físicos, robôs – seja administradores de imóveis atuando em parceria com sistemas agênticos, ou profissionais especializados de manutenção e reparo sendo apoiados por um sistema mais inteligente de expedição, diagnóstico e coordenação (Quadro 2).
Locação e renovações: atendimento, velocidade e compliance
A locação costuma ser tratada como uma função de marketing, mas para operadores imobiliários o processo é mais operacional e se resume a duas coisas: gerir a logística e criar confiança entre os inquilinos.
Essas duas dimensões estão presentes todos os dias nos mesmos lugares: capacidade de resposta, agendamento, documentação e acompanhamento. Quando qualquer uma dessas etapas falha, a confiança se deteriora. A IA agêntica pode assumir muitas tarefas rotineiras de coordenação (guiada por diretrizes claras e regras de encaminhamento) para que as pessoas possam dedicar mais tempo ao que realmente importa: exercer discernimento, demonstrar empatia e lidar bem com exceções.
Um concierge digital é capaz de reagir de modo consistente a sinais em múltiplos canais e idiomas, utilizando informações validadas e regras de encaminhamento explícitas. Contudo, em ambientes que exigem alto grau de confiança, a forma como o sistema se comunica é tão importante quanto o que é dito: o tom, a transparência e as sugestões de encaminhamento devem ser desenhadas de tal modo que os moradores entendam o que acontecerá em seguida e quando e como haverá um humano envolvido. Esses sistemas, se mal executados, acabam todos tendo a mesma voz insossa; se bem executados, porém, tornam a marca mais presente e distintiva.
A partir daí, os ganhos operacionais ficam mais claros. O agendamento de visitas pode operar com disponibilidade em tempo real, reduzir taxas de não comparecimento e reagendar repetidamente se necessário. O suporte a inscrições pode ajudar os candidatos a um imóvel a preencher a documentação, reduzir erros e encaminhar rapidamente as exceções para revisores humanos. O denominador comum é a eliminação de atrito em fluxos de alto volume, aliada a uma maior clareza das responsabilidades e do repasse de tarefas.
Renovações e reformas se beneficiam da mesma abordagem. Fluxos agênticos podem antecipar riscos de rotatividade de inquilinos ao identificar indícios precoces – problemas recorrentes não resolvidos, reclamações frequentes sobre a mesma questão, não comparecimento a compromissos agendados, queda da responsividade ou tendências de feedback negativo. O sistema pode então alertar as equipes para tomar providências antes que a janela de renovação do contrato se feche. A chave é a prevenção: detectar problemas com antecedência suficiente para corrigi-los e lidar com exceções de forma deliberada e consistente. Igualmente fundamental é incorporar ao projeto, desde o início, diretrizes de compliance e trilhas de auditoria. Quando bem integrados ao processo de locação, os fluxos de trabalho agênticos tornam a comunicação mais ágil, as informações mais precisas, a documentação mais clara e o acompanhamento mais confiável. Ao eliminar atritos e permitir que os funcionários ofereçam um atendimento mais personalizado, os fluxos agênticos concedem às equipes em campo mais espaço para oferecer os momentos humanos que os inquilinos valorizam. Em nossa experiência, empresas de locação têm aumentado sua taxa de renovação em 3% a 7% após a adoção de fluxos com IA. Em construtoras residenciais, observamos melhorias superiores a 90% no tempo de resposta a leads e um aumento recorde nas vendas graças a agentes atuando fora do horário comercial e interagindo com compradores 24 horas por dia.
Investimentos e gestão de ativos: ciclos mais rápidos e maior discernimento
Na área de investimentos e gestão de ativos, a maior parte do trabalho ainda é realizada manualmente: revisão de cláusulas contratuais, análise de fatores de desempenho, preparação de materiais para o comitê de investimentos e, em seguida, atualização recorrente da mesma narrativa sempre que os números mudarem.
A implementação da IA agêntica nesse domínio não visa substituir o discernimento, mas sim eliminar os atritos que o retardam. Em muitas equipes, os atritos são essencialmente práticos: dados em sistemas dispersos, datas importantes e resumos de contratos de locação enterrados em documentos, narrativas sobre desempenho reconstruídas em slides e planilhas, e ciclos demorados de atualização que exigem retrabalho intensivo. Quando todo o material está enfim pronto, as decisões já estão atrasadas.
É possível criar um portfólio no qual agentes pesquisam dados estruturados operacionais e de contratos de locação, redigem documentos padronizados com fontes claras, detectam sinais de alerta precoce que permitem uma intervenção mais rápida, e realizam tarefas repetíveis, como extrair dados, redigir comunicados, agendar, sintetizar informações, registrar resultados e atualizar sistemas.
