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O que podemos esperar da China em 2017?

Por Gordon Orr

Desde que o movimento geopolítico não descaracterize suas mais bem fundamentadas previsões, Gordon Orr antevê um ano de desaceleração do crescimento econômico, dores de cabeça para as multinacionais, apreensão demográfica e arrependimento de magnatas do futebol com relação a aquisições extravagantes.

O cenário de base para minhas perspectivas sobre a China este ano pressupõe maior atrito comercial com os Estados Unidos, com aumento de tarifas em categorias específicas de produtos (como aço e alguns produtos agrícolas), e, embora eu não espere disrupções generalizadas, acredito que algumas poucas empresas de grande destaque serão forçadas a escolher entre atender as demandas do governo chinês ou as do governo dos Estados Unidos.

Naturalmente, se declarações recentes de políticos norte-americanos se concretizarem em vigorosa interferência nas atividades comerciais, 2017 poderá se desenrolar de forma muito diferente. Ações do tipo “olho por olho” em empresas e setores específicos podem, facilmente, virar bolas de neve, com as cadeias de suprimento globais de muitas multinacionais sendo pegas no meio do fogo cruzado e consumidores de todo o mundo enfrentando escassez de produtos ou – caso os produtos estejam disponíveis – grandes aumentos de preço. O governo da China poderá implementar ações abrangentes para manter o nível de emprego, restringir novas saídas de capital e estimular a economia interna. A reestruturação e a reforma orientadas para o mercado estariam fora de cogitação. O nacionalismo econômico, a segurança alimentar e energética e a estabilidade social se tornariam soberanos.

Mas se, em termos globais, continuarmos com algo reconhecidamente próximo dos atuais acordos comerciais, como a China se sairá este ano? E – mais relevante para um país que considera o crescimento econômico de suma importância (o elemento central do décimo terceiro plano quinquenal chinês continua sendo duplicar o PIB e a renda familiar na década de 2020) – será possível reproduzir o crescimento do PIB de 2016 (cerca 6,5%)?

Repetir o crescimento econômico de 2016 não será fácil

De onde virá o crescimento da China neste ano? É improvável que venha das exportações – mesmo ignorando possíveis medidas protecionistas nos principais mercados de exportação, não há nada que possa aumentar significativamente a demanda mundial por produtos chineses. E quanto à depreciação da moeda para tornar as exportações mais competitivas? A vantagem disso seria rapidamente anulada pelo aumento dos salários. O crescimento poderia vir então dos consumidores? Será que eles se sentirão confiantes o suficiente para aumentar os gastos em 8% a 10% novamente este ano? É provável que gastem muito menos em imóveis e mobiliário (devido a medidas do governo para conter os preços e restringir o acesso ao crédito imobiliário), e também menos na aquisição de automóveis caso a atual desoneração fiscal expire. Além disso, os aumentos salariais reais provavelmente serão os menores desde a crise da Lehman Brothers. E com a esperada estabilidade dos preços dos imóveis, não haverá uma repetição do efeito-riqueza do ano passado. O estímulo ao e-commerce, que tornará certas mercadorias disponíveis em pequenas cidades pela primeira vez, pode ajudar, mas a tecnologia, ao eliminar empregos no setor de serviços e não apenas na indústria, certamente será um fator adverso. Na verdade, seu impacto está se tornando cada vez mais visível, levando cada vez mais consumidores não apenas a temer a perda do emprego, mas também a vê-los efetivamente eliminados. O impacto da tecnologia na criação de empregos em áreas como serviços médicos e educacionais favorecerá os poucos privilegiados que tiverem as habilidades necessárias para se beneficiar, mas não compensará a perda de empregos em outros setores no curto prazo.

