A hora e a vez da minimobilidade: líderes do setor dão a receita

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Como a McKinsey já apontou anteriormente, a minimobilidade – veículos elétricos ultraleves como microcarros, veículos de quatro rodas assistidos por pedal, quadriciclos elétricos fechados e bicicletas de carga pesada – tem enorme potencial para ajudar a reduzir o congestionamento urbano, as emissões de CO2 e o custo da posse de um veículo. Por serem menores do que os veículos elétricos de passageiros convencionais, sua produção exige menos energia e menos recursos de modo geral (incluindo certos componentes de baterias que estão em falta no mercado). Para seus donos, os veículos de minimobilidade têm um custo total menor do que veículos elétricos maiores e, em compara&que alguns ccedil;ãoque alguns com opções de micromobilidade como patinetes elétricos e bicicletas, oferecem mais conforto, proteção contra intempéries e melhor visibilidade.

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Apesar de todas as vantagens potenciais da minimobilidade, vários líderes do setor com quem conversamos recentemente indicaram que o mercado desses veículos ainda enfrenta enormes dificuldades para crescer. (Veja Box, “Nossa metodologia”.) Na verdade, o crescimento desse segmento do mercado global de mobilidade ficou aquém do mercado total endereçável, estimado em $100 bilhões para 2030 na China, na Europa e na América do Norte.

A adoção de veículos de minimobilidade é altamente localizada e depende de fatores como regulamentação municipal e condições climáticas. No final de 2025, por exemplo, havia mais de 32 mil microcarros registrados na Holanda e bicicletas de carga pesada comerciais são hoje uma presença comum nas ruas de Londres. Nos Estados Unidos, a utilização de veículos de minimobilidade ainda é bastante limitada. Os microcarros são preferidos por moradores de comunidades de aposentados da Flórida, do Texas e do Arizona; já na cidade de Nova York, o uso comercial de bicicletas de carga ganhou popularidade desde que receberam aprovação municipal em 2024.

Ainda assim, a inovação nas empresas de minimobilidade permanece forte: novos tipos de veículos estão sendo desenvolvidos regularmente, embora a maioria ainda esteja em estágios iniciais. E mesmo que alguns líderes relatem que a ampla variedade de novos veículos e casos de uso tenha aumentado a fragmentação do setor de minimobilidade, todos continuam convictos de que, uma vez alcançada a devida escala, a minimobilidade ajudará a enfrentar os grandes desafios ambientais e espaciais inerentes à mobilidade urbana.

No entanto, as estruturas necessárias para escalar plenamente o setor de minimobilidade continuam incipientes. Por quê? Os líderes apontaram quatro áreas problemáticas – regulamentação, custos, hesitação do consumidor e infraestrutura – que nortearam suas reflexões sobre onde e como concentrar esforços para superar a fragmentação do mercado, expandir a minimobilidade e produzir um impacto rápido e duradouro.

Embora a minimobilidade ainda não tenha alcançado escala significativa, muitas macrotendências atuam a seu favor: as cidades estão ficando mais congestionadas, as políticas urbanas desestimulam a utilização de carros no centro das cidades e o preço dos veículos de grande porte está se tornando menos acessível a muitos consumidores.

Wolfgang Ziebart,
fundador e CEO da XYTE Mobility

Por que clareza regulatória é vital para escalar a minimobilidade

Os líderes do setor de minimobilidade descrevem um cenário regulatório em que as classificações específicas para veículos são inexistentes, inconsistentes entre diferentes regiões ou pouco claras. Eles explicam que, embora políticas voltadas para metas de emissões tenham contribuído, em certa medida, para ampliar o alcance de algumas soluções de minimobilidade (como as bicicletas de carga), a legislação e os incentivos ainda se concentram primordial ou exclusivamente na transição de veículos comerciais e de passageiros com motor a combustão interna para suas versões elétricas. Alguns líderes defendem que, em vez dessa abordagem restrita, as estruturas regulatórias e a legislação deveriam ser ampliadas para estimular a demanda por veículos de minimobilidade, ajudando não apenas a reduzir os níveis de emissões do setor, mas também a mitigar o impacto coletivo da mobilidade sobre os recursos do planeta.

Um exemplo do setor de micromobilidade (que poderia ser aplicado para aumentar a demanda por opções de minimobilidade) é um programa de incentivo fiscal muito popular na Alemanha, que permite aos empregadores oferecer bicicletas em regime de leasing a seus funcionários. Entre 2020 e 2025, o programa cresceu, em média, 23% ao ano, e o valor das vendas via leasing ultrapassou €3,1 bilhões. Além disso, serviços de entrega e outras operações de logística de encomendas incorporaram bicicletas de carga pesada a suas frotas para atingir metas de redução de emissões. A DHL, por exemplo, utiliza bicicletas de carga em cidades europeias como Amsterdã e Paris para cumprir as normas de emissões e enfrentar melhor o congestionamento urbano.

