A próxima onda de geração de valor na cadeia de suprimentos de materiais

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Atacadistas de materiais e centros de serviços ocupam uma posição central na economia industrial. Eles conectam as usinas aos fabricantes e, de forma discreta, viabilizam a produção em praticamente todos os setores industriais – da indústria aeroespacial e automotiva à construção civil, à energia renovável e aos data centers. Sem esses atores intermediários da cadeia de valor, as fábricas teriam dificuldade para obter os materiais certos, no formato certo e no momento certo. Eles são, em essência, os integradores de sistemas do mundo físico, transformando matérias-primas brutas em materiais de produção em escala industrial.

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Esse papel de coordenação torna-se ainda mais crítico à medida que o ambiente operacional do sourcing de materiais se torna mais complexo. O aumento das tensões geopolíticas, a fragmentação do comércio e as disrupções localizadas estão elevando a volatilidade nas cadeias de suprimentos de materiais. O que antes era otimizado com foco em custo e eficiência está agora sendo redesenhado, por necessidade, para assegurar maior resiliência. Cada vez mais, os clientes esperam continuidade do fornecimento, prazos de entrega menores e maior flexibilidade.

Ao mesmo tempo, novos vetores de demanda estão ganhando força. Tecnologias como inteligência artificial, veículos elétricos e infraestrutura de energia renovável estão impulsionando a demanda por materiais específicos. E, em grau crescente, os fabricantes têm optado pela terceirização e transferido o processamento, a customização e os riscos de estoque para atacadistas e centros de serviços.

Diante dessas mudanças, o papel das empresas posicionadas no segmento intermediário da cadeia de suprimentos também está se transformando. Neste artigo, exploramos os riscos e as oportunidades que elas têm diante de si.

Uma era de mudanças na cadeia de valor de materiais

Durante grande parte da última década, a demanda por materiais na Europa e na América do Norte permaneceu praticamente estável. Entre 2015 e 2024, o consumo total de aço, alumínio, cobre e aço inoxidável apresentou variações mínimas. No entanto, até 2030, espera-se uma aceleração contínua da demanda por esses quatro materiais (Quadro 1).

A próxima onda de geração de valor na cadeia de suprimentos de materiais

Essa mudança reflete quatro forças estruturais que estão reconfigurando a demanda por materiais e serviços na Europa e na América do Norte:

  • O realinhamento geopolítico está transformando a curva de demanda por materiais. A reorganização da cadeia de suprimentos provocada por fatores geopolíticos – incluindo o reshoring, ou retorno de processos ao país de origem – está alterando radicalmente a demanda doméstica por materiais. Nos Estados Unidos, por exemplo, o gasto médio mensal com construção de instalações industriais passou de $76 bilhões, entre 2015 e 2020, para $235 bilhões em 2024, devido principalmente aos novos investimentos do país na fabricação de semicondutores e ao reshoring das cadeias de suprimentos. A expectativa é que investimentos semelhantes em infraestrutura – e, em particular, na base manufatureira e energética – mantenham elevada a demanda por materiais ao longo da década.
  • A descarbonização está redefinindo as especificações dos materiais. Em todo o mundo, os compradores planejam elevar a participação dos metais “verdes”, de aproximadamente 21% hoje para 32% em 2030, embora o ritmo dessa tendência varie entre regiões: hoje, a Ásia lidera em compromissos climáticos corporativos, enquanto Europa e América do Norte desaceleram. Em resposta, atacadistas e centros de serviços estão oferecendo produtos diferenciados, relatórios de emissões de carbono, fluxos segregados de materiais verdes e integração com processos de reciclagem.
  • Novas tecnologias estão criando novos motores de crescimento. Data centers, veículos elétricos e equipamentos de energia renovável estão gerando uma demanda elevada e sustentada por aço, alumínio e cobre. Segundo análise da McKinsey, apenas os investimentos em data centers de IA poderão alcançar entre $3,5 e $8 trilhões até 2030. Os equipamentos de TI continuam sendo o principal componente das despesas de capital, respondendo pela maior parcela dos investimentos. Esses setores exigem materiais de qualidade superior e tolerâncias mais rigorosas, elevando o nível de exigência imposto aos centros de serviços.
  • A terceirização está reconfigurando a cadeia de valor. Diante da crescente complexidade e das pressões de custos, fabricantes das Américas e da Europa estão terceirizando cada vez mais os serviços de processamento (como corte, fendimento e conformação) e de logística. Pesquisas mostram que 87% dos clientes planejavam ampliar a terceirização logística em 2025, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. Em vez de investir em equipamentos e mão de obra para realizar internamente o processamento e a logística, muitas empresas estão recorrendo a atacadistas ou centros de serviços para obter esses serviços de valor agregado.