Será que o crescimento impulsionado por investimentos, em outros setores além do imobiliário, pode servir novamente de compensação? Em certa medida, sim, com certeza. Os investimentos corporativos do setor privado acelerarão este ano, recuperando-se dos baixos níveis de 2016. Taxas de juros reais mais baixas estimularão investimentos em tecnologias que aumentem a produtividade, como robôs e serviços na nuvem. E o governo não esgotou seu estoque de bons (ou maus) projetos de infraestrutura nos quais investir – desde transporte urbano (como o projeto de US$ 36 bilhões para criar uma megacidade melhorando as ligações entre Pequim, Tianjin e a província vizinha de Hebei) até trens interurbanos, estações de tratamento de água e projetos 5G. Coletivamente, esses projetos podem gerar vários pontos percentuais de crescimento, mais ou menos como ocorreu uma década atrás, mas sem que o nível de endividamento chegue a 300% do PIB no final do ano.

Mesmo com tudo isso, ainda parece improvável que a economia chinesa alcance 6,5% de crescimento este ano, de modo que podemos esperar que as restrições à incorporação imobiliária sejam revertidas no segundo semestre. Em suma, vejo 2017 como um ano em que correremos cada vez mais rápido, esforçando-nos mais de maneiras tradicionais, para no final viajarmos mais devagar.

Fique alerta se o preço do aço cair

O ano passado começou com muito estardalhaço em torno das promessas do governo de reduzir a capacidade de produção de carvão e aço, e em novembro o governo declarou-se vitorioso. Na realidade, teria sido embaraçoso se os objetivos não fossem alcançados, considerando seu nível de modéstia. A prometida redução de 250 milhões de toneladas na produção de carvão foi menor do que a capacidade acrescentada no ano anterior, a maior parte de maneira ilegal, diga-se de passagem (sem falar que grande parte dessa capacidade ainda pode ressurgir). O impacto mais significativo resultou da restrição da produção pela limitação do número de dias em que as minas (estatais em sua maioria) poderiam operar. A produção de carvão caiu cerca de 12%, mas os preços subiram 80%. Ótimo para os donos de minas; não tão bom para os consumidores de carvão.

No setor siderúrgico, a redução da capacidade em 45 milhões de toneladas ainda deixou um excedente de várias centenas de milhões de toneladas. No momento em que escrevo, a produção de aço já aumentou em relação a 2016 (bem como os preços) diante da demanda crescente dos setores automotivo e de construção. Os poucos anúncios de consolidação industrial, em sua maioria, consistiram na fusão de grandes empresas com outras grandes empresas para se tornarem ainda maiores. Esses acordos não estão levando à redução da capacidade ou ao aumento da produtividade e, a menos que usinas siderúrgicas sejam desativadas, permanece a possibilidade de que a capacidade latente retorne ao mercado. Novas metas de redução da capacidade serão definidas e atingidas este ano, tal como aconteceu em 2016 – no papel. Uma desaceleração da construção civil poderá fazer com que a demanda de aço caia e a supercapacidade efetiva aumente. Os preços do aço podem retroceder rapidamente, a ponto de tornar negativo o fluxo de caixa de muitos produtores (cujos balanços do ano passado melhoraram apenas o suficiente para evitar a falência), o que reduzirá a confiança dos consumidores em cidades dependentes dessas indústrias (especialmente em partes do nordeste e noroeste da China) e criará um círculo vicioso em que a redução dos gastos dos consumidores leva ao declínio da performance das empresas locais e ao desemprego. Nessas cidades, os preços dos imóveis serão refreados pela falta de demanda. Os donos de imóveis também se sentirão frustrados diante da impossibilidade de vendê-los e da diminuição de sua riqueza escritural. À medida que os governos locais dessas cidades levam suas preocupações a Pequim, aumentará a pressão sobre os bancos para que continuem financiando os inadimplentes (e para que os solventes se fundam com os insolventes). Pode não acontecer este ano, mas com o tempo os empregos desaparecerão, pois muitas empresas simplesmente se tornarão improdutivas demais para competir. No entanto, isso talvez só aconteça depois que bilhões de dólares forem gastos mantendo-as abertas por mais alguns anos.

