Observação: Nós nos empenhamos ao máximo para manter o espírito e as nuances originais de nossos artigos. Porém, pedimos desculpas desde já por quaisquer erros de tradução que você venha a notar. Seu feedback é bem-vindo através do e-mail reader_input@mckinsey.com
A incerteza geopolítica está aumentando – mas o grau de consciência e a capacidade de resposta dos diretores financeiros (CFOs) também. Na mais recente pesquisa online da McKinsey com CFOs,1 realizada no final de 2025, os líderes financeiros identificam as questões geopolíticas como um dos principais fatores de risco para o crescimento de suas empresas, e se revelam mais preocupados do que na pesquisa conduzida no início de 2025. O recente conflito no Oriente Médio provou que estavam certos, sobretudo por causa do aumento do preço do petróleo e de outras ramificações.
Mais insights da McKinsey em português
Confira nossa coleção de artigos em português e assine nossa newsletter mensal em português.
No entanto, a despeito de todas as preocupações expressas na pesquisa do ano passado e de um certo pressentimento de novas disrupções, os CFOs também revelam uma perspectiva mais otimista do crescimento do setor do que no início de 2025. Quase nove em cada dez esperam que as taxas de crescimento de seus respectivos setores serão semelhantes ou melhores do que nos últimos 12 meses, e quase dois terços anteveem níveis de investimento corporativo mais altos no próximo ano (em despesas de capital, P&D e marketing) (Quadro 1). Em termos regionais, os entrevistados da Ásia-Pacífico são os mais otimistas em relação ao crescimento, seguidos pelos da América do Norte; já os entrevistados europeus têm expectativas mais neutras. Apesar dessas diferenças de opinião, a intenção de investir permanece forte em todas as regiões.
Ainda que os CFOs estejam otimistas quanto ao crescimento, eles vêm acompanhando de perto o desempenho e os resultados de curto prazo. A grande maioria deles afirma que suas principais prioridades funcionais para os próximos 12 meses são o planejamento estratégico e o gerenciamento dos direcionadores e KPIs do valor operacional (Quadro 2). Ambas as prioridades são bem mais citadas do que as demais: na pesquisa realizada no início de 2025, metade dos entrevistados escolheu “planejamento e alocação de recursos de longo prazo” como a prioridade máxima (hoje esses itens são prioritários para apenas 28% deles). Tal mudança sugere que os entrevistados estão mais focados em assegurar valor para a empresa no curto prazo do que em tomar decisões estratégicas de longo prazo. Esse foco no curto prazo é ilustrado também pela mudança ocorrida nas prioridades nos últimos 12 meses: em comparação com a pesquisa anterior, os entrevistados relatam ter dedicado menos tempo à transformação organizacional e à gestão de custos e produtividade, e mais à liderança estratégica e à gestão de desempenho.
Os CFOs estão preocupados com riscos externos
Mais do que nos últimos três anos, a instabilidade geopolítica é hoje a maior preocupação de muitos CFOs: 37% dos entrevistados identificam a instabilidade e/ou conflitos geopolíticos e 32% citam mudanças nas políticas e/ou relações comerciais como os principais riscos para o crescimento de suas empresas nos próximos 12 meses. Para um grande número deles, a inflação (31%) e a demanda fraca (29%) também são grandes preocupações. E mais de um quarto lista a disrupção tecnológica ou os riscos cibernéticos como as maiores ameaças (Quadro 3).
As respostas da pesquisa indicam que os CFOs veem riscos ao longo de toda a cadeia de valor: desde o acesso ao mercado e a precificação (devido a tarifas e restrições regulatórias), passando por custos e continuidade da oferta (barreiras comerciais e disrupções logísticas), até escolhas de investimento (incentivos e restrições) e estratégias tecnológicas (controles da propriedade intelectual e da segurança cibernética).
É provável que, em conjunto, essas pressões externas estejam levando os CFOs a querer controlar o que lhes é possível, seja monitorando de perto o desempenho, testando a resiliência de seus planos ou garantindo que suas empresas consigam se ajustar sem abandonar as estratégias de longo prazo.
Tarifas e política industrial entre as maiores preocupações
Ao serem perguntados a quais questões geopolíticas ou macroeconômicas pretendem dedicar mais atenção nos próximos 12 meses, mais de 60% dos entrevistados citam “tarifas e outras barreiras comerciais” (Quadro 4).
As maiores preocupações dos CFOs variam conforme a região. Na América do Norte, três quartos dos entrevistados afirmam que dedicarão mais atenção às tarifas e outras barreiras comerciais. Na Europa e na Ásia-Pacífico, as políticas industriais nacionais estão na mente de muitos. Os CFOs da América do Norte e da Europa incluem tecnologia, propriedade intelectual e controles de segurança cibernética entre suas três maiores preocupações, mas menos de um em cada dez CFOs da região Ásia-Pacífico considera essa área prioritária.
As respostas também variam de acordo com as características da empresa. Os entrevistados de empresas com menor valor de mercado são mais propensos do que seus colegas de empresas maiores a dedicar atenção à tecnologia, propriedade intelectual e controles de segurança cibernética, bem como às políticas nacionais ambientais, trabalhistas e imigratórias. Por sua vez, entrevistados de empresas de capital aberto relatam que planejam dar muito mais atenção às tarifas e barreiras comerciais do que aqueles de empresas privadas, que citam tecnologia, propriedade intelectual e controles de segurança cibernética como suas principais áreas de foco.
É interessante que os CFOs dão comparativamente menos ênfase à cooperação e às alianças multilaterais, indicando que acreditam que os instrumentos de política direta têm impacto maior em suas empresas.
