O futuro do mercado de trabalho: impacto em empregos, habilidades e salários

O futuro do mercado de trabalho: impacto em empregos, habilidades e salários

Em uma época marcada por rápidos avanços em automação e inteligência artificial, uma nova pesquisa avalia os empregos que serão criados e eliminados em diferentes cenários até 2030.

O mundo movido pela tecnologia em que vivemos é repleto de promessas, mas também de desafios. Carros autônomos, máquinas que interpretam raios-X e algoritmos que esclarecem dúvidas dos clientes são manifestações de novas e poderosas formas de automação. No entanto, mesmo que essas tecnologias aumentem a produtividade e melhorem a nossa vida, seu uso tomará o lugar de algumas atividades de trabalho que hoje são realizadas por seres humanos – um fato que vem suscitando muita preocupação.

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Automation and the new world of work
Novas e poderosas tecnologias estão aumentando a produtividade, melhorando a vida das pessoas e reconfigurando nosso mundo. Mas o que acontecerá com nossos empregos?

Tomando por base nosso relatório de janeiro de 2017 sobre automação, o mais recente estudo do McKinsey Global Institute, Jobs lost, jobs gained: Workforce transitions in a time of automation (PDF-5MB), avalia o número e os tipos de empregos que poderão ser criados em diferentes cenários até 2030 e os compara com os postos de trabalho que poderão desaparecer devido à automação.

Os resultados revelam um rico mosaico de possíveis transformações ocupacionais nos próximos anos, com implicações importantes nas habilidades e nos salários dos trabalhadores. Nossa principal conclusão é que, embora possa haver trabalho suficiente para manter todos os empregos até 2030 na maioria dos cenários avaliados, as transições serão extremamente desafiadoras – igualando-se ou até mesmo superando a escala das mudanças na agricultura e na manufatura ocorridas no passado.

  1. Qual será o impacto da automação no trabalho?
  2. Quais são os possíveis cenários para o aumento no número de empregos?
  3. Haverá trabalho suficiente no futuro?
  4. Quais as implicações da automação nas habilidades e salários?
  5. Como gerenciaremos as iminentes transições da força de trabalho?
Future of Work
 

1. Qual será o impacto da automação no trabalho?

Constatamos anteriormente que cerca de metade das atividades que as pessoas são pagas para realizar em todo o mundo poderiam, em teoria, ser automatizadas usando-se tecnologias já existentes. Pouquíssimas ocupações – menos de 5% – consistem em atividades que podem ser totalmente automatizadas.

Entretanto, em cerca de 60% das ocupações, pelo menos um terço das atividades constitutivas podem ser automatizadas, o que implica transformações substanciais no local de trabalho e mudanças para todos os trabalhadores.

Embora a viabilidade técnica da automação seja importante, ela não é o único fator que influenciará o ritmo e a extensão com que essa automação será adotada. Entre outros fatores, há o custo de desenvolver e implantar soluções automatizadas para usos específicos no local de trabalho, a dinâmica do mercado de trabalho (incluindo qualidade e quantidade da mão de obra e os respectivos salários), os benefícios da automação que vão além da substituição da mão de obra, e a aceitação regulatória e social.

Quadro interativo

Levando esses fatores em consideração, nossa nova pesquisa estima que entre pouco mais de 0% e 30% das horas trabalhadas em todo o mundo poderão ser automatizadas até 2030, dependendo da velocidade de adoção. Em nossas análises, utilizamos principalmente o ponto médio da nossa gama de cenários, o que significa um nível moderado de automação – 15% das atividades hoje realizadas por seres humanos. Os resultados variam significativamente de país para país, refletindo a combinação das atividades atualmente realizadas pelos trabalhadores e os níveis salariais vigentes.

O potencial impacto da automação sobre o emprego varia conforme a ocupação e o setor (veja quadro interativo acima). As profissões mais suscetíveis à automação são aquelas que envolvem atividades físicas em ambientes previsíveis, como operar máquinas e preparar refeições rápidas (fast food). Coletar e processar dados são duas outras categorias de atividades que podem ser realizadas de maneira cada vez melhor e mais rápida por máquinas. Isso pode levar à eliminação de grandes quantidades de mão de obra – por exemplo, em originação de crédito imobiliário, assistência jurídica, contabilidade e processamento de transações de back-office.

