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Para ver o futuro, viaje à China

Por Nicola Calicchio e Vicente Assis

O que caracteriza uma empresa digital chinesa?

A ambição.

Esqueça “crescer 10% ao ano” ou “ganhar cinco pontos percentuais de market share”. Estivemos na China recentemente e o que ouvimos de executivos locais são coisas como “queremos prover todas as necessidades financeiras de um bilhão de pessoas” ou “queremos concentrar 50% do varejo chinês”.

Falar é fácil. Mas a questão é que as empresas estão entregando o que prometem.

Os três gigantes da internet na China — Baidu, Alibaba e Tencent — criaram um ecossistema enorme e inacreditável ao seu redor. Eles oferecem “superapps” em que os usuários podem fazer compras, se informar, ter acesso a entretenimento, falar com os amigos e realizar pagamentos.

Não há algo parecido no Ocidente, onde há maior pulverização. É como se Whatsapp, New York Times, Netflix, Amazon e Apple Pay estivessem todos no mesmo aplicativo de celular. Um dado muito interessante: sozinhas, essas três empresas chinesas utilizam mais servidores computacionais do que o Brasil inteiro.

Há também muitas startups, impulsionadas pelo rápido crescimento do venture capital focado em empresas digitais.

De 2011 a 2013, esses investidores haviam aplicado US$ 12 bilhões em startups chinesas. Entre 2014 e 2016, este valor explodiu: US$ 77 bilhões. Para entender o futuro, basta olhar as principais áreas onde os chineses estão investindo: carros autônomos, impressão 3D, inteligência artificial, robótica, drones e realidade virtual.

Essas metas e investimentos elevados são possíveis porque o governo chinês tem corrido para criar infraestrutura e tem sido ele próprio um investidor de novas empresas digitais. É impressionante como os chineses têm planejamentos claros de médio e longo prazos. Impossível não ver o contraste com o improviso com que estamos acostumados.

Os resultados são bastante concretos. A China já concentra 42% do e-commerce global — esse valor era de menos de 1% há dez anos. As compras pela internet na China são maiores do que as dos Estados Unidos, Japão, França, Reino Unido e Alemanha. Somadas.

A integração on e offline é imensa. O país processa 11 vezes mais pagamentos com celular do que os Estados Unidos. O dinheiro físico praticamente desapareceu na China. Até os moradores de rua pedem ajuda com um... QR code, que permite pequenas (ou grandes) transferências por aplicativo.

Também ficamos impressionados ao visitar a Hema, a loja física de produtos frescos da Alibaba. Você pode pedir uma lagosta fresca pela internet, e eles entregam na sua casa em até 30 minutos.

Na ponta da demanda, em 2016 a China já tinha 731 milhões de usuários de internet. No fim do dia, tamanho da população importa. Há mais chineses fazendo cursos online (cerca de 300 milhões) do que a população do Brasil (pouco mais de 200 milhões).

Os hábitos dessa multidão também estão mudando. Uma pesquisa recente da McKinsey mostrou que os chineses nascidos após 1990 são mais propensos a achar que produtos mais caros são melhores do que os mais baratos (38% contra 25% da população em geral), menos propensos a guardar dinheiro para os dias difíceis (28% contra 39%) e mais dispostos a pagar por produtos de luxo (42% contra 33%).

Isso significa que, ao mesmo tempo em que as empresas chinesas estão se sofisticando e tendo um papel de protagonismo na revolução digital, os consumidores estão mais exigentes, mais esclarecidos e mais atentos a marcas. Será interessante observar o resultado disso daqui a dez anos.

Comparando com a realidade brasileira, nem tudo está perdido. Temos algumas coisas a alavancar: temos mais de 200 milhões de habitantes (a maioria conectada online), muita gente empreendedora, startups promissoras, empresas locais fortes nos setores financeiros e de consumo e uma enorme vontade de melhorar o País.

Talvez esteja nos faltando apenas mais ambição — algo que, sem dúvida, faz uma enorme diferença.

*Nicola Calicchio é Chairman do Global Client Council da McKinsey. Vicente Assis é Managing Partner da McKinsey para o Brasil

***Texto originalmente publicado no Brazil Journal.