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A Europa enfrenta forças poderosas simultâneas: uma guerra em curso em seu território, um legado de progresso tecnológico lento (enquanto as mudanças provocadas pela IA continuam acelerando) e dúvidas persistentes sobre sua produtividade e competitividade. Essas pressões reacenderam o debate sobre o que o continente precisa fazer para investir, integrar-se e inovar na escala necessária para assegurar e impulsionar o seu futuro.
A KKR, uma das grandes firmas do mundo que mais investem em empresas europeias, tem uma perspectiva privilegiada dessa discussão. Nesta entrevista, Philipp Freise, codiretor de private equity da KKR na Europa, explica como o continente pode transformar seu momento da verdade em renovação – modernizando seus mercados de capitais, promovendo a inovação e aplicando tecnologias como inteligência artificial a toda a sua base industrial. Com coordenação e senso de urgência, diz Freise, a Europa poderá mais uma vez converter adversidade em progresso.
Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.
Um momento crucial de mudança na Europa
McKinsey: Em um momento em que o continente enfrenta tantos desafios – de ameaças à paz a transformações tecnológicas a tendências demográficas – o que o deixa otimista em relação à Europa?
Philipp Freise: A Europa vive uma época crucial da sua história. Os sinais de alerta são inúmeros. Um relatório do ano passado redigido por Mario Draghi – ex-primeiro-ministro da Itália e ex-presidente do Banco Central Europeu – deixou claro que a Europa precisa investir mais, e de modo mais inteligente, em seu futuro.
O relatório nasceu no contexto de um momento da verdade. Desde a Segunda Guerra Mundial, a Europa aceitou sem questionar certas estruturas institucionais: nossa dependência dos EUA para a segurança, o sistema monetário internacional, até mesmo a solidez dos nossos sistemas de pensões. Agora, essas premissas estão sendo questionadas. Sabemos que vivemos um período crítico. Mas, se a história nos serve de guia, é justamente nesses momentos que a Europa se move.
McKinsey: Que lições podemos aprender com outros momentos da história que provocaram reformas na Europa?
Philipp Freise: Em 2005, a Alemanha despertou para uma nova realidade ao se dar conta de que o desemprego elevado e o crescimento anêmico ameaçavam se transformar em estagnação econômica. Em resposta, o país implementou reformas importantes, e essas reformas ergueram a Europa ao longo de toda a década seguinte.
Vivemos uma situação semelhante agora. Temos populações que duvidam do futuro de seus países e de seus recursos. Enfrentamos problemas de segurança, uma guerra em curso no continente e uma nova tecnologia revolucionária – a IA – que está mudando quase tudo.
Essa situação começa a instigar reformas. A constituição da Alemanha já foi modificada de modo a permitir novos investimentos e um trilhão de euros já foi comprometido. Mas todos sabemos que capital, por si só, não basta. Precisamos reformar o modo como poupamos, gastamos, inovamos – e como escalamos a inovação.
A resposta à COVID mostrou do que a Europa é capaz sob pressão. Quando a pandemia foi declarada, os hospitais foram disponibilizados em questão de dias, as populações protegidas e a inovação incentivada – e a melhor vacina foi desenvolvida aqui, na Alemanha. Não devemos subestimar esse poder. Esperamos que não seja preciso uma outra pandemia ou uma guerra em território da OTAN para nos levar a agir. O fato é que a determinação já existe; a Europa está se mobilizando.
IA e defesa como catalisadores da mudança
McKinsey: Você acha que o rápido avanço da IA poderia exercer o mesmo tipo de pressão hoje, no sentido de inovar e catalisar reformas futuras?
Philipp Freise: De certa forma, sim – e isso está diretamente ligado ao que ocorre na área da defesa. Se analisarmos o que permitiu que a Ucrânia resistisse ao ataque inicial, veremos que o poder da IA e das tecnologias de nova geração desempenhou papel significativo, incluindo aqui o trabalho de empresas inovadoras como a startup alemã Helsing. Foram primordialmente tecnologias de IA que ajudaram a repelir alguns dos avanços iniciais.