Todavia, é importante notar que, mesmo quando algumas tarefas são automatizadas, o número de postos de trabalho nessas ocupações pode não diminuir necessariamente, pois os trabalhadores podem começar a realizar novas tarefas.

A automação terá um efeito menor no caso de empregos que envolvem gestão de pessoas, aplicação de expertise e interações sociais, onde as máquinas ainda não conseguem reproduzir a performance humana.

De modo geral, o trabalho em ambientes imprevisíveis – como o de jardineiros, encanadores ou cuidadores de crianças e idosos – também sofrerá menos automação até 2030, pois essas atividades são tecnicamente difíceis de automatizar e, muitas vezes, pagam salários relativamente baixos, o que torna a automação uma proposta de negócio menos atraente.

 
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2. Quais são os possíveis cenários para o aumento no número de empregos?

Os trabalhadores que perderam seus empregos devido à automação podem ser facilmente identificados, ao passo que os novos empregos criados indiretamente pela tecnologia são menos visíveis e podem estar presentes em diferentes setores e regiões. Criamos modelos com algumas possíveis fontes de nova demanda por mão de obra capazes de promover a criação de empregos até 2030, mesmo considerando os efeitos da automação.

Para as três primeiras tendências, modelamos apenas o cenário da linha de tendência e tomamos como base as tendências atuais de gastos e investimentos observadas em todos os países avaliados.

Renda e consumo crescentes, especialmente nas economias emergentes

Havíamos estimado anteriormente que o consumo global poderia crescer US$ 23 trilhões entre 2015 e 2030, e que a maior parte desse crescimento viria das classes consumidoras em economias emergentes. Os efeitos desses novos consumidores serão sentidos não apenas nos países onde a renda é gerada, mas também nas economias que exportam para esses países. Em termos globais, estimamos que 250 a 280 milhões de novos empregos poderão ser criados graças ao impacto do aumento da renda – e isso somente no que diz respeito a bens de consumo. Outros 50 a 85 milhões de novos empregos poderão decorrer do aumento nos gastos em saúde e educação.

Envelhecimento da população

Em 2030, haverá no mínimo 300 milhões de pessoas acima dos 65 anos a mais do que em 2014. À medida que as pessoas envelhecem, seus padrões de gastos mudam, havendo um aumento acentuado das despesas com saúde e serviços pessoais. Em muitos países, isso criará uma nova e significativa demanda por diversas ocupações – médicos, enfermeiros e técnicos de saúde, por exemplo – mas também por assistentes de saúde em domicílio, cuidadores e auxiliares de enfermagem. Estimamos que até 2030 surgirão em todo o mundo entre 50 e 85 milhões de novos empregos na área da saúde e afins, decorrentes do envelhecimento da população.

Desenvolvimento e implementação de tecnologias

O número de empregos relacionados ao desenvolvimento e implementação de novas tecnologias também poderá aumentar. No total, os gastos com tecnologia poderão crescer mais de 50% entre 2015 e 2030. Cerca de metade desses empregos envolverão serviços de tecnologia da informação. O número de pessoas empregadas nessas ocupações é pequeno comparado com o de trabalhadores em saúde ou construção civil, mas trata-se de profissões com salários elevados. Estimamos que, até 2030, essa tendência poderá criar entre 20 e 50 milhões de empregos em todo o mundo.

No caso das três tendências seguintes, criamos não apenas um cenário da linha de tendência, mas também um cenário com aumentos graduais de investimento em determinadas áreas com base nas escolhas explícitas de governos, líderes empresariais e indivíduos visando a criação de empregos adicionais.

Investimentos em infraestrutura e imóveis

Infraestrutura e imóveis são duas áreas que historicamente recebem menos investimentos e que poderão criar uma demanda significativa por mão de obra se forem tomadas medidas para corrigir as falhas de infraestrutura e acabar com o déficit habitacional. Essa nova demanda poderá criar até 80 milhões de empregos no cenário da linha de tendência – ou até 200 milhões no cenário de aumento gradual, caso haja um aumento nos investimentos. Esses novos empregos incluem arquitetos, engenheiros, eletricistas, carpinteiros e outros profissionais especializados, bem como trabalhadores da construção civil.