Reconstruindo a cadeia de valor de materiais para o momento atual

Durante décadas, a cadeia de valor de materiais seguiu um padrão previsível. As usinas produziam os materiais, que eram distribuídos pelos atacadistas e centros de serviços aos usuários finais (Quadro 2). As empresas do segmento intermediário competiam principalmente em escala, gestão de estoques e eficiência transacional.

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Esse modelo está mudando. Os clientes finais enfrentam hoje escassez de mão de obra, aumento dos custos de produção, complexidade crescente das cadeias de suprimentos e prazos cada vez mais apertados. Em resposta, estão transferindo as atividades a jusante para parceiros confiáveis, capazes de combinar o fornecimento de materiais com processamento, fabricação e orquestração logística. Os distribuidores e centros de serviços têm respondido a esse desafio tornando-se fornecedores de soluções integradas e, em muitos casos, ampliando seu portfólio de materiais ou incorporando produtos especializados. Atividades como acabamento, montagem leve e logística integrada – antes consideradas periféricas – tornaram-se arenas estratégicas de crescimento. Ilustrando essa tendência, o mercado tradicional de materiais, somado ao mercado adjacente a jusante da América do Norte e da Europa, avaliado em mais de €440 bilhões em 2024, deverá alcançar €540 bilhões até 2030.

As oportunidades de crescimento são desiguais

O crescimento varia de segmento para segmento (Quadro 3). Os distribuidores atacadistas da América do Norte e da Europa, um mercado estimado em €140 bilhões em 2024, deverão registrar uma CAGR de apenas 2% até 2030, pois essas empresas dependem diretamente do nível da demanda por materiais. Sua limitada capacidade de agregar valor impede que capturem os ganhos de rentabilidade decorrentes da expansão da manufatura terceirizada. Em outras palavras, os atacadistas se beneficiam do aumento do volume movimentado, mas capturam apenas uma pequena parcela dos lucros gerados pelas atividades mais próximas do cliente final.

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Em contrapartida, os centros de serviços e as atividades de acabamento e montagem leve deverão crescer entre 4% e 5% ao ano – quase o dobro da taxa prevista para os atacadistas –, pois estão bem posicionados para oferecer os serviços de que os fabricantes terceirizados necessitam.

A história das adjacências em logística é semelhante. Espera-se que os serviços de gestão da cadeia de suprimentos – como as “torres de controle” da logística terceirizada (3PL) e da logística de quarta parte (4PL) – cresçam cerca de 5% ao ano, refletindo a forte demanda por empresas capazes de manter as cadeias de suprimentos resilientes, monitoráveis e digitalmente integradas. As tarifas, as iniciativas de reshoring e a tendência de regionalização vêm tornando o ambiente mais complexo, pois acrescentam novos pontos de ramificação e novos riscos às cadeias, aumentando a demanda por parceiros capacitados para concentrar o processamento, o armazenamento e a logística.

À medida que esses segmentos a jusante ganham tração, suas margens tendem a aumentar. O resultado é uma clara mudança ao longo da cadeia de valor: o crescimento e a rentabilidade estão migrando da simples movimentação de materiais básicos para modelos com maior componente de serviços e mais integrados aos clientes

As adjacências a montante, por sua vez, também oferecem oportunidades. A CAGR do comércio global de materiais brutos e semiacabados (estimado em €300 a €400 bilhões em 2024) deverá situar-se entre 3% e 4% até 2030. Embora as margens sejam menores do que as dos serviços prestados em etapas mais próximas do cliente final, a importância do comércio cresce em um cenário geopolítico fragmentado, no qual garantir o abastecimento, administrar a volatilidade dos preços e assegurar acesso a materiais sem depender exclusivamente das grandes usinas se tornam fatores cada vez mais estratégicos.