Novas leis criam novos riscos

Os legisladores e reguladores da China estiveram bem ativos em 2016, promulgando muitas novas leis com impacto para os negócios. Assegurar o compliance será uma enorme dor de cabeça, especialmente para as multinacionais, visto que o significado prático das leis só será definido ao longo do tempo. Tomemos um exemplo: a Lei Contra Competição Desleal, que se sobrepõe à Lei Contra Monopólios, propôs mudanças significativas em 2016 para proibir o “abuso de uma posição comparativamente vantajosa”. Ora, isso está aberto a amplas interpretações, permitindo em tese que pequenos varejistas e fornecedores abram processos contra empresas maiores com as quais fazem negócios. A lei também significa que os empregadores se tornam responsáveis pelos subornos e incentivos que seus empregados venham a oferecer, mesmo quando não estão cientes de que um ato de corrupção foi praticado. As multinacionais certamente reclamarão, mas essas normas são pouco diferentes das que têm de cumprir em muitos outros países e que fazem parte do compromisso ético corporativo.

Em novembro, uma nova lei de segurança cibernética foi promulgada, com implementação prevista para meados de 2017. Exigências legais envolvendo localização de dados, denúncia de incidentes cibernéticos para o governo, uso e compartilhamento de informações pessoais e restrições à publicação de qualquer conteúdo online significam que quase todas as multinacionais que operam na China terão de mudar aspectos de seu modelo operacional. Talvez as empresas sejam obrigadas a implantar uma arquitetura de rede que não faça backup de dados fora da China ou a criar uma equipe de TI que reporte eventos de rede ao Ministério, conforme exigido. Empresas que publicam conteúdo online na China talvez precisem cumprir novos requisitos quanto à propriedade local, e entender as obrigações de rever e monitorar o que é publicado para assegurar que os conteúdos sejam considerados aceitáveis pelo governo. A lei está criando muita incerteza e muito trabalho, e é possível que até mesmo algumas grandes empresas não estejam adequadamente preparadas e acabem fadadas a servir de exemplo para as demais. Em vez de serem simplesmente deportados, no ano passado houve mais casos de executivos de empresas estrangeiras sendo detidos (o caso mais recente sendo de funcionários de um cassino australiano) – e é provável que vejamos mais disso acontecendo este ano.

É provável que a China venha a sofrer em breve enormes violações públicas de dados de consumidores. Muitas empresas são negligentes no que diz respeito à segurança cibernética: por exemplo, a Comissão Reguladora de Bancos da China criticou recentemente vários bancos por permitirem que seus funcionários vendessem informações pessoais sem qualquer supervisão corporativa. Os consumidores chineses tendem a ser bastante relapsos em relação ao modo como suas informações pessoais são compartilhadas e usadas, em parte porque ainda nunca ocorreu um vazamento em grande escala. No entanto, é fácil imaginar hackers globais entrando no sistema de um banco ou de uma empresa de internet responsável por pagamentos e tornando públicos os dados obtidos. A opinião pública poderá então mudar bruscamente, provocando uma reação dura do governo e fortes restrições ao modo como dados são protegidos ou vendidos. O impacto em muitas importantes empresas chinesas poderá fazer com que invistam mais, muito mais, em cibersegurança. E alguns líderes empresariais chineses poderão ser processados por não protegerem suficientemente as informações de seus clientes.

Para onde foi o dinheiro?

Este ano veremos a continuação da grande competição entre funcionários do governo tentando reduzir a taxa de câmbio da China e investidores querendo diversificar e proteger o valor em dólar de pelo menos parte de sua base de ativos. Depois de um período de calmaria até meados de 2016, voltamos a uma situação em que o governo criou na mente dos investidores a expectativa de uma depreciação lenta e contínua – e agora sente que tem de agir agressivamente para impedir que os investidores tirem proveito do que eles consideram uma aposta ganha.

