Um novo ecossistema de insights geopolíticos

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Os eventos globais que se desenrolam hoje por vezes lembram um pisca-pisca vertiginoso e ofuscante: intensos e fragmentados, tornam impossível uma visão panorâmica. Se fechar os olhos por um instante, você pode perder um acontecimento crucial – os efeitos de segunda e terceira ordem dos conflitos no Oriente Médio, um novo desdobramento nas negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia ou o anúncio de uma nova tarifa ou regulação para as exportações. Por outro lado, ater-se demais às últimas notícias pode obscurecer oportunidades que estão surgindo, por exemplo, com os novos corredores comerciais ou a proliferação de acordos comerciais.

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Entender as implicações do que está acontecendo nunca foi tão importante. Os líderes empresariais já consideram a instabilidade geopolítica e comercial uma ameaça maior ao crescimento global do que a volatilidade macroeconômica, os ataques cibernéticos ou a disrupção tecnológica. Organizações de ponta têm reagido de forma proativa à volatilidade geopolítica, seja ajustando suas estratégias, fortalecendo o engajamento interno ou modernizando suas funções corporativas. Algumas criaram unidades dedicadas à análise geopolítica, responsáveis por monitorar as tendências nas relações internacionais, assegurar uma supervisão rigorosa por parte do Conselho e da alta gestão, e antecipar-se aos acontecimentos por meio do planejamento de cenários.

Se quiserem mitigar os riscos e capturar as inúmeras oportunidades que as mudanças geopolíticas podem trazer, os líderes empresariais precisam ir muito além de simplesmente acompanhar os noticiários: terão de desenvolver um verdadeiro ecossistema de insights geopolíticos – uma rede articulada de fontes e competências internas e externas que os ajude a otimizar a estratégia à medida que os eventos se desenrolam. Um exemplo ilustrativo é o de uma empresa global de laticínios que elaborou vários cenários com base em tendências geopolíticas e avaliou como cada um de seus mercados e parques produtores seria afetado. Como resultado dessa iniciativa, os líderes decidiram vender uma unidade e investir o capital em outra região que, na maioria dos cenários, prometia maior crescimento. Essas e outras medidas similares contribuíram para um aumento de 10% no preço das ações da empresa no ano fiscal seguinte.

Neste artigo, descrevemos os elementos essenciais de um ecossistema de insights e examinamos como os líderes podem traduzir esse conhecimento em decisões e ações mais bem informadas e eficazes.

Criando um ecossistema de insights geopolíticos

A maioria das grandes organizações hoje monitora os eventos geopolíticos, mas as informações que os decisores recebem tendem a ser fragmentadas, baseadas em fontes limitadas e sem uma relação clara com as prioridades de negócios. Se estruturarem esse fluxo de informações, os líderes poderão utilizar seus insights práticos para orientar a estratégia e o modelo operacional da organização. Um ecossistema robusto de insights geopolíticos deve abranger três categorias: competências internas, capacidades consultivas e redes externas.

Competências internas

Na maioria das organizações, certos indivíduos e equipes têm acesso a informações privilegiadas sobre eventos geopolíticos, mas não existem canais claros pelos quais transmiti-las aos tomadores de decisões. Por isso, empresas de ponta utilizam um ou mais dos cinco mecanismos descritos a seguir para coletar, avaliar e priorizar insights.

Unidades de geopolítica. Uma equipe dedicada à geopolítica atua como “os olhos no céu” da organização, ajudando os líderes empresariais a identificar os acontecimentos pertinentes em meio à enxurrada de notícias. Essas unidades desempenham quatro funções principais: coordenar os insights de várias equipes; criar dashboards que monitorem a suscetibilidade do mercado, do setor e do produto aos principais fatores geopolíticos; identificar ações que a organização pode empreender e que outras empresas estão implementando; e fornecer um contexto estratégico para os decisores (veja Box, “Principais características das unidades de geopolítica”). O objetivo é integrar insights de todas as áreas da organização em análises abrangentes que destaquem as implicações dos acontecimentos para os negócios. Um líder de geopolítica em certa instituição financeira considera a ausência de surpresas como um indicador do sucesso da sua unidade: “Quando uma equipe consultiva de geopolítica está fazendo bem seu trabalho, ela é quase invisível, mas o Conselho e a alta gestão acabam tomando decisões mais bem informadas”.