Se não tornarmos os carros mais leves, não conseguiremos diminuir as emissões da indústria automobilística a um nível aceitável.

Håkan Lutz,
CEO da Luvly

O modo como os veículos de minimobilidade são classificados (ou não) afeta diretamente quão conveniente é operá-los em cada ambiente, o que, por sua vez, determina sua atratividade para os consumidores. Por exemplo, dependendo da classificação, um veículo de minimobilidade poderá ou não circular legalmente em vias urbanas e em velocidades compatíveis com as de outros veículos. Do mesmo modo, a classificação pode determinar se o governo municipal terá a capacidade e a disposição para criar ou adaptar vagas de estacionamento e faixas de circulação que acomodem esses veículos.

Todos os líderes consultados concordaram que, para promover o crescimento da minimobilidade, a clareza regulatória é fundamental. O ideal é que essa clareza seja acompanhada de uma harmonização das estruturas de classificação dos veículos. Os fabricantes argumentam que um contexto regulatório moderno, consistente e previsível é essencial para que possam planejar investimentos, assegurar compromissos firmes em toda a cadeia de suprimentos e conquistar a confiança dos clientes. Todos enfatizaram que incentivos e uma legislação favorável são importantes, mas que a previsibilidade é ainda mais relevante, pois medidas incertas ou de curto prazo desestimulam tanto os compradores como os produtores.

Além disso, vários líderes mencionaram o potencial de uma nova categoria de veículos que permita eliminar a lacuna entre bicicletas e automóveis. Por fim, enfatizaram a necessidade de resolver rapidamente as questões regulatórias para assegurar que empresas europeias e americanas possam competir globalmente e, ao mesmo tempo, manter a produção doméstica.

Reduzir os custos de produção da minimobilidade para favorecer o crescimento

A ambiguidade regulatória e a falta de sinais claros de demanda têm, em parte, impedido que montadoras estabelecidas formem parcerias com startups de minimobilidade. É o que afirmam os executivos entrevistados e, embora alguns conversem frequentemente com grandes empresas automotivas sobre possíveis parcerias, eles também notaram que essas empresas de maior porte parecem estar aguardando sinais mais robustos de demanda. E explicam que, sem essas parcerias, não é possível alcançar as economias de escala necessárias na cadeia de suprimentos e nos custos de produção para sustentar o crescimento necessário para transformar a minimobilidade em um mercado de massa e permitir a redução dos preços dos veículos.

Uma parceria entre as principais empresas do setor de mobilidade e startups de minimobilidade – envolvendo OEMs, cadeias de suprimentos e distribuição – será extremamente importante. Uma parceria estratégica mais engajada poderia envolver também aportes financeiros, licenciamento, joint ventures ou fusões e aquisições. Tais parcerias estratégicas impulsionarão o crescimento e criarão um mercado muito mais dinâmico para todos envolvidos no “último quilômetro”.

Morten Rynning,
fundador e CEO da CityQ

Parcerias com OEMs (fabricantes de equipamentos originais) já consolidados e com fornecedores de primeiro nível são essenciais para viabilizar a minimobilidade em escala. Startups do setor de minimobilidade também devem pensar em parcerias com montadoras de veículos de duas rodas ou mesmo de outras áreas, como fabricantes independentes. No entanto, as grandes montadoras talvez tenham dificuldade para chegar à equação econômica certa com sua atual estrutura de custos, enquanto os fabricantes de veículos de duas rodas podem não possuir as capacidades necessárias para produzir veículos com carroceria. De modo que ainda há trabalho a ser feito para que essas parcerias funcionem.

Para os clientes – em particular, frotas e governos municipais –, os veículos de minimobilidade precisam ser tão confiáveis quanto os automóveis convencionais, com acesso comparável a serviços de manutenção e reparo, e a peças de reposição. Para garantir a operacionalidade dos veículos no longo prazo, cada startup precisará alavancar o ecossistema automotivo existente. Na prática, isso significa compartilhar redes de serviços e de pós-venda, consolidar a aquisição de componentes para capturar benefícios de escala e integrar veículos de minimobilidade aos ecossistemas industriais e urbanos atuais. É possível que as empresas do setor de minimobilidade também precisem implementar modelos de produção pragmáticos e transitórios, montando seus veículos localmente, mas adquirindo globalmente os componentes de maior custo. Só assim poderão oferecer preços acessíveis antes de alcançar escala industrial plena e de tornar viáveis as cadeias de suprimentos locais. Nenhuma startup, por si só, é capaz de construir redes continentais de serviços, estruturas logísticas de peças de reposição ou canais de distribuição.