O governo chinês está sempre buscando pontos de vazamento para tapar, mas é muitas vezes contrariado por seus próprios objetivos conflitantes. Bem mais de US$ 100 bilhões deixaram a China este ano em aquisições internacionais feitas por empresas chinesas, sendo que muitos compradores pagaram acima do valor de mercado só para poderem tirar seu dinheiro do país. E isso a despeito da Administração Estatal de Câmbio frequentemente recusar-se a aprovar conversões do renminbi em tempo hábil para negociações. Como passo adicional, o Ministério do Comércio e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma anunciaram no final de novembro planos para implementar controles mais rígidos sobre qualquer investimento no exterior acima de US$ 10 bilhões, empresas estatais que invistam mais de US$ 1 bilhão em imóveis e toda empresa que aplicar mais de US$ 1 bilhão em investimentos desvinculados de seu negócio principal. Isso torna as transações mais difíceis, embora não impossíveis para investidores industriais privados, pois a maioria das transações fica abaixo de US$ 10 bilhões e envolve o negócio principal. Fechar totalmente a torneira seria incompatível com outras grandes iniciativas governamentais, como a nova rota da seda (o projeto One Belt One Road [Um Cinturão, Uma Estrada]) e o China Going Global.

Restringir ainda mais o uso de cartões de crédito nas estimadas 140 milhões de viagens ao exterior feitas por viajantes chineses em 2015 é possível, mas irritaria esses turistas de classe média (muitos dos quais são também membros do Partido) e os faria buscar outros mecanismos para gastar fora do país (os cheques de viagem continuam vivos e saudáveis). Por exemplo, em 2016 tornou-se muito popular visitar Hong Kong, comprar apólices de seguro de vida de prêmio único (com valor de até US$ 100 milhões!) usando renminbis e, em seguida, utilizar uma variedade de meios para monetizar a apólice em dólares americanos. O aperto sobre os cartões de crédito coibiu tal prática e, caso isso não se mostrasse suficiente, também foi discretamente sugerido às seguradoras que não priorizassem mais esses produtos. No âmbito dos negócios, o governo está investigando relatos de superfaturamento como meio de converter moeda local em dólares. Também restringiu o uso das zonas de livre comércio para enviar dinheiro para fora da China e começou a examinar os acordos de preços de transferência entre os ramos nacional e internacional das corporações. Solicitou-se recentemente a algumas multinacionais de grande e médio porte, que nunca haviam reportado lucros na China, que apresentassem até dez anos de dados sobre seus preços de transferência. No entanto, em uma economia tão grande e aberta ao comércio e a viagens como a da China hoje, sempre surgirão novos métodos.

O que mais pode mudar em 2017? Teoricamente, a cada ano civil os cidadãos chineses são autorizados a converter o equivalente a US$ 50.000 em renminbis para uma moeda estrangeira. Muitas pessoas fizeram isso no início de 2016 e eu prevejo que muitas outras tentarão fazê-lo novamente este mês para tirar proveito do que veem como uma aposta ganha. O volume dos fluxos que isso criaria significa que tal permissão será severamente restringida em 2017 – ou oficialmente revogada, ou simplesmente transformada em algo inviável de pôr em prática. O programa “stock connects”, que possibilita que investidores chineses façam aplicações no exterior (até um determinado limite diário) – atualmente em Hong Kong, mas provavelmente também em Londres este ano –se tornará cada vez mais popular, o mesmo acontecendo com o “bond connect” [para títulos em geral], se vier a ser lançado. Até o momento, os investidores têm se mostrado recatados, dada sua falta de familiaridade com os investimentos oferecidos, mas em 2017 o stock connect certamente será uma alternativa para levarem capital para fora da China e, por meios criativos, monetizá-lo no exterior. Multinacionais com caixa excedente na China precisam descobrir como aplicar esse dinheiro no mercado interno, pois vai ser muito difícil tirá-lo do país no próximo ano.