Equipes aumentadas. Como a criação de unidades de geopolítica independentes pode exigir investimentos substanciais e envolver questões delicadas caso elas também prestem serviços a clientes e instituições parceiras, algumas empresas preferem desenvolver competências geopolíticas dentro das equipes já existentes. O foco geralmente recai sobre funções que atuam na linha de frente dos desdobramentos geopolíticos, como relações governamentais ou gestão de riscos. No ano passado, por exemplo, um banco global e um fundo de pensão integraram membros de suas unidades de geopolítica a equipes multifuncionais internas, e recorreram a firmas externas para obter insights adicionais.

Institutos. Empresas líderes em serviços financeiros, manufatura e outros setores têm criado institutos de geopolítica ou assuntos globais que produzem análises aplicadas para orientar os negócios, assessoram a alta liderança sobre tendências globais, ajudam no planejamento de cenários e oferecem consultoria sobre decisões de investimento. Um exemplo é o KKR Global Institute, presidido por David Petraeus, general aposentado dos EUA e ex-diretor da CIA, que trabalha com equipes macroeconômicas e políticas para identificar e mitigar riscos aos investimentos – incluindo avaliações do grau de atratividade ou inadequação de países ou regiões para investimentos de longo prazo. Alguns institutos também oferecem briefings para stakeholders externos, clientes e investidores, e ajudam a moldar a posição e a narrativa institucional sobre temas geopolíticos. O Centro de Geopolítica do JPMorgan Chase e o Instituto Global do Goldman Sachs se enquadram nessa categoria.

Posições na alta gestão ou no Conselho. Algumas organizações nomearam executivos seniores – geralmente ex-altos funcionários do governo ou conselheiros com experiência relevante – para supervisionar as competências geopolíticas internas. Esses líderes se valem da sua experiência pessoal e das suas redes de contatos para discutir a agenda da empresa com decisores políticos e tratar de questões regulatórias ou de acesso ao mercado, atuando como embaixadores corporativos em fóruns internacionais. Várias empresas americanas de serviços financeiros recrutaram ex-diplomatas e especialistas em segurança nacional para essas funções. Por exemplo, Jon Huntsman Jr., ex-embaixador dos EUA na Rússia (e ex-presidente do Conselho Consultivo de Geopolítica da McKinsey), hoje lidera as iniciativas da Mastercard para expandir parcerias comerciais com governos e instituições do setor público. Os relacionamentos que esses líderes estabelecem podem ser valiosos mesmo depois de deixarem o cargo. O experiente diplomata indiano S. Jaishankar, por exemplo, que atuou como presidente de assuntos corporativos globais da Tata Sons, tornou-se ministro das Relações Exteriores do seu país.

Conselhos. A expertise geopolítica tornou-se um critério importante na composição de muitos Conselhos. É o caso do presidente do Conselho de uma das maiores mineradoras do mundo, que havia atuado anteriormente como embaixador de seu país em um mercado estratégico para a empresa. Embora inúmeras organizações possuam conselheiros com experiência geopolítica, seus conhecimentos às vezes são subaproveitados. Pois esses membros têm condições de orientar e apoiar a alta gestão na avaliação de riscos geopolíticos, atuar como consultores internos para equipes de negócios ou contribuir decisivamente para o engajamento de stakeholders e reguladores em mercados globais, aprofundando relacionamentos institucionais e fortalecendo a licença para operar. O presidente do Conselho de uma grande empresa global de commodities, por exemplo, mapeou os 150 stakeholders mais relevantes para as operações da empresa em determinado mercado – desde chefes de Estado a operadores portuários – e interage com eles ao longo do ano.

Capacidades consultivas

As organizações podem recorrer a consultores externos para melhor entender, monitorar e mitigar riscos geopolíticos e identificar oportunidades. As capacidades consultivas tendem a assumir uma das duas seguintes formas:

Comissões consultivas. Essas comissões são formadas por especialistas externos – indivíduos com experiência conceituada em governos, empresas, mídias e no terceiro setor – que assessoram a alta gestão sobre cenários geopolíticos, oportunidades de criação de valor e suscetibilidade a riscos. Comissões eficazes têm perspectivas diversificadas e seus membros conhecem bem a região ou setor de atuação da empresa, agindo como um fórum de discussão que ajuda a alta gestão a realizar testes de estresse da viabilidade das suas decisões.