Segmentos de alto crescimento e alto valor estão redefinindo as oportunidades

A tendência de expansão dos serviços a jusante é reforçada pelo crescimento em diversos segmentos de alta demanda que exigem processamento complexo de materiais, elevado grau de confiabilidade e logística integrada. Essas áreas beneficiam desproporcionalmente os distribuidores e centros de serviços que ampliaram sua capacidade de processamento e sua oferta de atividades de valor agregado (Quadro 4):

Quadro 4
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Os argumentos em prol da consolidação ficam mais fortes

Apesar de sua escala e importância para as cadeias de suprimentos industriais, o mercado de distribuição e processamento de materiais da Europa e da América do Norte permanece estruturalmente fragmentado há décadas, decorrência das bases de clientes regionais e de incentivos limitados à consolidação. Hoje, porém, as forças que vêm reconfigurando a cadeia de valor – como a presença cada vez mais forte dos serviços, o aumento dos custos e as especificações técnicas mais rigorosas – estão alterando a lógica estratégica. O setor entrou em uma fase de consolidação, à medida que as empresas buscam maior escala, uma gama mais ampla de capacitações e um posicionamento competitivo mais sólido.

Tanto na Europa como na América do Norte, mesmo as maiores empresas detêm participações de mercado relativamente modestas (Quadro 5). O restante do mercado é composto por centenas de centros de serviços, processadores e especialistas de nicho regionais de médio porte.

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Essa fragmentação gera ineficiências – na utilização da capacidade instalada e nos investimentos em tecnologia, por exemplo – e lacunas na cobertura das redes. Por sua vez, essas ineficiências criam oportunidades que empresas consolidadas têm buscado explorar. O ano de 2025 foi marcado por intensa atividade de fusões e aquisições no setor de processamento de aço na América do Norte. A fusão entre a Ryerson e a Olympic Steel, por exemplo, ampliou a presença geográfica e as capacidades de ambas as empresas. A aquisição das operações de processamento da Klöckner & Co. pela Worthington Steel sinaliza um interesse crescente em combinar amplitude de processamento com serviços avançados para a cadeia de suprimentos. A Worthington Steel afirmou que sua estratégia é investir em produtos especiais de aço de alto valor agregado para mercados de nicho, onde as margens são mais elevadas. Esses movimentos recentes ilustram a aceleração da consolidação – impulsionada pela busca de escala, liderança de mercado e novas capacidades – em um cenário competitivo ainda fragmentado.

Quatro alavancas estratégicas para capturar oportunidades

À medida que o crescimento e as fontes de valor migram para as etapas a jusante da cadeia, mais próximas do cliente final, quatro alavancas estratégicas se destacam:

  • Liderar em um segmento bem escolhido. Significa concentrar recursos em nichos de alto valor com elevado potencial de crescimento. O essencial é competir onde as capacidades da empresa – sejam técnicas, regulatórias ou relacionadas ao modelo de serviço – lhe conferem vantagem.
  • Oferecer soluções, não apenas materiais. Implica deixar de ser um simples fornecedor de materiais e se tornar um parceiro de soluções de ponta a ponta ao longo da cadeia de valor, oferecendo serviços como kitting [preparação de kits de componentes], montagem leve e logística integrada. Isso permite obter margens mais elevadas nas etapas a jusante da cadeia, onde os clientes terceirizam mais atividades e remuneram resultados, não apenas insumos.
  • Construir escala e presença locais. Envolve atender à demanda decorrente do reshoring e requer a criação de redes locais densas e próximas aos clientes, capazes de proporcionar entregas mais rápidas, relacionamentos mais sólidos e maior resiliência. Essa expansão deve ocorrer de forma seletiva, por meio de consolidação direcionada em mercados fragmentados.
  • Buscar insights sobre o cliente e excelência operacional. Engloba uma gestão de contas rica e baseada em insights, capaz de antever mudanças na demanda dos clientes. A disciplina de custos é reforçada pela utilização de ferramentas digitais, da automação e, em particular, da IA agêntica. É essa alavanca que está por trás da capacidade de concretizar as demais prioridades.

Na América do Norte e na Europa, a cadeia de valor de materiais está entrando em um período de transformação estrutural, no qual a complexidade, a volatilidade e os novos padrões de demanda estão redefinindo onde e como o valor é criado. As empresas que atuam no segmento intermediário da cadeia de valor – historicamente voltadas para escala e eficiência transacional – encontram0se agora em posição privilegiada para capturar novas oportunidades como fornecedoras de soluções integradas. À medida que o crescimento e as margens migram para as etapas da cadeia mais próximas do cliente final e que os setores de alta demanda exigem padrões mais elevados de capacidade e confiabilidade, o sucesso dependerá cada vez mais de foco estratégico, excelência operacional e vocação para se alinhar estreitamente às necessidades dos clientes.

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