O resultado líquido é que, apesar de a balança comercial continuar apresentando superávit, as reservas chinesas em moeda estrangeira continuarão a cair, talvez cerca de 20% ao longo deste ano, a despeito dos melhores esforços dos órgãos reguladores. No final, é provável que os reguladores recorram à velha tática de “dar uma lição em alguns para intimidar os demais” – podemos aguardar uma série de investigações, com bastante destaque na mídia, de indivíduos ricos que ostensivamente levaram dinheiro para o exterior.

Onde estão as crianças? Seus avós estão se sentindo solitários.

Tendências demográficas de longo prazo, para os velhos e para os jovens, terão impacto mais visível na China este ano, criando ventos contrários ao crescimento. O departamento oficial de estatísticas da China publicou em 2016 dados de seu mini-censo mostrando que a taxa de fecundidade total do país – o número esperado de filhos que uma mulher terá ao longo de sua vida – caiu para 1,05. É uma das taxas mais baixas do mundo, muito abaixo dos 2,1 necessários para manter a população no nível atual (na verdade, devido ao maior número de meninos nascidos, mesmo 2,1 não seriam suficientes). Cerca de 11,3 milhões de crianças nasceram na China em 2015,1 menos que as 13 milhões nascidas em 2012, devido à diminuição do número de mulheres em idade fértil, uma tendência que continuará. Isso se compara a mais de 25 milhões de nascimentos na Índia e mais de 5 milhões na Nigéria, um país com menos de 20% da população chinesa. Será que a flexibilização da política de filho único da China ajudará? Não fará grande diferença, pois mesmo sob a velha política quase metade de todos os nascimentos já eram de segundos ou terceiros filhos. Além disso, a infraestrutura de planejamento familiar da China, que emprega centenas de milhares de pessoas, não desapareceu. O país continua a perseguir e multar aqueles que, a seu ver, têm filhos demais. O grande problema é que essa tendência significa que haverá menos filhos com os quais os pais possam gastar dinheiro, menos filhos para serem educados e se tornarem futuros consumidores. Nas áreas rurais, por exemplo, mais de 50% das escolas já fecharam devido ao impacto da queda na taxa de natalidade e da migração urbana.2

Enquanto isso, se observarmos os transeuntes em Xangai ou Nanjing hoje, notaremos uma diferença radical em relação a 20 anos atrás. A população urbana chinesacom mais de 50 anos já chegou a 250 milhões de pessoas e vem crescendo mais de 30% ao ano – e a população com mais de 60 cresce ainda mais depressa.3 Na China, a idade de aposentadoria ainda é 50 anos para as mulheres (55 para funcionárias públicas e de empresas estatais) e 60 para os homens, de modo que estes números são bem representativos do ritmo em que vem aumentando o número de aposentados, cujo nível de renda geralmente despenca para menos de 50% do que era antes da aposentadoria. Mesmo aqueles que possuem uma boa poupança tendem a refrear o consumo como garantia contra custos futuros incertos (como serviços de saúde, por exemplo); também tendem a manter o imóvel que já possuem em vez de comprarem outros. Ao mesmo tempo, a população rural com mais de 50 anos está encolhendo, pois nos últimos 20 anos as pessoas foram se mudando para áreas urbanas e se tornando parte desse grupo demográfico de aposentados urbanos.