Consultores externos. Muitas empresas preferem recorrer a escritórios de consultoria em vez de, ou além de, desenvolver capacidades internas. Enquanto algumas estabelecem um relacionamento amplo com firmas específicas, outras adotam uma abordagem de portfólio a fim de obter acesso a uma gama maior de conhecimentos especializados em domínios, regiões geográficas e política. Entre os critérios utilizados na escolha de uma firma externa estão os seguintes:

  • Relevância. A capacidade de fornecer informações específicas do setor que sejam relevantes para os negócios, com suporte dedicado de analistas.
  • Expertise. Conhecimento comprovado das realidades operacionais da empresa e do seu setor, no nível de cada analista.
  • Alcance global. Presença mundial, com redes e parcerias locais que possam fornecer informações pragmáticas.
  • Prognose. A capacidade de fornecer projeções e assistência ao planejamento de cenários.
  • Transparência. Metodologias claras para classificar, ranquear e prever riscos geopolíticos.
  • Modelo operacional. Apresentação de insights de maneira colaborativa, no momento certo e com excelente custo-benefício.

Redes externas

Um ecossistema genuíno busca insights fora da organização e de seus consultores. As redes externas normalmente incluem associações setoriais, canais no governo, fóruns geopolíticos, especialistas externos e instituições de pesquisa.

Associações. Não importa se o foco dessas organizações é geográfico ou setorial, elas tendem a ser bons canais para interagir com reguladores e autoridades governamentais, coletando insights e defendendo os interesses de seus membros. Também podem organizar fóruns nos quais os membros compartilham experiências e buscam orientação de colegas, além de promover um engajamento ativo entre os líderes de empresas e os formuladores de políticas públicas.

Canais no governo. Briefings e comunicados informativos de autoridades governamentais nacionais ou estrangeiras (incluindo embaixadas) são fontes importantes de insights. Contudo, o verdadeiro valor reside no engajamento direto e é por isso que os líderes empresariais constroem relacionamentos com representantes governamentais, pois os insights obtidos sobre a dinâmica geopolítica atual são mais precisos. Cultivando esse tipo de apoio, poderão enfrentar melhor desafios no futuro, incluindo os grandes problemas trabalhistas vindouros.

Fóruns geopolíticos. Executivos que participam de grandes encontros geopolíticos – sejam regionais (como a Conferência de Segurança de Munique na Europa, ou o Diálogo de Shangri-La na Ásia) ou setoriais (como a Global Grain Geneva ou a Offshore Technology Conference) – podem captar sinais importantes sobre a formulação de políticas e o contexto estratégico. Além disso, podem compartilhar suas perspectivas como palestrantes ou participantes de discussões informais com especialistas e decisores políticos (às vezes até mesmo com a ajuda dos organizadores do evento). As equipes de geopolítica das melhores empresas tendem a criar calendários anuais de grandes fóruns em todo o mundo e agendam a participação dos líderes pertinentes.

Especialistas. Muitas organizações convidam especialistas em geopolítica para reuniões do Conselho ou da alta liderança, e algumas até organizam ciclos de palestras em que os especialistas participam de discussões informais com representantes da empresa. Essas sessões podem levar os líderes a refletir mais a fundo sobre questões geopolíticas, sinalizando para todos a importância de tais considerações nas decisões de negócios. Um ciclo de palestras também pode ajudar as equipes a se posicionar como fontes de conhecimento geopolítico para a organização.

Instituições de pesquisa. Organizações de pesquisa podem ampliar e aprofundar os insights geopolíticos dos líderes empresariais por meio não apenas de análises, mas também de bancos de dados proprietários sobre questões como gastos com defesa. Os líderes acharão particularmente valioso interagir com think tanks cujos estudos influenciem as políticas governamentais.

Embora o exposto acima cubra as fontes mais comuns de insights geopolíticos, a lista não é de modo algum exaustiva. Veículos e agências de notícias, podcasts, newsletters, comentários e outras fontes abertas podem fornecer informações e análises proveitosas. Além disso, clientes, parceiros e investidores também podem ajudar os líderes empresariais a aprofundar seu entendimento das realidades geopolíticas: “Passamos muito tempo com nossos investidores discutindo o mundo no qual todos estamos tentando investir juntos”, diz Petraeus, da KKR. Da sua parte, um executivo sênior de uma das maiores firmas de private equity do mundo se reúne regularmente com os CEOs das empresas do seu portfólio para obter insights estratégicos sobre questões relacionados à geopolítica, que então orientam a estratégia de investimentos de sua própria organização.