Investimentos em energia renovável, eficiência energética e adaptação climática

Investimentos em energia renovável (eólica e solar, por exemplo), em tecnologias de alta eficiência energética e na adaptação e mitigação das mudanças climáticas poderão criar uma nova demanda por trabalhadores em diversas ocupações, incluindo manufatura, construção e instalação. Esses investimentos poderão criar até 10 milhões de novos empregos no cenário da linha de tendência e até 10 milhões de empregos adicionais em todo o mundo no cenário de aumento gradual.

“Marketização” do trabalho doméstico anteriormente não remunerado

A última tendência que examinamos é a possibilidade de remunerar serviços que substituiriam os trabalhos (principalmente domésticos) que atualmente não são remunerados. A chamada “marketização” de trabalhos anteriormente não remunerados já é algo comum nas economias avançadas, e o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho mundial deverá acelerar essa tendência. Estimamos que isso possa criar 50 a 90 milhões de empregos em todo o mundo, principalmente em ocupações como assistência a crianças, educação infantil, limpeza geral, culinária e jardinagem.

Quando analisamos as variações líquidas no aumento do emprego em todos os países, as categorias de maior crescimento (mesmo levando em conta os efeitos da automação) incluem as seguintes ocupações:

  • prestadores de serviços de saúde
  • profissionais como engenheiros, cientistas, contadores e analistas
  • profissionais de TI e outros especialistas em tecnologia
  • gerentes e executivos, cujo trabalho não pode ser facilmente substituído por máquinas
  • educadores, especialmente em economias emergentes com uma população jovem
  • profissionais criativos, uma categoria pequena mas crescente de pessoas dedicadas à arte, diversão e entretenimento, que serão cada vez mais requisitadas à medida que o aumento da renda cria mais demanda por lazer e recreação
  • construtores e profissões afins, particularmente no cenário que envolve investimentos maiores em infraestrutura e imóveis
  • trabalhadores manuais e prestadores de serviço em ambientes imprevisíveis, como assistentes de saúde em domicílio e jardineiros

As próximas transições da força de trabalho poderão ser enormes

As mudanças no crescimento ou declínio ocupacional líquido implicam que, nos próximos anos, um grande número de pessoas poderá ser obrigado a mudar de categoria ocupacional e aprender novas habilidades. É possível que a transformação atinja uma escala jamais vista desde a transição da força de trabalho agrícola no início do século 20 nos Estados Unidos e na Europa, e mais recentemente na China.

Estimamos que 75 a 375 milhões de pessoas talvez precisem mudar de categoria ocupacional e aprender novas habilidades.

Em todo o mundo, entre 400 e 800 milhões de indivíduos poderão perder seus empregos devido à automação e precisarão encontrar novos empregos até 2030, tomando por base nossos cenários de adoção moderada ou adoção rápida da automação. Haverá novos empregos disponíveis de acordo com nossos cenários de demanda futura por mão de obra e com o impacto líquido da automação, conforme descrito na próxima seção.

Todavia, as pessoas terão de descobrir o caminho para chegar até esses novos empregos. Do total de trabalhadores que perderam seus empregos, 75 a 375 milhões talvez precisem mudar de categoria ocupacional e aprender novas habilidades, segundo nossos cenários de adoção moderada ou rápida da automação. Por outro lado, no cenário em que a adoção da automação segue a linha de tendência, esse número seria muito pequeno – menos de 10 milhões (Quadro 1).

Future of Work

Em termos absolutos, a China irá enfrentar o maior número de trabalhadores que terão de mudar de ocupação – até 100 milhões, caso a automação seja adotada rapidamente, o equivalente a 12% da força de trabalho de 2030. Embora possa parecer um número elevado, é relativamente pequeno comparado com as dezenas de milhões de chineses que deixaram o trabalho agrícola nos últimos 25 anos.

Nas economias avançadas, a proporção da força de trabalho que talvez precise adquirir novas habilidades e buscar trabalho em novas ocupações é muito maior – até um terço da força de trabalho de 2030 nos Estados Unidos e Alemanha, e quase metade no Japão.

 
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3. Haverá trabalho suficiente no futuro?