Regiões em recessão econômica se tornarão ainda mais recessivas

Entre as províncias chinesas, Liaoning teve a difícil tarefa de relatar que sua economia encolheu em 2016. É uma região muito dependente de empresas estatais. Das suas dez maiores empresas, três são de matérias primas, três de petróleo e gás, duas são do setor automotivo e uma é de infraestrutura – apenas uma é voltada para o consumidor. Nenhuma das principais empresas de internet da China tem sede na província e os investimentos privados caíram mais de 50% no primeiro semestre de 2016 em relação ao mesmo período do ano anterior. Não só a idade média dos agricultores é de 55 anos,4 como muitos dos jovens que se formam nas universidades da região vão embora em busca de emprego – parte do contingente de 2 milhões de pessoas que deixou o nordeste da China entre 2000 e 2010.5 Nem mesmo o mercado imobiliário, que estimulou as economias locais de tantas cidades em 2016, foi capaz de estancar o declínio de Liaoning. Muitas casas compradas há apenas 15 anos não têm como ser vendidas devido à baixa qualidade da construção e à escassez de compradores. E poucos se sentem confiantes o bastante para adquirir casas ou terrenos em uma economia com a crescente instabilidade de empregos e forte pressão descendente sobre o preço dos imóveis.

O aumento do preço do carvão e do aço em 2016 talvez tenha ocultado temporariamente problemas semelhantes em outras partes do país. Todavia, os desafios enfrentados por várias das maiores cidades de Liaoning poderão ser vistos mais claramente este ano em cidades não apenas do nordeste, mas também do noroeste e mesmo do sul – na verdade, em qualquer cidade chinesa dependente de uma única indústria em que os níveis de emprego estejam sob pressão. Tirar as cidades desse ciclo inexorável de declínio tem sido uma das prioridades do governo central desde 2003. No ano passado, diversas iniciativas foram anunciadas pelo primeiro-ministro Li Keqiang, estimulando o nordeste do país a se tornar um polo de inovação em empreendedorismo e um polo de consumo, com foco em serviços turísticos. Contudo, sem uma sólida base tributária local e com jovens talentos indo buscar oportunidades em outros lugares, sem falar em uma população que envelhece rapidamente e cujas habilidades são mais adequadas à indústria pesada de uma outra época, o desafio é absurdamente difícil. Este ano veremos o anúncio de mais iniciativas para solucionar problemas de diversas cidades, incluindo verbas para resgatar suas principais empresas e revigorar seus mercados imobiliários. Apesar disso, é possível prever queixas cada vez mais veementes de cidadãos locais que enxergam poucas perspectivas de melhoria na sua qualidade de vida. Algumas cidades menores talvez tenham esgotado de tal maneira seu suprimento de ativos para venda que estão, por assim dizer, totalmente falidas.

As commodities serão a próxima categoria de ativos “em destaque”?

Este ano, os investidores da China vão sair em busca da próxima categoria de ativos em destaque, para aplicar seu capital. Depois de um ano de valorização espetacular dos imóveis, 2017 provavelmente verá o achatamento dos preços desse mercado (pelo menos é o que o governo pretende). Além disso, a classe média já tem investimentos em excesso no mercado imobiliário. Produtos de gestão de patrimônio, como os instrumentos híbridos fora do balanço oferecidos pelos bancos, tornaram-se menos atraentes para os investidores, pois os retornos nominais diminuíram e a justiça redefiniu esses investimentos como instrumentos de capital (e, portanto, os últimos da fila para receber, em caso de falência). Também se tornaram menos atraentes para os bancos, que são forçados a colocar capital próprio como garantia aos produtos de gestão de patrimônio. Os investidores querem voltar ao mercado de ações, embora o vejam como uma joga ade momentum ou somente para insiders – daí o crescente interesse em investir em fundos hedge (e a necessidade de regulá-los melhor).

Com o início de 2017, as commodities parecem ser a próxima categoria de ativos a ser alvo da exuberância dos investidores chineses. Milhões de investidores individuais e até 5 mil fundos hedge entraram no setor, e este ano provavelmente veremos alguns grandes fundos hedge falirem por prometerem demais e entregarem de menos. Os reguladores reagirão buscando aumentar a confiança no mercado de ações, lançando uma série de iniciativas para melhorar a governança corporativa e, possivelmente, tomando medidas judiciais contra diretores e auditores que não tenham cumprido bem suas responsabilidades.