Uma revolução tecnológica fundamental está se desenrolando em ritmo acelerado e a Europa precisa decidir se quer participar ou não. A boa notícia é que, diferentemente de revoluções tecnológicas anteriores, os grandes modelos de linguagem não conferem vantagem permanente aos pioneiros. A principal vantagem associada a investimentos maciços de capital na implantação da inteligência artificial reside na construção de modelos de fundação. Mas o verdadeiro impacto – aquele capaz de transformar nossas economias e de resolver o problema do baixo crescimento da produtividade — virá dos vários níveis de aplicação.
Só teremos a ganhar se pudermos acessar os avanços possibilitados pelos grandes modelos fundacionais de linguagem. Como se diz, a maré alta eleva todos os barcos. Preocupa, é claro, o fato de não sermos proprietários desses modelos essenciais, sobretudo no que diz respeito a dados e privacidade, mas a grande questão é saber se conseguiremos aplicar em escala o que já existe.
Ampliando a escala da inovação na Europa
McKinsey: Em termos de inovação no continente europeu, o que será necessário para transformar heróis locais em campeões globais?
Philipp Freise: A Europa precisa direcionar mais capital para ecossistemas, não apenas para empresas estabelecidas. Veja o que aconteceu nos Estados Unidos com a Anduril, por exemplo. O governo norte-americano destina deliberadamente uma parcela de seu orçamento de defesa ao ecossistema de inovação, financiando startups, P&D e novas tecnologias. A China faz o mesmo. É justamente daí que surge um percentual significativo das inovações mais revolucionárias.
Aos poucos, a Europa começa a assimilar essa lição. À medida que ampliamos nossa capacidade de agir (graças aos capitais que mencionei anteriormente: o compromisso de um trilhão de euros da Alemanha, a expansão dos gastos com defesa no continente e os investimentos privados), será preciso assegurar que esse capital chegue a startups movidas por nova propriedade intelectual, e não apenas a empresas já consolidadas. Isso é algo que pode até mesmo ser imposto de cima para baixo.
McKinsey: Você está defendendo um tipo diferente de parceria público-privada?
Philipp Freise: Exatamente. Já vimos esse modelo funcionar antes. A SpaceX não foi bem-sucedida porque tinha mais experiência, mas porque a NASA decidiu arriscar e assinar contratos de grande porte com ela. É assim que os ecossistemas crescem: trazendo empresas privadas inovadoras para programas nacionais.
A Europa tem hoje a mesma oportunidade no setor de defesa e em outras áreas estratégicas. Seja ao nos rearmarmos ou ao reconstruirmos nossa infraestrutura, devemos ter como propósito incorporar o cenário da inovação e das startups. É assim que promoveremos a próxima geração de campeões europeus.
Reforma, regulamentação e o mercado comum
McKinsey: De sua perspectiva, quais são as prioridades de mercado na Europa neste momento?
Philipp Freise: A primeira é concluir o mercado único – para serviços, para capital e para tecnologia. Uma empresa de robótica da Alemanha precisa ser capaz de expandir por toda a Europa sem ter de lidar com 28 sistemas tributários ou leis de insolvência diferentes. A harmonização pode e deve ocorrer.
Também precisamos de uma estrutura regulatória comum que facilite a expansão: normas consistentes sobre como as tecnologias são governadas, como as empresas podem falir e recomeçar, e como impostos são aplicados. Se conseguirmos criar essas condições, uma empresa que se destaque em um país poderá competir no continente inteiro.
McKinsey: O relatório de Draghi destacou isso como uma prioridade. O que pode ajudar a concretizar essa harmonização?
Philipp Freise: A boa notícia é que o roadmap já existe – não será necessário reinventar a roda. Boa parte do que precisamos fazer já consta do relatório de Draghi, que foi publicado há um ano. O que falta é vontade política.
Mas nada funcionará se os setores público e privado não trabalharem juntos. Temos que tratar a competitividade com a mesma urgência com que tratamos a COVID: um esforço coordenado entre nações, setores e instituições. Se pensarmos nisso como uma mobilização para a guerra do crescimento e da inovação, conseguiremos superar as ineficiências que ainda seguram a Europa para trás.
Cultura, criatividade e tecnologia
McKinsey: Por que as artes e a criatividade são importantes para a competitividade da Europa?
Philipp Freise: A cultura é a grande magia da Europa. Eu estava em Paris ontem e, depois de tantas notícias políticas pessimistas e desanimadoras, seria de se esperar uma atmosfera tristonha e preocupada. Mas quando se chega lá, a cidade é linda, os restaurantes estão repletos, as pessoas estão nas ruas. Essa é a energia e a diversidade que definem a Europa.