Hoje, em vista do potencial da automação, existe uma preocupação crescente: haverá empregos suficientes para os trabalhadores? A história parece sugerir que esses medos talvez sejam infundados, pois, com o tempo, os mercados de trabalho se ajustam às mudanças na demanda por mão de obra decorrentes da disrupção tecnológica, ainda que às vezes possa haver depressão dos salários reais (Quadro 2).

Future of Work

Abordamos a questão do futuro do mercado de trabalho por meio de dois conjuntos distintos de análises: um baseado em um modelo com um número limitado de catalisadores da automação e da nova demanda por mão de obra descritos anteriormente, e outro que utiliza um modelo macroeconômico da economia que incorpora as interações dinâmicas entre as variáveis.

Se a história puder nos servir de guia, também podemos esperar que 8% a 9% da demanda por mão de obra em 2030 envolverão novos tipos de ocupações que não existiam antes.

Ambas as análises levam-nos a concluir que, havendo crescimento econômico, inovação e investimento suficientes, a criação de novos empregos poderá compensar o impacto da automação, ainda que algumas economias avançadas talvez precisem de investimentos adicionais (de acordo com nosso cenário de aumento gradual) para reduzir o risco de escassez de empregos.

Um desafio ainda maior será assegurar que os trabalhadores tenham as habilidades e o suporte necessários para concluírem a transição para os novos empregos. Países que não conseguirem gerenciar essa transição poderão ver um aumento do desemprego e a redução dos salários.

O número de empregos que serão criados no futuro de acordo com as tendências descritas acima e o impacto da automação sobre a força de trabalho variam substancialmente de país para país, dependendo de quatro fatores.

Nível salarial

Salários elevados fortalecem o caso de negócio em prol da adoção da automação. No entanto, países com salários baixos também poderão ser afetados se as empresas adotarem a automação para melhorar a qualidade, aumentar o controle sobre a produção, levar a produção para mais perto dos consumidores finais em países com salários elevados ou obter outros benefícios além da redução dos custos de mão de obra.

Crescimento da demanda

O crescimento econômico é essencial para a criação de empregos; economias estagnadas ou de baixo crescimento criam poucos empregos efetivamente novos. Portanto, países mais inovadores e com maior crescimento da economia e da produtividade provavelmente se beneficiarão com as novas demandas por mão de obra.

Demografia

Países como a Índia, com uma força de trabalho em rápida expansão, poderão auferir um “dividendo demográfico” que favorece o crescimento do PIB – se os jovens tiverem emprego. Países em que a força de trabalho está encolhendo, como o Japão, devem esperar um crescimento menor do PIB no futuro, pois tal crescimento provirá exclusivamente do aumento da produtividade.

Mix de setores econômicos e ocupações

O potencial de automação de cada país reflete o mix de setores econômicos e o mix de empregos em cada setor. O Japão, por exemplo, tem maior potencial de automação do que os Estados Unidos, pois o peso de setores altamente automatizáveis, como a manufatura, é maior.

 

A automação afetará cada país de maneira diferente

Os quatro fatores descritos acima se combinam a fim de criar perspectivas diferentes para o futuro do mercado de trabalho em cada país (veja o heat map interativo). O Japão é rico, mas estima-se que sua economia crescerá lentamente até 2030. O país enfrenta uma combinação temerária: criação mais lenta de empregos (decorrente da expansão econômica também mais lenta) e uma alta proporção de trabalhos passíveis de automação (decorrente dos salários elevados e da estrutura da sua economia).

Quadro interativo

Entretanto, em 2030, o Japão verá sua força de trabalho retrair em quatro milhões de pessoas. Se tomarmos o cenário de aumento gradual e levarmos em conta os empregos em novas ocupações que não podemos sequer imaginar hoje, o número líquido de empregos no Japão deverá manter-se, grosso modo, equilibrado.

Nos Estados Unidos e na Alemanha também poderá haver até 2030 um deslocamento significativo da força de trabalho provocado pela automação, mas o futuro crescimento projetado de ambos os países – e, portanto, a criação de novos empregos – é maior. Os Estados Unidos têm uma força de trabalho em expansão. Segundo o cenário de aumento gradual, que inclui inovações que resultam em novos tipos de ocupações e de trabalho, sua força de trabalho também está, grosso modo, em equilíbrio. A força de trabalho da Alemanha terá três milhões de pessoas a menos em 2030, mas a demanda por mão de obra do país será mais do que suficiente para empregar todos os seus trabalhadores, mesmo no cenário da linha de tendência.