A gestão de investimentos será um dos pontos altos da participação estrangeira na economia chinesa. Muitas firmas de investimento pertencentes majoritária ou totalmente a estrangeiros estão em fase final de lançamento. Se souberem construir canais e marcas, é provável que os gestores estrangeiros consigam estabelecer relações de confiança com investidores individuais locais oferecendo-lhes opções de investimento nacionais e internacionais. Gestores de ativos internacionais já são responsáveis por uma parcela significativa dos negócios de instituições chinesas, como fundos de pensão e seguradoras, cujo dinheiro administram. Para o governo, o papel desses gestores de fundos internacionais é mais do que meramente proporcionar retorno aos investidores – é também profissionalizar o setor, trazer as melhores práticas, desenvolver talentos e ganhar dinheiro para si mesmos enquanto fazem isso. Como vimos acontecer em muitos outros setores, os concorrentes locais se adaptarão rapidamente, construindo sua própria base internacional de negócios e adotando práticas operacionais internacionais.

Por fim, este ano veremos muito mais investidores estrangeiros aplicando seu dinheiro em ações chinesas, apesar dos riscos de governança mencionados acima. Com a inauguração em novembro de 2016 do stock connect unindo as bolsas de Shenzhen e de Hong Kong, os investidores estrangeiros agora têm acesso muito mais fácil a várias empresas chinesas de forte crescimento. Embora as ações de muitas delas estejam sendo negociadas a índices de preço/lucro acima de 50, ou mesmo superiores a 80, os investidores estrangeiros estão entusiasmados simplesmente com a oportunidade de investir nessas empresas – e em grande escala.

A indústria automotiva acelera rumo ao futuro

A indústria automotiva chinesa cresceu mais de 15% ao ano por uma década. No final de 2015, quando parecia que a demanda poderia estagnar, foi introduzida uma isenção fiscal que manteve a expansão do mercado em 14% em 2016, no momento em que escrevo. É claro que adicionar todos os anos mais de 20 milhões de veículos novos a uma frota de mais de 190 milhões tem suas desvantagens, a começar por uma poluição atmosférica muito visível, congestionamentos aparentemente sem fim e menos de uma vaga de estacionamento para cada dois carros em algumas cidades. Para as pessoas, o custo de possuir um carro nunca foi tão elevado; algumas chegam a pagar US$ 15.000 pelo licenciamento (se forem uma das 20 afortunadas que ganharam na loteria de placas) ou ainda mais por uma vaga de estacionamento e seguro. Nas cidades, possuir um carro é cada vez mais visto como um aborrecimento dispendioso e o governo vem sendo pressionado para melhorar a situação. Há algumas boas notícias. Apesar do aumento do número de veículos, as mortes nas estradas chinesas diminuíram 3% ao ano nos últimos cinco anos, para menos de 60.000, e a quantidade de feridos caiu ainda mais depressa. O carro médio que está nas ruas hoje é muito mais seguro do que há dez anos, os congestionamentos constantes significam que se dirige nas cidades a velocidades muito baixas e, além disso, eu acredito que a habilidade dos motoristas, em termos comparativos, está melhorando.

O governo está interessado em uma solução de médio prazo envolvendo carros não poluentes, autodirigidos e compartilhados. Em cada categoria, o governo quer que o empreendedorismo chinês aproveite a oportunidade para chegar à liderança global. É mais do que hipotético: o governo pretende instituir todo o ecossistema de leis e regulamentos, construir a infraestrutura de compartilhamento veicular (incluindo postos de recarga para veículos elétricos) e fornecer investimentos e subsídios ao consumidor para acelerar o redimensionamento do sistema. Em 2017, haverá um grande aumento no volume de dinheiro disponível para esse setor (chegando talvez ao nível do capital que foi disponibilizado à indústria nacional de semicondutores) e para muitos programas piloto de grande visibilidade, envolvendo as principais empresas chinesas dos setores automotivo e de tecnologia. O que pode dar errado? Se os subsídios privilegiarem as empresas estatais, se isenções fiscais concomitantes para a compra de veículos tradicionais não forem revogadas ou se as empresas estrangeiras forem fortemente desfavorecidas, então acabaremos na mesma situação das subvenções aos semicondutores – gasto público muito elevado para retornos muito limitados – em vez de obtermos os resultados alcançados pelos setores de energia solar ou transporte público de massa, nos quais a China é hoje líder global.