Com isso, os humanos podem se concentrar em questões nas quais o discernimento é crucial: exceções, opinião crítica, relações com inquilinos, escolhas de marca, alocação de capital e decisões de investimento. A recompensa é a velocidade, mas também consistência, defensibilidade e auditabilidade.
Construção e despesas de capital: controlando a complexidade
Mesmo antes da primeira pá tocar o solo, a construção civil já se configura como um empreendimento incrivelmente complexo. É um domínio intensivo em documentação, sequenciamento, coordenação e mudanças. Um redesenho agêntico pode oferecer às equipes maior controle sobre os projetos que mantêm a documentação organizada e os fluxos de trabalho em andamento.
Sistemas agênticos são capazes de formular e organizar solicitações de informações, atas de reuniões, submissões técnicas e documentos de projeto. Podem interpretar códigos e especificações para assegurar conformidade, e também automatizar fluxos de trabalho como obtenção de licenças ou coordenação de pacotes de licitação. Mantêm os proprietários e stakeholders bem informados com atualizações oportunas e ajudam a integrar e mobilizar subempreiteiros, organizando a documentação necessária e sequenciando as etapas iniciais.
À medida que essas capacidades evoluem, os fluxos de trabalho no setor de construção civil também podem se beneficiar de outras integrações técnicas – por exemplo, comparações entre a modelagem de informações da construção (BIM) e as condições do local, monitoramento de indícios de desvio de cronograma e sinalização das ordens de alteração [das especificações iniciais do projeto] que excedam limites predefinidos de revisão. O objetivo é reduzir o volume de tarefas perdidas, acelerar os ciclos de tempo da documentação de rotina, aumentar a visibilidade dos riscos antes que se convertam em atrasos e gerir com mais disciplina as ordens de alteração, pois o registro documental estará completo.
Visualizando o futuro da IA no setor imobiliário
Para as organizações do setor imobiliário, a escolha não é adotar ou não a inteligência artificial, mas decidir se ela atuará ao lado dos sistemas principais, como um conjunto de ferramentas úteis, ou se se tornará uma vantagem operacional integrando-se profundamente a domínios redesenhados.
Para aquelas que adotarem uma abordagem focada em domínios, três futuros poderão se desenrolar ao mesmo tempo. Eles não são mutuamente exclusivos e, na prática, a maioria das organizações vivenciará elementos dos três, dependendo da classe de ativos, do mercado e do ponto de partida.
O surgimento de novos sistemas operacionais
Em cinco anos, a estrutura da maioria dos proprietários e gestores de imóveis deixará de ser baseada em coletâneas de ativos e passará a se assemelhar mais a um sistema operacional. Não em termos de branding, mas no sentido prático de que seus portfólios operarão sobre uma camada comum de fluxos de trabalho, dados e controles.
Nesse mundo, um prédio não é “inteligente” porque possui sensores. Ele é inteligente porque a organização consegue transformar sinais em ação. As solicitações de serviço põem em marcha um encadeamento previsível de tarefas. Exceções são encaminhadas, aprovadas e documentadas da mesma maneira todas as vezes. Os relatórios deixam de ser um corre-corre mensal e se tornam um subproduto da execução.
O efeito cumulativo é o que separa os líderes dos retardatários. Cada ordem de serviço deixa informações que podem aprimorar o encaminhamento. Cada problema resolvido ensina a organização a prevenir o próximo. Cada projeto de capital aprimora o sequenciamento e o desempenho dos fornecedores. Com o tempo, o portfólio passa a atuar como um sistema que ensina a própria organização.
O conceito é simples, mas exige disciplina. O ideal é começar com um domínio de alta atividade, no qual os resultados sejam relevantes. Integre-o aos sistemas de registro, estabeleça caminhos claros de aprovação e auditoria, meça um resultado concreto – e repita o processo quantas vezes for necessário.
As camadas de coordenação desaparecem paulatinamente
Atualmente, uma parcela significativa do trabalho no setor imobiliário consiste em gerenciar o repasse de tarefas e responsabilidades: buscar documentos, confirmar status, acompanhar aprovações, conciliar expectativas e resultados. Coordenar tudo isso exige incontáveis reuniões, caixas de mensagens abarrotadas e, muitas vezes, um esforço hercúleo.
À medida que os fluxos de trabalho se tornam mais automatizados, a camada intermediária de tarefas acessórias começa a se dissipar. O trabalho muda e, por extensão, os cargos para os quais as pessoas foram contratadas também. A organização passa a gastar menos tempo com papelada e mais tempo gerenciando resultados. Equipes que antes coordenavam atividades com base na memória e em relacionamentos passam a depender mais de sistemas para seguir adiante.