No outro extremo está a Índia, um país em rápido desenvolvimento e com potencial relativamente modesto de automação nos próximos 15 anos, reflexo dos baixos salários pagos lá. Nossa análise concluiu que a maioria das categorias ocupacionais deverá se expandir na Índia, refletindo seu potencial de forte expansão econômica.

No entanto, a força de trabalho da Índia deverá crescer 30% (138 milhões de pessoas) até 2030. A Índia poderá criar novos postos de trabalho em número suficiente para compensar a automação e empregar todos esses novos ingressantes no mercado de trabalho desde que efetue os investimentos previstos em nosso cenário de aumento gradual.

China e México pagam salários mais altos que a Índia e, portanto, é provável que haja uma maior automação nesses dois países. Estima-se que a China terá um crescimento econômico robusto, porém com uma força de trabalho em retração. Como a Alemanha, o problema da China poderá ser a escassez de trabalhadores.

A taxa projetada de expansão econômica do México é mais modesta e o país poderá se beneficiar da criação de empregos no cenário de aumento gradual, além da inovação em novas ocupações e atividades a fim de aproveitar ao máximo sua força de trabalho.

Os trabalhadores deslocados precisarão ser reintegrados rapidamente no mercado para evitar o aumento do desemprego

Para criar um modelo que englobe o impacto geral da automação sobre o nível emprego e os salários, utilizamos um modelo genérico de equilíbrio que leva em consideração os impactos econômicos da automação e das interações dinâmicas. A automação tem pelo menos três impactos econômicos distintos. A maior parte da atenção tem sido dedicada ao potencial deslocamento de trabalhadores. Mas a automação também pode aumentar a produtividade da mão de obra: as empresas só automatizam algo se isso lhes permitir produzir mais, ou com melhor qualidade, com os mesmos ou com menos insumos (seja matéria-prima, energia ou mão de obra). O terceiro impacto é que a adoção da automação aumenta os investimentos na economia, elevando o crescimento do PIB no curto prazo. Criamos modelos para os três efeitos. Também criamos cenários diferentes, baseados em dados históricos, para a velocidade com que trabalhadores deslocados encontram um novo emprego.

Os resultados revelam que, em quase todos os cenários, os seis países que são o foco do nosso relatório (China, Alemanha, Índia, Japão, México e Estados Unidos) podem esperar uma situação de pleno emprego, ou algo muito próximo disso, em 2030. No entanto, o modelo também ilustra a importância de reempregar rapidamente os trabalhadores deslocados.

Se os trabalhadores deslocados puderem ser reintegrados no prazo de um ano, nosso modelo mostra que a automação pode melhorar a economia como um todo: todos os empregos serão mantidos no curto e longo prazo, os salários crescerão mais rápido do que no modelo de linha de base e a produtividade aumentará.

Entretanto, em cenários em que alguns trabalhadores deslocados demoram anos para encontrar uma nova atividade, o desemprego aumentará no curto e médio prazo. O mercado de trabalho irá se ajustando com o tempo e os níveis de desemprego diminuirão, ainda que os salários aumentem mais lentamente na média. Nesses cenários, os salários médios serão menores em 2030 do que no modelo de linha de base, o que pode refrear a demanda agregada e o crescimento no longo prazo.

 
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4. Quais as implicações da automação nas habilidades e salários?

De modo geral, os atuais requisitos educacionais de ocupações que poderão crescer no futuro são superiores aos dos empregos eliminados pela automação. Nas economias avançadas, ocupações que hoje exigem apenas a conclusão do ensino médio (ou um nível de escolaridade menor) estão em declínio por causa da automação, ao passo que as ocupações que exigem diploma universitário (ou um nível de escolaridade mais avançado) crescem.

Na Índia e em outras economias emergentes, constatamos um aumento generalizado da demanda por mão de obra, independentemente do nível educacional, embora o maior número de novos empregos esteja em ocupações que exigem ensino médio completo. Todavia, o crescimento mais rápido da taxa de emprego ocorre em ocupações que hoje exigem curso superior completo ou mesmo diploma de pós-graduação.