De aplausos a vaias nos estádios de futebol europeus

Os investidores chineses mergulharam fundo em times de futebol europeus, demonstrando apoio ao desejo de Xi Jinping de que a China melhore sua performance nesse esporte (nessa frente, não há muito progresso a ser relatado: o ponto baixo da seleção nacional foi ter perdido para a Síria). Mas este ano alguns desses investidores começarão a lamentar seriamente sua decisão. Não só existe grande probabilidade de alguns dos times que adquiriram serem rebaixados (perdendo, portanto, acesso aos grandes fluxos de receitas que os times da primeira divisão recebem das emissoras), como também prevejo que pelo menos um grupo de torcedores se voltará contra os novos donos de seu time, com manifestações nos jogos, nas mídias sociais, na imprensa e muito mais.

Existe uma longa tradição, especialmente na Inglaterra, de culpar os donos do time pelo mau desempenho da equipe, por não gastarem o suficiente do próprio dinheiro para contratar os melhores jogadores e o melhor técnico, e por extraírem dinheiro da agremiação. Basta perguntar a Assem Allam (Hull City), aos Oyston (Blackpool), à família Rao (Blackburn) ou mesmo aos Glazer (Manchester United) o quanto essa onda de críticas pode ser desagradável. Nenhum empresário chinês jamais enfrentou algo semelhante em seu país e provavelmente reagirá de forma ingênua quando esses protestos começarem. As grandes firmas de relações públicas já devem estar preparadas. Alguns investidores acabarão percebendo que, embora ser dono de um time de futebol possa trazer manchetes e prestígio no início, trata-se de um investimento muito volátil, muito arriscado, que possivelmente acabará em uma venda praticamente forçada, por preço bem abaixo do desejado. Podemos esperar que em 2017 algum investidor chinês baterá em retirada de seu investimento em futebol.

Investir em negócios desportivos adjacentes (como o investimento do Grupo Fosun em agentes de futebol) tende a ser menos arriscado e a proporcionar retornos mais elevados. Prevejo que não demorará muito até que os investidores chineses voltem sua atenção para a indústria de jogos de azar do Reino Unido, adquiram alguns de seus players principais e tentem trazer alguns dos elementos-chave de seu sucesso de volta para a China (ou pelo menos para a Ásia, caso os reguladores chineses rejeitem a ideia).


Com a ressalva de que tudo está sujeito a mudanças quando se trata de geopolítica, prevejo que as prioridades do governo da China este ano serão, em grande parte, domésticas. Assegurar transições suaves na liderança do governo terá precedência sobre a reforma econômica, percebida como potencialmente arriscada. Ações para aumentar o controle do Partido sobre a economia terão precedência sobre as reformas baseadas no mercado. Veremos apenas mudanças graduais nas políticas públicas, basicamente acionando as mesmas alavancas que funcionaram para o governo em 2016. Mas, na segunda metade de 2017, veremos que os gastos dos consumidores não terão crescido no ritmo necessário para efetivar o prometido crescimento do PIB, o que levará a um novo aumento de gastos em infraestrutura financiados por endividamento, à impulsão da construção civil e a um segundo semestre muito mais conturbado do que o primeiro.

Sobre o(s) autor(es)

Gordon Orr é diretor emérito da McKinsey e consultor externo sênior.