Em última instância, a utilização de insights geopolíticos para nortear a estratégia repousa sobre três imperativos: avaliar o negócio em nível granular, identificar suas vulnerabilidades e reconhecer quais oportunidades realmente importam. Com esse entendimento, os líderes poderão desenhar o mix ideal de competências geopolíticas – internas, externas ou híbridas – que lhes permitirá antever eventos, não seguir na esteira deles.

Integrando insights geopolíticos às decisões de negócios

Insights têm valor limitado enquanto não forem incorporados a análises estruturadas e inteligíveis que evidenciem suas implicações para a organização. Os resultados podem ser aplicados em quatro áreas principais: gestão de riscos, estratégia, operações e relacionamento com stakeholders.

Gestão de riscos

Os insights geopolíticos podem ajudar as empresas a definir mecanismos para proteger suas operações em regiões ou setores sensíveis. Algumas delas incluem a geopolítica na sua estrutura de gestão de riscos corporativos e insistem que o tema seja incluído nas sinopses de riscos apresentadas anualmente ao Conselho. Modelos possíveis incluem:

  • Hierarquização. Neste modelo, a empresa hierarquiza seus mercados conforme a suscetibilidade a riscos geopolíticos de cada um. Mercados de alto risco são aqueles em que os líderes empresariais precisam lidar com interesses altamente divergentes entre governos (como a crescente competição estratégica entre Estados Unidos e China), o que exige atenção contínua do Conselho e da alta gestão. Nos mercados em patamares mais tranquilos, os riscos costumam ser tópicos – problemas de pessoal, por exemplo, ou questões de segurança geradas por agitação política ou civil – e podem ser gerenciados por equipes internas à medida que forem surgindo.
  • “Semaforização”. Os líderes atribuem status vermelho, amarelo ou verde a projetos, parceiros ou áreas de atuação com base na gravidade do risco geopolítico.
  • Dashboards de riscos. Dashboards dos riscos de cada país indicam o grau de estabilidade política e econômica em jurisdições específicas, oferecendo uma visão panorâmica das possíveis ameaças e oportunidades relativas à entrada no mercado, investimentos ou cadeias de suprimentos.
  • Fatores de valor geopolítico. Essa estrutura organiza os insights em dez categorias de mudanças geopolíticas capazes de influenciar as decisões de negócios.

Estratégia

Os insights geopolíticos se tornam um ativo estratégico quando orientam decisões sobre alocação de capital ou o abandono de uma região geopoliticamente sensível. As empresas podem utilizá-los para otimizar sua presença global – por exemplo, ao avaliar se devem ou não expandir a produção em determinada jurisdição – e para embasar planos de contingência que permitam antever e mitigar possíveis disrupções.

Operações

Os insights também contribuem para definir o arcabouço operacional da empresa. Por exemplo, os líderes talvez optem por adaptar seus modelos de negócio às dinâmicas regulatórias e geopolíticas, efetuando ajustes no stack tecnológico, nas estruturas jurídicas e societárias, ou nas configurações da força de trabalho.

Relacionamento com stakeholders

Algumas organizações utilizam seus insights geopolíticos para interagir proativamente com clientes, reguladores ou autoridades governamentais. Compartilhar informações sobre comércio global, gargalos nas cadeias de suprimentos ou as consequências inesperadas de certas políticas pode fortalecer o relacionamento com os stakeholders e evidenciar a expertise e a credibilidade dos líderes da empresa. Por exemplo, a equipe de relações governamentais de um banco global compartilha análises e cenários geopolíticos produzidos internamente com autoridades governamentais, contribuindo para contextualizar as políticas públicas e aprofundar o relacionamento entre as instituições.


“Em um mundo rico em informações… a abundância de informação cria pobreza de atenção.” Essas palavras do Prêmio Nobel Herbert Simon, pioneiro em estudos sobre a tomada de decisões, sintetiza o paradoxo que os líderes empresariais enfrentam hoje. A sucessão ininterrupta de eventos geopolíticos e a abundância de informações (algumas delas enganosas) podem cegar os executivos para o que de fato importa. Nenhuma organização pode se dar ao luxo de basear sua estratégia em alguns fragmentos díspares de informação. É indispensável construir um ecossistema robusto de insights geopolíticos que a ajude a nortear a gestão de riscos, a estratégia, as operações e o relacionamento com stakeholders. Esses insights são cruciais para o tipo de supervisão ativa que se espera dos líderes empresariais, permitindo ajustar as estratégias e as operações para que a organização prospere em meio à crescente incerteza geopolítica.

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