Os trabalhadores do futuro passarão mais tempo em atividades nas quais as máquinas são menos capazes, como gerenciar funcionários, aplicar expertise e comunicar-se com outras pessoas. Eles passarão menos tempo em atividades físicas previsíveis e na coleta e processamento de dados, onde o desempenho das máquinas já supera o dos seres humanos. As habilidades e capacidades necessárias também mudarão, exigindo mais habilidades sociais e emocionais, além de capacidades cognitivas mais avançadas, como raciocínio lógico e criatividade.

Os salários poderão estagnar ou diminuir em ocupações em declínio. Embora não tenhamos criado modelos que reflitam as mudanças nos salários relativos de todas as ocupações, o fundamento econômico da oferta e demanda de mão de obra sugere que isso deverá acontecer nas ocupações em que a demanda por mão de obra estiver diminuindo.

Nossa análise mostra que a maior parte do crescimento do emprego nos Estados Unidos e em outras economias avançadas ocorrerá em ocupações que hoje têm os salários mais altos. Algumas ocupações que hoje pagam salários baixos – auxiliares de enfermagem e professores assistentes, por exemplo – também crescerão, enquanto uma ampla gama de ocupações com salário médio sofrerá os maiores declínios no nível de emprego.

A polarização da renda poderá continuar. Escolhas políticas – por exemplo, aumentar os investimentos em infraestrutura, imóveis e transições energéticas – poderão ajudar a criar demanda adicional por empregos de salário médio, como os de trabalhadores da construção civil nas economias avançadas.

O quadro das tendências salariais é bastante diferente nas economias emergentes, como China e Índia, onde nossos cenários mostram que os empregos de salário médio (vendedores de varejo e professores, por exemplo) são os que mais crescerão à medida que esses países se desenvolvem. Isso significa que sua classe consumidora continuará crescendo nas próximas décadas.

 
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5. Como gerenciaremos as iminentes transições da força de trabalho?

Os benefícios da inteligência artificial e da automação para usuários e empresas, e o crescimento econômico que poderá decorrer a partir das suas contribuições à produtividade, são extremamente atrativos. Eles não apenas contribuirão para uma economia dinâmica capaz de criar empregos, como também ajudarão a criar os excedentes econômicos que permitirão à sociedade lidar com as transições da força de trabalho que provavelmente ocorrerão de uma forma ou de outra.

Diante da escala das transições de trabalhadores que descrevemos, uma possível reação seria tentar diminuir o ritmo e o alcance da automação na tentativa de preservar o status quo. Mas isso seria um erro. Embora uma adoção mais lenta da automação possa limitar a escala das transições da força de trabalho, isso também restringiria as contribuições que essas tecnologias podem trazer para o dinamismo empresarial e o crescimento econômico. Devemos adotar essas tecnologias, mas também enfrentar as transições da força de trabalho e os desafios que elas trazem. Em muitos países, isso poderá exigir uma iniciativa do mesmo porte do Plano Marshall, envolvendo investimento sustentável, novos modelos de treinamento, programas para facilitar as transições dos trabalhadores, esforços para preservar sua renda e colaboração entre os setores público e privado.

Todas as sociedades terão de enfrentar quatro áreas-chave.

Manter um crescimento econômico robusto para favorecer a criação de empregos

Manter o crescimento robusto da demanda agregada é crucial para a criação de novos empregos. Igualmente importante é o suporte à inovação e à criação de novos negócios. Políticas fiscais e monetárias que assegurem uma demanda agregada suficiente serão essenciais, assim como o apoio ao investimento empresarial e à inovação. Iniciativas direcionadas em certos setores também podem ajudar, incluindo, por exemplo, o aumento dos investimentos em infraestrutura e transições energéticas.

Dimensionar e repensar a reciclagem profissional e o desenvolvimento das competências da força de trabalho

Oferecer oportunidades de reciclagem profissional e incentivar as pessoas a adquirirem novas habilidades com foco no mercado ao longo de toda a vida será um desafio crítico. Para alguns países, este será o desafio fundamental. A reciclagem profissional no meio da carreira será cada vez mais importante à medida que as habilidades necessárias para ter uma carreira bem-sucedida mudam ao longo do tempo. As empresas poderão liderar esta frente em algumas áreas, inclusive oferecendo treinamento on-the-job e oportunidades para os trabalhadores atualizarem e aprimorarem suas habilidades.