A maioria dos líderes com quem conversamos considera que os preços atuais não são competitivos para o mercado de massa; segundo eles, isso só acontecerá com financiamento e incentivos do setor público e coinvestimentos público-privados. Essa combinação de gastos e investimentos é essencial para aumentar o volume de produção, compartilhar plataformas de componentes e estabelecer redes de fornecedores mais robustas, permitindo assim atingir níveis de preços acessíveis. Alguns também observaram que, sem tais iniciativas direcionadas, a produção na Europa e na América do Norte talvez permaneça proibitivamente cara devido aos custos de mão de obra, de energia e das tarifas.

Mudar os hábitos do consumidor para ampliar o alcance da minimobilidade

Embora os consumidores tendam a achar os veículos de minimobilidade atraentes após experimentá-los, a adoção inicial desses veículos continua limitada por preocupações com segurança, proteção contra intempéries e conforto. Os veículos de minimobilidade costumam ser vistos como veículos secundários ou de lazer, não como o principal meio de transporte. Para a maioria das pessoas, os veículos de baixa velocidade (LSV) são um meio de transporte local mais divertido do que um carro de passeio. E, diferentemente de um carrinho de golfe, são equipados com recursos de segurança que permitem sua circulação em vias públicas – um possível diferencial comercial em certos mercados. No entanto, consumidores de muitas regiões, como ocorre em grande parte da América do Norte, não estão acostumados a veículos de dimensões reduzidas, baixa velocidade máxima ou autonomia limitada. Por isso, é fundamental inovar, evoluir e adaptar as soluções de minimobilidade a uma ampla variedade de casos de uso e perfis de consumidor. E, de fato, a adoção da minimobilidade é altamente específica a cada localidade: a adequação do produto ao mercado depende das condições de trânsito, da disponibilidade de estacionamento, do clima local, da densidade urbana, da malha viária e dos hábitos e da cultura de mobilidade existentes. Os executivos que consultamos enfatizaram que os consumidores só aceitarão soluções de minimobilidade se estas oferecerem uma vantagem clara para o dia a dia no local onde moram.

Para acelerar a adoção pelos consumidores, é preciso ir além de mensagens que repercutam apenas entre usuários preocupados com o clima e apresentar os veículos pequenos como opções agradáveis, atraentes e desejáveis, não apenas eficientes ou racionais sob a perspectiva da sustentabilidade.

O caminho para promover a adoção é oferecer uma experiência de produto superior à de um carro de passeio convencional. Mas essa iniciativa tem de partir da indústria. Se isso significar que a oferta atual não é a solução, será preciso criar uma solução que seja – ou teremos de ajustar nossas expectativas e metas de vendas.

Chris Dawson,
CEO da Arcimoto

Novos modelos de negócios e formatos de utilização também podem desempenhar papel importante na aceleração da adoção. Frotas compartilhadas, serviços por assinatura, frotas de veículos autônomos e a integração com o transporte público ou com plataformas de micromobilidade existentes permitem que os usuários experimentem essas soluções sem a necessidade de adquirir um veículo. Esses modelos ampliam o acesso, melhoram a utilização das frotas e tornam os veículos pequenos parte do cotidiano, servindo muitas vezes como uma ponte para sua aquisição à medida que a familiaridade e a confiança aumentam.

Adaptar a infraestrutura para a minimobilidade

Todos os líderes com quem conversamos ressaltaram o desalinhamento problemático entre a infraestrutura atual e as necessidades dos veículos leves. De modo geral, esses veículos são obrigados a operar em uma infraestrutura que não foi projetada para seu tamanho ou caso de uso. A maioria das cidades foi planejada em torno do uso de carros e vans, e não está aparelhada para viabilizar a micro e a minimobilidade. Por exemplo, vans de entrega estão autorizadas a realizar carga e descarga junto ao meio-fio, mas bicicletas de carga pesada, não. Do mesmo modo, há poucas ou nenhuma vaga de estacionamento e infraestrutura de recarga específica para microcarros e quadriciclos elétricos. Além disso, veículos de minimobilidade muitas vezes ficam presos no tráfego de carros convencionais, apesar de ocuparem bem menos espaço.