Como os CFOs estão reagindo à incerteza
Em todas as regiões e tamanhos de empresas, quase dois terços dos CFOs entrevistados têm respondido à incerteza geopolítica aumentando as reservas de caixa e a liquidez (Quadro 5).
A segunda abordagem de gestão de riscos mais popular também varia conforme a região. Os entrevistados europeus são significativamente mais propensos do que seus colegas a planejar expandir ou diversificar para novos mercados. Os norte-americanos dizem que também planejam expandir e diversificar para novos mercados, mas são igualmente propensos a dizer que estão otimizando as redes de suprimentos. E os da Ásia-Pacífico são comparativamente mais inclinados a fortalecer a gestão de riscos e o planejamento de cenários. Iniciativas mais estruturais – como reconfigurar suas redes globais de suprimentos, realocar investimentos de capital em regiões de risco e desenvolver capacidades internas para avaliar e gerenciar os riscos geopolíticos – são citadas com menos frequência por entrevistados de todas as regiões.
Os ingredientes que faltam para enfrentar a incerteza
Não chega a surpreender que a maioria dos entrevistados diga que seu maior desafio na gestão de riscos geopolíticos seja simplesmente a incerteza e a imprevisibilidade dos eventos. A segunda dificuldade mais citada é a obtenção de informações: alguns CFOs – particularmente na Ásia-Pacífico – reclamam da inexistência de dados oportunos e confiáveis sobre o impacto dos eventos geopolíticos em suas empresas. E apenas 8% veem o equilíbrio entre mitigar riscos no curto prazo e desenvolver estratégias de longo prazo como um desafio em tempos voláteis e incertos.
Quando perguntados quais recursos ou capacidades adicionais os fariam se sentir mais confiantes para enfrentar a incerteza geopolítica, 24% dos entrevistados citaram uma orientação regulatória mais clara e mais apoio governamental, e 22% mencionaram informações e monitoramento de riscos em tempo real. As demais respostas indicam que os CFOs desejam ferramentas que os ajudem a tomar decisões, modelar cenários diferentes e obter suporte consultivo especializado (Quadro 6).
As respostas, analisadas segundo o perfil das empresas, revelam algumas nuances. Os entrevistados de grandes empresas expressam o desejo de combinar orientação regulatória mais clara, apoio governamental e monitoramento de riscos em tempo real, enquanto os de organizações de médio porte priorizam a orientação regulatória. Por sua vez, os entrevistados de pequenas empresas também expressam desejo por suporte consultivo especializado, um fator de pouca importância para quase todos os outros.
A importância de compreender e reagir a riscos e oportunidades
O foco dos entrevistados coincide, em muitos aspectos, com a posição da McKinsey de que um monitoramento rigoroso dos riscos e o planejamento de cenários são fatores de máxima importância para as empresas compreenderem as implicações da incerteza e saberem o que fazer diante dela. Para que possam orientar as ações da empresa, os cenários devem avaliar sua resiliência geopolítica e traduzir os possíveis impactos sobre o PIB, as taxas de juros e a inflação. Os CFOs devem conectar sistemas de KPIs que determinem se o crescimento e as margens correspondem às metas, simular antecipadamente cenários de crise e planejar respostas.
Embora os entrevistados queiram, acima de tudo, minimizar os impactos dos riscos geopolíticos, acreditamos que os CFOs também devem buscar oportunidades para criar valor ajustado aos riscos decorrentes da incerteza. Cenários podem ser utilizados para acelerar a entrada em mercados onde as mudanças estejam criando novos espaços e para transferir operações ou presença para novas regiões. As estratégias de crescimento podem ser adaptadas de modo a incorporar as oportunidades que surgem da volatilidade. Tais estratégias devem considerar não só o impacto das incertezas geopolíticas no comportamento dos concorrentes, mas também possibilidades de fusão ou aquisição, decisões de investimento, novos corredores comerciais, incentivos, ocasiões para aprimorar as estruturas de custos internas e a otimização da alocação de capital. Os CFOs podem ser a força motriz na identificação dessas oportunidades.
Mas os CFOs também devem evitar uma preocupação excessiva com a volatilidade do momento atual, visto que é igualmente arriscado não refletir estrategicamente sobre diretrizes com um horizonte temporal maior. Devem integrar fatores geopolíticos mais amplos aos cenários de longo prazo para entender os efeitos mais persistentes desses fatores sobre modelos de negócio específicos. Nesse aspecto, a análise de dados pode ser útil para ajudar a gerar insights.
A pesquisa mais recente mostra que os CFOs estão respondendo às incertezas e riscos geopolíticos protegendo a liquidez, avaliando seu grau de exposição e ajustando os mercados e as cadeias de suprimentos quando necessário. No curto prazo, estas são medidas práticas para gerenciar o risco.
O passo seguinte deve ser avançar de uma postura defensiva para uma ofensiva. Embora os líderes financeiros não possam controlar as forças externas, estão bem posicionados para incorporar os riscos geopolíticos à estratégia e ao planejamento de capital de longo prazo. Como mostra a pesquisa, muitos CFOs sentem que há uma escassez de informações confiáveis em tempo real. As empresas que investirem em aprimorar esse tipo de inteligência estarão mais bem posicionadas para reagir rapidamente às mudanças e oportunidades dos mecanismos comerciais, incentivos políticos e cenários competitivos.
Nenhum CFO é capaz de prever o futuro. Mas aqueles que tiverem acesso a informações mais precisas em tempo real, protegerem os negócios existentes, se prepararem para vários cenários futuros e alinharem medidas de curto prazo com estratégia de longo prazo estarão em melhor posição para enfrentar o que vier a seguir.