Todos os nossos 28 países, incluindo o Reino Unido, são fontes de inspiração. Nossos teatros, casas de ópera e salas de concerto, toda a arte criada ao longo dos séculos, nos conferem algo singularmente europeu. Quando me sinto desalentado com a tecnologia ou o com futuro, costumo retornar a essa herança. Até mesmo os primeiros inovadores, como Steve Jobs, foram inspirados por ela – a campanha “Think Different” da Apple foi construída a partir da ideia de que grandes líderes culturais e sociais mudaram o mundo.
McKinsey: Como você vê a tecnologia influenciando as artes e demais setores criativos?
Philipp Freise: A IA já está revolucionando o cinema e a televisão. Recentemente, assisti a E.T. com meus filhos e não pude senão compará-lo com Matrix e Duna. A evolução da narrativa visual é assombrosa. A IA dá aos humanos novas ferramentas para a criatividade.
Claro, há muita discussão sobre isso – meus filhos leem menos do que eu na idade deles, mas por outro lado eles dispõem de ferramentas criativas incríveis que não existiam para nós. Quando eu tinha a idade deles, podíamos dar um passeio ou assistir a Tom e Jerry, se tivéssemos sorte. Não havia YouTube, nem Instagram. Agora, um adolescente com imaginação pode criar e compartilhar arte instantaneamente. É uma extraordinária expansão da criatividade humana.
McKinsey: Qual é a relação entre tecnologia e cultura?
Philipp Freise: Tecnologia e cultura estão intimamente interligadas. Ao longo da história, avanços tecnológicos sempre influenciaram a expressão cultural. Hoje, a IA é uma oportunidade excepcional para a expressão humana. Ela democratiza a criatividade. Todos podem ter acesso a conhecimentos e ferramentas que lhes permitem focar o que é essencial: utilizar a imaginação. E isso é algo profundamente humano.
Investindo no futuro da Europa
McKinsey: Você disse que a Europa possui talentos excepcionais de pesquisa e engenharia, mas enfrenta dificuldades para escalar. Por que esse descompasso persiste?
Philipp Freise: A Europa dispõe de abundância de talentos, propriedade intelectual e universidades de excelência – e até mesmo de patentes. O grande gargalo é o capital. Simplesmente não investimos o suficiente para transformar ideias em empresas. O relatório de Mario Draghi deixa isso claro: existe um potencial de investimento da ordem de €750 bilhões por ano que permanece subutilizado.
Não é que o dinheiro não exista. Uma parcela significativa do nosso sistema de previdência e poupança é estruturada em torno de produtos de baixo rendimento e baixo crescimento. Em contraste, países com mercados de capitais profundos, como Estados Unidos ou Austrália, canalizam essa base de poupança para a inovação. Esse é o descompasso que precisamos corrigir.
McKinsey: O que seria necessário para liberar esse investimento para a inovação?
Philipp Freise: Precisamos reformar as leis de aposentadoria e criar uma verdadeira união dos mercados de capitais. Os noruegueses mostraram como isso funciona com seu fundo soberano. A Austrália oferece outro modelo: 25 anos atrás, exigiu que todo empregador contribuísse uma parte do salário dos trabalhadores para um fundo de capital que investe na economia como um todo, incluindo ecossistemas inovadores.
Imagine se a Alemanha tivesse feito o mesmo. Há 20 anos que ela apresenta superávits em conta corrente de cerca de 10% do PIB; se mesmo uma pequena parte disso houvesse sido aplicada em um fundo soberano que investisse em campeões europeus ou globais de tecnologia, já teríamos nossa própria Alphabet.
McKinsey: Você está vendo sinais de que o sentimento dos investidores em relação à Europa está mudando?
Philipp Freise: Com certeza. Pela primeira vez na história da KKR, estamos vendo níveis recordes de interesse pela Europa. Estabilidade, estado de direito e qualidade de vida – coisas que as pessoas antes davam como garantidas – estão agora sendo valorizadas novamente.
As oportunidades são reais: reformar as pensões, aprofundar os mercados de capitais, atrair capital privado global. Com esses alicerces, a Europa poderá financiar sua inovação em escala. Os ingredientes já existem; resta apenas a execução.