Para que a minimobilidade funcione em escala nas operações logísticas, a existência de micro-hubs é fundamental. No caso das bicicletas de carga pesada, por exemplo, a ausência de micro-hubs próximos ao centro da cidade prejudica as operações. Os micro-hubs funcionam como pontos de distribuição onde pacotes e outras mercadorias podem ser transferidos de grandes veículos logísticos para veículos de mini ou micromobilidade. Garantir que veículos de entrega de minimobilidade tenham acesso ao meio-fio é importante para assegurar não só a sua adoção, mas também a eficiência do serviço.

Os líderes também entendem que seus veículos precisam se adaptar às características da infraestrutura atual. Na Europa, onde a densidade urbana é elevada, os deslocamentos diários costumam ser curtos e a autonomia necessária é modesta, a tecnologia de veículos elétricos leves a bateria é vista como o caminho natural da minimobilidade no longo prazo.

Todos os líderes também enfatizaram que os governos municipais podem incentivar a adoção dos veículos de minimobilidade se realizarem algumas mudanças na infraestrutura, ainda que modestas, para melhorar a visibilidade, a segurança e a conveniência desses veículos – por exemplo, ampliar ciclovias existentes para que acomodem veículos de três ou quatro rodas. Por sua vez, uma adoção mais ampla ajudará a reduzir tanto os congestionamentos como as emissões. Outras mudanças relativamente pequenas apontadas como capazes de gerar grande impacto incluem disponibilizar estacionamento para veículos de minimobilidade ou até mesmo permitir que esses veículos estacionem e circulem em zonas onde carros convencionais são atualmente proibidos. Um dos líderes ressaltou ainda que as cidades deveriam demonstrar as vantagens da minimobilidade de maneiras que catalisem mudanças mais amplas na mobilidade urbana.

Se mais cidades oferecerem espaço e condições adequadas para a operação de bicicletas cargueiras, será possível substituir rapidamente uma grande parcela das vans urbanas. A capacidade existe; o que falta é melhorar a infraestrutura.

Konrad Schlösser,
diretor-geral e chefe da unidade de negócios de micromobilidade da Mubea

Uma visão de sucesso: o futuro da minimobilidade

Os líderes compartilham uma visão do futuro da minimobilidade: a expectativa de testemunhar, na próxima década, uma mudança profunda nas normas culturais de mobilidade na qual os veículos de minimobilidade se tornarão a opção natural para deslocamentos curtos e serão vistos como uma forma divertida, mais eficiente e simplesmente melhor de se locomover pelas ruas. Os líderes vislumbram um ecossistema de mobilidade no qual a maior parte dos deslocamentos urbanos diários seja realizada em veículos leves e compactos, complementando o transporte público e substituindo uma parcela significativa de carros e vans maiores. Eles esperam que, nas ruas das cidades do futuro, a minimobilidade esteja totalmente integrada: veículos estacionados perpendicularmente ao meio-fio, circulando com agilidade por vias estreitas e oferecendo mobilidade confortável durante todo o ano, com uma pegada de carbono mínima.

Meu sonho é que somente microcarros possam circular no centro das cidades.

Wim Ouboter,
CEO da Microlino

Quanto à minimobilidade de carga, a expectativa é que uma parcela substancial das vans a combustão seja substituída por soluções robustas de veículos elétricos de carga pesada, viabilizadas por micro-hubs e acesso otimizado ao meio-fio. Esses veículos realizariam a logística do “último quilômetro” em substituição às tradicionais vans de entrega de grande porte.

Já existe um precedente de redução do tamanho dos veículos: os Kei Cars, carros leves e pequenos que ganharam enorme popularidade no Japão. Em 2024, representaram 38% dos novos emplacamentos no país, favorecidos por impostos veiculares mais baixos, benefícios no seguro e regras favoráveis de estacionamento.

Para os líderes do setor de minimobilidade, é bem claro o que é necessário para transformar suas visões do futuro em realidade. Eles defendem que a minimobilidade tem todas as condições para evoluir de uma promessa incipiente para uma escala significativa, mas apenas se as barreiras estruturais forem eliminadas com urgência e de forma abrangente. Ressaltam que as empresas do setor não são capazes de, sozinhas, realizar a transição para veículos leves; o engajamento e o investimento dos setores público e privado serão decisivos. Quanto mais cedo os stakeholders decidirem agir, mais cedo os benefícios prometidos pela minimobilidade poderão ser concretizados: redução drástica das emissões, menor consumo de recursos, menos congestionamentos e áreas urbanas fáceis – e até divertidas – de percorrer e explorar.

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