As organizações vencedoras serão aquelas que reinvestirem o tempo liberado em áreas de verdadeira diferenciação: experiência de moradores e inquilinos, negociação, gestão de crises e aprimoramento contínuo. Os cargos serão redesenhados em conjunto com os fluxos de trabalho. Os gerentes aprenderão a supervisionar não apenas pessoas, mas sistemas inteiros. E os humanos manterão o controle dos momentos que realmente importam.
Torna-se mais difícil criar valor
No terceiro futuro, a execução melhora em todo o setor e o número de vitórias rápidas diminui. Os relatórios se tornam mais claros; as ordens de serviço, mais previsíveis; os serviços, mais consistentes. Como resultado, uma preocupação central das organizações passa a ser como se diferenciar.
Nesse cenário, a vantagem competitiva migra duas vezes. Primeiro, se desloca para empresas que construírem ciclos de aprendizado cumulativos em domínios essenciais, elevando a eficiência e o desempenho. Em seguida, à medida que essas capacidades se disseminam, a vantagem passa para aquilo que não pode ser comoditizado: confiança, marca, relacionamentos e convicção de investimento. A IA pode aprimorar cada um desses elementos, mas não pode substituí-los.
A verdadeira vantagem estratégica virá da utilização em escala de ferramentas de IA e do aprendizado gerado por esse processo. Quando os fluxos de trabalho passam por uma camada de agentes, cada ticket, aprovação, exceção e resolução deixa um rastro do que ocorreu, do que foi decidido e do que funcionou. Com o tempo, esses rastros se transformam em conhecimento operacional proprietário, capaz de aprimorar decisões futuras. Disso emerge uma pergunta estratégica que os líderes devem se fazer desde o início: “Quem detém o ciclo de aprendizado – o proprietário, o administrador do imóvel, o fornecedor de software ou o provedor de serviços?”
É por isso também que a escolha dos parceiros de IA é tão importante. Muitas plataformas convergem para uma experiência de mínimo denominador comum, porque é isso que escala entre os clientes. O risco é sutil: a automação voltada para o cliente se torna mais fluida, mas a marca fica mais insípida e os serviços, mais fáceis de padronizar e de precificar para competir. A diferenciação vem daquilo que permanece sob controle da organização: o desenho proprietário dos fluxos de trabalho; os dados rastreados que fazem o sistema aprender; e a voz, o tom, a transparência e os modos de encaminhamento, intencionalmente desenhados para preservar a confiança e reforçar, não obscurecer, o diferencial da marca.
Com o tempo, algumas empresas tentarão englobar software e serviços em um único pacote, um único sistema operacional. As organizações mais bem posicionadas para o sucesso serão aquelas que detêm seus próprios fluxos de trabalho, o ciclo de aprendizado e a experiência do cliente como algo inconfundivelmente seu.
O que distingue os líderes é a disciplina, não a ambição. Eles decidem quais domínios assumem como próprios. Garantem o controle dos rastros de dados gerados pelo trabalho executado, para que a organização continue aprendendo. Desenham uma governança que permite aos sistemas atuar com segurança. E tratam a adoção como uma obrigação de negócio, não como um projeto de TI.
Os vencedores não serão as empresas com as demonstrações mais chamativas. Serão as que, discretamente, colocam as engrenagens do trabalho em movimento antes mesmo de o dia começar, para que as pessoas possam se concentrar e aprimorar seu discernimento, seus relacionamentos e os momentos mais importantes no mundo construído em que vivemos.
No setor imobiliário, como em outros setores, os benefícios mensuráveis da adoção de IA têm demorado a se materializar. No entanto, o rápido avanço da tecnologia agêntica representa uma oportunidade para os líderes repensarem como gerar valor com a inteligência artificial.
É improvável que se consiga vencer nessa próxima fase com uma série de projetos-piloto desconectados. A vitória virá de um pequeno número de transformações de domínio desenhadas para execução e confiança. As organizações que agirem cedo poderão utilizar agentes para reduzir o repasse de tarefas e responsabilidades, melhorar os serviços e acelerar os ciclos de decisão, ao mesmo tempo em que constroem a governança e o modelo operacional que sustentarão esses ganhos ao longo do tempo. Se implantada com disciplina e controles de risco, a IA agêntica pode levar a novos níveis de eficiência, aprimorar o atendimento e a experiência do cliente, e favorecer a melhoria contínua, proporcionando uma vantagem competitiva concreta.