Aumentar o dinamismo dos negócios e do mercado de trabalho, incluindo mobilidade

Para gerenciar as difíceis transições que antevemos, será necessária uma maior fluidez no mercado de trabalho. Isso inclui restabelecer a mobilidade da mão de obra, hoje cada vez menor nas economias avançadas. As plataformas digitais de talentos poderão promover essa fluidez, aproximando trabalhadores e empresas que buscam suas habilidades, e oferecendo uma abundância de novas oportunidades de trabalho para aqueles que estiverem abertos a elas. Formuladores de políticas públicas em países com mercados de trabalho inflexíveis precisam aprender com outros que já os desregulamentaram, como a Alemanha, que transformou sua agência federal de desemprego em uma poderosa entidade para aproximar trabalhadores e empresas.

Oferecer auxílio de renda e assessoria de transição para os trabalhadores

Será essencial oferecer auxílio de renda e outras formas de suporte durante a transição para ajudar os trabalhadores deslocados a encontrar um emprego remunerado. Além da reciclagem, diversas políticas públicas poderão ajudar, incluindo seguro-desemprego, assistência governamental para encontrar trabalho e benefícios “portáteis” que acompanham o trabalhador entre um emprego e outro.

A história nos mostra que, em diversas ocupações, os salários podem ser achatados por algum tempo durante as transições da força de trabalho. Políticas públicas mais permanentes que complementem os rendimentos do trabalho poderão ser necessárias para aumentar a demanda agregada e garantir a justiça social. Políticas mais abrangentes de salário mínimo, renda básica universal ou ganhos salariais vinculados ao aumento da produtividade são algumas das soluções possíveis que estão sendo exploradas.

Formuladores de políticas públicas, líderes empresariais e os próprios trabalhadores têm papéis construtivos e importantes a exercer para otimizar as transições da força de trabalho que estão por vir. A história nos mostra que, em todo o mundo, sociedades confrontadas com problemas monumentais muitas vezes se mostram à altura do desafio colocando o bem-estar de seus cidadãos acima de tudo.

No entanto, ao longo das últimas décadas, investimentos e políticas públicas de apoio aos trabalhadores foram sendo erodidos. Na maioria dos países membros da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as despesas públicas com treinamento e apoio à força de trabalho diminuíram. Os modelos educacionais basicamente não mudaram nos últimos 100 anos. Hoje, reverter essas tendências tornou-se crítico e é preciso que os governos priorizem com mais urgência as transições da força de trabalho e a criação de empregos.

Todos nós precisamos de uma visão criativa de como nossa vida será organizada e valorizada no futuro, em um mundo em que o papel e o significado do trabalho começam a mudar.

As empresas estarão na linha de frente à medida que o ambiente de trabalho se transforma. Isso exigirá que elas reformulem seus processos de negócios e reavaliem suas estratégias de talentos e as necessidades de sua força de trabalho, determinando cuidadosamente quais indivíduos são indispensáveis, quais podem ser realocados para outras tarefas e em que áreas novos talentos poderão vir a ser necessários. Muitas empresas estão descobrindo que treinar e preparar os trabalhadores para um novo mercado de trabalho não apenas faz parte de sua responsabilidade social, como é algo que acabará beneficiando elas próprias.

Os indivíduos também precisarão estar preparados para a rápida evolução do futuro do mercado de trabalho. Adquirir novas habilidades que serão necessárias e redefinir suas intuições sobre o mundo do trabalho será fundamental para seu próprio bem-estar. Sempre haverá demanda por trabalho humano, mas em todos os lugares do mundo os trabalhadores precisarão repensar as noções tradicionais de onde trabalhar, como trabalhar e quais os talentos e capacidades devem ser oferecidos no mercado de trabalho.

Sobre o(s) autor(es)

James Manyika é presidente do conselho e diretor do McKinsey Global Institute, do qual Susan Lund e Michael Chui são sócios e Jacques Bughin e Jonathan Woetzel são diretores; Parul Batra é consultora da McKinsey no escritório de São Francisco e Ryan Ko e Saurabh Sanghvi são consultores no escritório do Vale do Silício.

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