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A oportunidade que vem do lixo

Por Vicente Assis e Marcus Frank

Lixo é um problema, mas não precisa ser. À medida que a economia mundial cresce, mais pessoas são incluídas na sociedade de consumo e, naturalmente, aumenta a produção de lixo. Nada mais natural do que encarar essa potencial montanha de resíduo adicional com preocupação. Ela, porém, pode ser vista também como uma cordilheira de oportunidades. Muitos - países, cidades, comunidades -, inclusive, já perceberam, tal qual o poeta Augusto de Campos, como encontrar luxo no lixo.

Simplesmente abraçando um sistema mais adaptado à recuperação de resíduos, baseado em conceitos de economia circular, a Europa poderia elevar seu PIB em 7 pontos percentuais até 2030. Isso viria da economia de mais de US$ 600 bilhões por ano no consumo de recursos naturais e de ganhos indiretos anuais de até US$ 1,2 trilhão.

Como exemplo do desperdício de nossa sociedade, todo ano, cerca de 300 toneladas de ouro e 1.000 toneladas de prata são, literalmente, jogadas no lixo. O metal precioso é usado em placas e circuitos eletrônicos em pequenas quantidades, mas, quando visto em conjunto, o volume é colossal. Na verdade, a concentração de ouro em equipamentos eletrônicos é normalmente mais alta do que aquela encontrada nas minas de onde o metal é originalmente extraído.

Mesmo materiais menos glamourosos que o ouro, mas que também podem ser reciclados e gerar retornos consideráveis, acabam sendo desperdiçados. A reciclagem das onipresentes garrafas PET, por exemplo, não chega à metade de seu potencial. O principal entrave à captura de valor com a reciclagem de resíduos vem da necessidade de escala. As operações precisam ser de larga escala para que seja viável empregar tecnologias tradicionais e requerem uma integração eficiente na cadeia de coleta, destinação e reciclagem.

Alguns avanços têm sido obtidos para contornar o desafio da falta de escala. Novas tecnologias de recuperação utilizando solventes em temperatura baixas permitem operações de escala menor para a reciclagem de eletrônicos - processo que, hoje, depende da utilização de altos-fornos e só se justifica para grandes volumes.

Adicionalmente, pensar a cadeia do lixo de forma mais integrada também ajuda a criar valor. O simples ato de separar resíduos orgânicos tem enorme impacto sobre todo o sistema de gestão do lixo. Embora seja considerado ‘não-reciclável’, o resíduo orgânico - principal responsável por odores, emissão de gases do efeito estufa e poluição da água - pode passar por compostagem. Esse processo transforma o lixo em fertilizante agrícola e biogás, ambos produtos com grande potencial econômico. Na Índia, a companhia Waste Ventures India já cobre 45% dos custos com a coleta de lixo nas cidades onde opera com o que ganha com a compostagem desses resíduos.

Mesmo esse ato aparentemente simples de separar o lixo, porém, envolve não apenas uma significativa mudança na atitude das pessoas. Ele é um desafio que cresce ainda mais a cada dia, à medida que se produz mais lixo em todo o mundo. Quanto mais rico o país, maior o consumo de sua população e maior a geração de resíduos. Enquanto no Brasil a geração de lixo per capita por ano é de cerca de 330 kg, ela é de 720 kg nos EUA, 700 kg na Suíça e 615 kg na Alemanha.

No nosso país, a geração de lixo cresceu 4% ao ano entre 2007 e 2013, chegando aos atuais 330 kg per capita anuais. Todas as nossas grandes metrópoles já enfrentam significativos desafios para dar destino adequado a seus resíduos. A questão, agora, é como transformar esse desafio em oportunidade e capturá-la.

Já existem empresas inovadoras no país buscando destravar o valor do lixo. A principal barreira que enfrentam é exatamente a escala. Ela vem tanto da baixa integração da cadeia, que permitiria reduzir custos de operação, como da falta de incentivos econômicos e tributários para a atividade de reciclagem.

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, aprovado na forma de lei em 2010, foi importante ao definir que todos os municípios do país devem elaborar um plano para gerar menos lixo, conscientizar a população sobre consumo sustentável e investir em reciclagem. O próximo passo cabe aos municípios, responsáveis por fazer a gestão do lixo, que precisam pensar de forma integrada toda a cadeia para efetivamente tornar a reciclagem uma atividade economicamente atrativa.

Hoje, menos da metade dos municípios brasileiros já concluiu seus planos para gestão de resíduos sólidos. Mesmo nos que o fizeram, os planos adotam uma abordagem compartimentalizada. Serviços diferentes são contratados de forma isolada, sem integração, por períodos curtos que não favorecem investimentos e com remuneração baseada em métricas que não incentivam as companhias a conscientizar a população a gerar menos lixo. Araçatuba e São Bernardo do Campo são duas das raras exceções, tendo planejado a gestão do lixo de forma integrada e otimizada.

Os próprios incentivos são limitados, o que dificulta a criação de valor a partir do lixo. Exemplo disso são as regras tributárias para a cadeia da reciclagem que, em alguns casos, determina uma carga ainda maior que aquela aplicada a materiais virgens.

Dado o custo financeiro e ambiental para tratar e armazenar o lixo, caso não sejam estabelecidas políticas públicas que criem as condições para acelerar o crescimento e ganho de escala, o país continuará desperdiçando a oportunidade de capturar valor significativo daquilo que simplesmente joga fora.

A questão do lixo é um problema global. Para ficar apenas no plástico, a falta de reciclagem e de descarte adequado pode simplesmente tornar realidade a previsão, feita em conjunto pela McKinsey & Company e pelo Ocean Conservancy, que em 2050, caso nada seja feito, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

Tendo em vista os enormes desafios econômicos que o Brasil enfrenta, temos a obrigação de transformar esse grande problema em riqueza para nossa sociedade. Com incentivos corretos e políticas públicas integradas de longo prazo, lixo não será mais um problema.

*Vicente Assis e Marcus Frank são, respectivamente, sócio sênior e expert sênior na McKinsey & Company no Brasil

**Texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico